RELICÁRIO DO CINEMA #5 – TRÊS HOMENS EM CONFLITO

O expoente máximo do subgênero western spaghetti, é o filme analisado nessa semana na coluna, saiba o porque de Três Homens em Conflito (1966), de Sérgio Leone, merecer a alcunha de clássico incontestável

3 HOMENS EM CONFLITO (1966), de Sérgio Leone: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach

3 HOMENS EM CONFLITO (1966), de Sérgio Leone: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach

Sérgio Leone (1929 – 1989) costumava dizer que Clint Eastwood tinha apenas duas expressões faciais: uma com, e outra sem chapéu. Uma certa injustiça com o mais famoso (ao lado de John Wayne) ator dos westerns e protagonista central da célebre Trilogia dos Dólares, que tem em Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966) o seu terceiro e último capítulo. Embora as três produções possam ser encaradas como histórias independentes, esse último ato das aventuras do personagem sem nome vivido por Clint, talvez seja o maior representante do chamado westerns spaghetti, produções que apesar do pano de fundo histórico calcado na história dos EUA, era produzido e dirigido quase em sua exclusividade por europeus, sobretudo os italianos como Leone.

A trama, como o próprio nome diz (embora os brasileiros sempre tendam a inventar moda), gira em torno de três foras-da-lei que ganham a vida no Velho Oeste de modos diversos, Blondie, o Bom (Eastwood) tem uma parceria com Tuco, o Feio (Eli Wallach, soberbo), e ganham dinheiro passando a perna em xerifes e moradores de pequenas cidades, com um golpe pra lá de engenhoso. Já Angel Eyes ( Lee Van Cleef), é um impiedoso assassino de aluguel, o típico vilão detestável e temido dos típicos filmes de faroeste.

Após o término da parceria entre o Loirinho e Tuco, e o descobrimento de um certo tesouro enterrado em um local distante, tem-se ali o início da disputa entre os três, que planejam passar a perna um no outro para a obtenção da fortuna, a qual se encontra enterrada em um cemitério. Some-se ao enredo, o fato da região ser palco da Guerra Civil Americana e obrigatória a passagem dos personagens principais pela zona de conflito, o que causará alguns dramas e cenas memoráveis ao longo da película.

Em entrevista, Clint Eastwood afirmava que os charutos eram horrorosos e de péssima qualidade

Em entrevista, Clint Eastwood afirmava que os charutos eram horrorosos e de péssima qualidade

Geralmente, os detratores do gênero western, falam do pouco apuro técnico das produções, ou da interpretação afetada e clichê dos atores, mas essas reclamações jamais podem ser feita aos filmes de Sérgio Leone – e sobretudo a este em análise -, já que os enquadramentos, tanto de cenas abertas (gravadas em Almería, na Espanha), quanto nos closes ( a famosa cena do “trielo”), oferecem uma criatividade de renovação completa de um gênero dado como morto. O que vemos é um cineasta que sabia o que estava fazendo – e muito bem feito -, por sinal.

E quanto às atuações, Clint, como sempre mostra um total conforto ao interpretar o herói durão e corajoso, e Lee Van Cleef realmente faz crer que o seu personagem é perigoso e cruel – e que não se deve mexer com ele -,  sob o risco de ir falar mais cedo com Deus ou o Diabo. Mas o destaque do filme, aquele que mais tempo passa na tela, e que rouba as cenas mesmo com os outros personagens principais é Eli Wallach e o seu Tuco trambiqueiro, simplesmente magistral, tanto nas cenas de ação, quanto nos alívios cômicos no decorrer da trama, sendo este considerado, para muitos de seus fãs, o seu grande papel da carreira.

Algumas cenas memoráveis da história da Sétima Arte estão em 3 Homens em Conflito. Mesmo quem nunca o assistiu deve ter visto ou ouvido  falar da famosa cena do duelo – ou “trielo” final -, na qual os três personagens título decidem a posse do tesouro; ou viu ou ouviu sobre algumas das inúmeras paródias ao longo desses quase cinquenta anos, ou mesmo a corrida no cemitério, protagonizada por Tuco, uma das mais belas cenas que tive o prazer de ver em um filme. Mas a história não teria o mesmo peso dramático sem a trilha do insuperável mestre Ennio Morricone, que tem aqui algumas das suas melhores composições, casando completamente com a história, e pontuando com extrema precisão os momentos-chave da trama.

Três homens em Conflito é um clássico incontestável do Cinema, tendo em vista que, mesmo ao reunir vários dos clichês dos filmes de caubói, revigora um gênero quase abandonado pelos estúdios de Hollywood e se impõe  em definitivo ao apresentar um novo estilo de abordagem das histórias de faroeste, mesmo que tenha um roteiro que do ponto de vista narrativo pareça simplório, mas que em compensação traz vários diálogos memoráveis. E, sem deixar de destacar, os momentos de silêncio, o filme expressa a tensão de situações e personagens, como a já comentada sequência de quase cinco minutos do confronto final, com os seus seguidos enquadramentos nos olhos e expressões dos personagens, elementos cinematográficos elevam as expectativas do espectador, até o clímax – a qual, claro, não irei contar -, pois o objetivo aqui e querer que quem não a viu, veja,a parte ou melhor ainda, assista ao filme inteiro.

A cena clássica do duelo em 3 HOMENS EM CONFLITO: renovação da concepção dos duelos no Cinema

A cena clássica do duelo em 3 HOMENS EM CONFLITO: renovação da concepção dos duelos no Cinema

Três Homens em Conflito é altamente recomendado para os fãs do gênero e dos grandes filmes de um modo geral. Mas, os que gostam do cinema como arte irão se apaixonar.

CINCO CURIOSIDADES SOBRE TRÊS HOMENS EM CONFLITO

1- Em Il Buono, il Brutto, il Cattivo (O bom, o Mau e o Feio), o “feio” (Eli Wallach) é o personagem que mais aparece, embora o “bom” (Eastwood”) seja considerado o astro;

2- Eli Wallach quase foi decapitado na cena em que cai do trem;

3- O esqueleto encontrado por Tuco no cemitério de Sad Hill, era verdadeiro. Uma atriz espanhola colocou em seu testamento que gostaria de atuar mesmo depois de morta;

4- Sergio Leone e Ennio Morricone,o gênio que compôs as musicas dos seus filmes e de vários outros, eram colegas de classe quando crianças;

5- A cena da corrida no cemitério, em seu começo traz um improviso inusitado: o cachorro que assusta Eli Wallach, foi colocado sem o conhecimento do ator, Leone disse que tomou tal decisão porque não queria que o momento tomasse uma desnecessária carga melodramática. Coisa de gênio.

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Il Buono, il Brutto, il Cativo
The Good, the Bad and the Ugly (título internacional)
Itália-Espanha, 1966
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Lone, Agenore Incrocci, Furio Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni
Elenco: Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee VanCleef, Mario Brega, Rada Rassimov e Aldo Giuffré
Produção: Alberto Grimaldi
Fotografia: Tonino Delli Colli
Trilha Sonora: Enio Morricone
161 minutos

Conheça ou reveja  a clássica cena do cemitério, embalada pela magistral trilha de Enio Morricone:

Imagem de Amostra do You Tube

 

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