CELEBRIDADE – a rebelde GolshiFteh Farahani

Um dia depois de Jennifer Lawrence ter fotos publicadas pela revista estadunidense Vanity Fair e defender o direito sobre o seu corpo, a atriz iraniania Golshifteh Farahani fez o mesmo posando sem roupa para a revista francesa L’egoiste, e igualmente assumindo esse direito. Expulsa de seu país, Farahani coleciona uma série de premiações e pode ser vista em Exodu – deuses e Reis, de Ridley Scott, ainda em cartaz

Golsfiteh Farahani em capa da revista francesa L'egoiste e no facebook: direito ao seu corpo

Golsfiteh Farahani em capa da revista francesa L’egoiste e no facebook: direito ao seu corpo

“Eu quero ser feliz. E no mínimo educada quando você ainda está viva, certo?”. Com essa frase, a atriz decanta o direito sobre a sua existência. E louva a nova terra na qual vive, a França: “Paris é o único lugar do mundo onde as mulheres não se sentem culpadas. No Oriente você é assim o tempo todo assim que você sente os primeiros impulsos sexuais. A França me faz livre”.

Quem é Golshifteh Farahani? Como eu escrevi no início do texto, ela pode ser vista na produção hollywoodiana Exodo – deuses e Reis (Exodus: gods and Kings, 2014), de Ridley Scott, no papel de Nefertari, a mulher de Ramsés II (Joel Edgerton). Ela começou a interpretar aos 9 anos e se tornou famosa ao criar uma carreira profissional a partir de 1998. Mas, a sua história é uma mescla de rebeldia e heroísmo. Primeiro, porque estudou línguas – fala fluentemente o inglês e o francês –, se formou em música – toca piano e canta – e tem até uma banda na França. Rebeldia por ter enfrentado o preconceito e o machismo que controla e tira a liberdade da mulher oriental, mais particularmente no Irã, a sua terra natal, onde passou a sofrer tenaz perseguição não por atuação em Rede de Mentiras (Body of Lies, 2008), também de Scott – onde atua ao lado de Leonardo Di Caprio interpretando uma enfermeira iraniana-jordiana em Amam -, mas sim porque, na sessão de pré-estreia, apareceu sem o véu.

A atitude fez o governo iraniano perseguir a sua família, confiscar o seu passaporte e proibi-la de atuar no País, o que a fez exilar-se na França. Ela se tornou, também, a primeira atriz iraniana a aparecer em um filme de Hollywood desde a revolução de 1979 e passou a trabalhar com o compatriota Asgar Farhadi, em À Procura de Elly (2009) e mais recentemente atuou em Frango com Ameixas (Poulet aux Prunes, 2011), de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi; A Pedra da Paciência (2012), de Atiq Rahimi, Simplesmente uma Mulher (Just Like a Woman, 2013), de Rachid Bouchareb, o inédito My Sweet Paper Land (2013), de Hiner Saleem, e 118 Dias (Rosewater, 2014), de Jon Stewart, que estreia no Brasil no próximo mês.

Golsditeh Farahani em 118 DIAS (2014), de Jon Stewart

Golshifteh Farahani em 118 DIAS (2014), de Jon Stewart

Mas, o problema maior foi ter mostrado um dos seios em um vídeo do Prêmio César, no qual os atores e atrizes concorrentes ao prêmio de revelação tiraram a roupa reivindicando o direito sobre os seus corpos e combatendo a intolerância. A sua participação foi uma surpresa e chocou a sociedade iraniana, principalmente porque o vídeo está no youtube. Tida como uma afronta ao Islã, a sua aparição no vídeo foi do “lamentável” ao “lado negro de um filme repugnante”, indignando a República Islâmica. Isso aconteceu em 2012 e você pode conferir o vídeo, abaixo.

No mesmo ano, em outro comercial com o mesmo objetivo, ela aparece ao lado de uma frase em que clama pelo direito da mulher sobre não apenas o corpo, mas a própria vida. E, pior ainda, dirige-se diretamente a religião islâmica e a nação iraniana. Mais uma vez, o alvo é a tirania sobre a mulher.

“O corpo dela pertence a ela e a ela somente. Não pertence ao Islã ou ao povo iraniano. Ela não é sua propriedade para odiar ou para concordar ou discordar. Ela não é sua escrava. Ela tem uma mente própria e não precisa da aprovação do povo iraniano para viver a sua vida” (tradução de Caio José Pinto Freire)

“O corpo dela pertence a ela e a ela somente. Não pertence ao Islã ou ao povo iraniano. Ela não é sua propriedade para odiar ou para concordar ou discordar. Ela não é sua escrava. Ela tem uma mente própria e não precisa da aprovação do povo iraniano para viver a sua vida” (tradução de Caio José Pinto Freire)

A França está mantendo os seus ideais de liberdade e igualdade. Há um mês o jornal satírico Charlie Hebdo sofreu um atentado no qual 12 pessoas foram mortas por ação da Al Qaeda, que a reivindicou, mas o efeito foi contrário, pois logo em seguida saiu uma edição com novas charges satíricas à intolerância de grupos islâmicos. Ao pousar despida para a L’egoiste (o crédito do trabalho é do fotógrafo Paolo Roversi), certamente Golshifteh não provocará reação igual, mas o ódio à nação francesa deve ser reforçado.

Golshifteh Farahani vai aparecer ainda em mais 4 filmes: Eden (2014, França), de Mia Hansen-Love, Les Deux Amis (2015, França, em finalização), de Louis Garrel; Altamira (2015, Espanha-França, em finalização), de Hugh Hudson; Mon Souffle (2015, França), de Jihane Chouaib, e filma Les Maulheurs de Sophie (França), de Christophe Honoré, a ser lançado em 2016.

Veja o trailer de 118 dias.

Imagem de Amostra do You Tube