RELICÁRIO DO CINEMA #2 – Scarface (1983)

Subvertendo a lógica comum, de onde se extrai que todo remake é potencialmente um filme ruim, Scarface, de Brian DePalma, é um intrigante e complexo estudo de personagens mais perversos do gangsterismo e tem de Al Pacino uma das maiores performances masculinas da história do Cinema

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Al Pacino em SCARFACE (1983): no âmago do verdadeiro tour de force entre ator e personagem

Scarface pode ser tratado como um conto de fadas, daqueles que a Disney gosta de contar. Mas esqueça as princesinhas de tez clara, pois o protagonista é um imigrante cubano. Esqueça também as músicas melosas, a única melodia que ressoa aqui é uma infinidade de “fuck’s” nas mais diversas modalidades. E o pó que sai das asinhas das fadas? Tony Montana cheira tudo. Podemos extrair até uma lição moral no fim da película, mas não cabe a mim soltar esse spoiler, certo?

Com direção de Brian de Palma, e o robusto roteiro de Oliver Stone, Scarface é uma daquelas raríssimas exceções no mundo cinematográfico, no qual geralmente remakes são sinônimo de bomba em formato de filme, mas esse com certeza não é o caso. Para quem não sabe, o original é um filme de 1932, que no Brasil recebeu o título de Scarface – a Vergonha de uma Nação , com direção de Howard Hawks, com Paul Muni (observe a mania das distribuidoras brasileiras subtítular desde então), e conta a história de Tony Camonte, um bandido pé-rapado que ascende meteoricamente no submundo criminoso de Chicago. Cinquenta anos depois, a história é recontada, mas dessa vez o cenário é a ensolarada Miami, e o protagonista já não é mais ítalo-americano, e sim um bandido cubano deportado, em uma manobra (fictícia) de Fidel Castro para limpar as prisões da ilha.

Muito do realismo e da crueza da história se deve ao roteiro de Stone, que na época que escrevia o texto, passava por problemas com o seu vício em cocaína e, como r4esultado, o que podemos notar é um verdadeiro exorcismo do vício em forma de script. A trama começa com um ritmo lento, mas a captura do espectador é quase imediata, segue em um crescendo até o clímax, onde nos deparamos com a cena onde Montana solta uma das mais icônicas frases do Cinema. Sim, ela mesma: “Say hello to my little friend!!“. A amiguinha de Tony é uma metralhadora M-16 com lançador de granada, um mimo, digna dos sonhos de ambição do imigrante cubano. O único ponto que me desagrada um pouco em tudo isso é a trilha sonora, que não é uma das mais inspiradas de Giorgio Moroder, mas mesmo assim casa com a cafonice que os anos 80 exalam (destaque para o carro do personagem principal e o seu estofado de oncinha).

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“I’am Tony Montana! You Fuck With Me! Fuckin With The Best! “: Scarface se apresenta dando uma aula de sintaxe

Al Pacino merece uma análise à parte no filme. É impressionante a construção e a verossimilhança de seu Tony é algo incrível e extremamente satisfatório para quem é fã de Cinema, todos os seus maneirismos e palavrões, casam bem com aquilo que se imagina de um bandido latino, cheio de bravatas e temperamental até os ossos, além da cena final bad-ass, destaca-se a cena do restaurante, onde o seu inflamado discurso aos presentes, mostra o quanto Pacino desempenhou bem a complexidade do personagem. Outra que demonstra um grande trabalho é Michelle Pfeiffer, sua Elvira Hancock não se configura apenas como mero objeto de desejo, e sim como uma pessoa atraída pelo turbilhão que a egotrip de seu marido acaba se tornando, e atriz é competente em estabelecer essa relação explosiva com o personagem de Pacino.

Por conter uma das melhores atuações da carreira de um monstro do cinema, por fornecer para a posteridade uma das “catchphrases” mais homenageadas de sempre, e por estar dentre os melhores filmes de Máfia já realizados, Scarface é um clássico indiscutível, e só não digo obrigatório porque tudo feito por obrigação acaba se tornando uma chatice. Certeza que Tony Montana concordaria comigo.

7 curiosidades sobre Scarface:

1- A história inicialmente, deveria ser mais fiel ao original, mas os custos de produção, obrigaram as mudanças nas filmagens, que passou de Chicago para Miami e uma parte foi feita em Los Angeles; enquanto a comunidade cubana via com maus olhos a história de um cubano delinquente;

2 – Oliver Stone se aproveitou de sua experiência de viciado para escrever o roteiro, chegou a conviver com barões do tráfico na Flórida e foi ameaçado de morte ao falar de sua amizade com um jornalista desafeto dos traficantes;

3 – Al Pacino considera Tony Montana o melhor papel de sua carreira. Após as filmagens o ator parabenizou Stone por conseguir criar um personagem tão complexo e humano;

4- Robert de Niro e Bruce Willis foram cogitados para o papel- título, enquanto John Travolta deveria ter sido o melhor amigo de Montana, Manny;

5 – O papel de Elvira Hancock foi um dos mais disputados de que se tem notícia na história da Sétima Arte. As seguintes atrizes foram cogitadas, ou fizeram teste para ser o interesse amoroso do traficante: Rosana Arquette, Jodie Foster, Kim Basinger, Melanie Griffith, Brooke Shields, Jennifer Jason Leigh, Bridget Fonda, Geena Davis, Kathleen Turner, Sygourney Weaver, Carrie Fisher, Nancy Ellen, Sharon Stone, Glen Close e Kelly McGillis;

6- Ao todo, são desferidos 226 “fuck’s” durante os seus 170 minutos, cerca de 1,36 por minuto – só o protagonista fala 182 vezes (A banda Blink 182 tirou seu nome desse fato);

7 – Saddam Hussein era tão fã do filme, que sua firma de importações foi batizada como Montana Inc.

FICHA TÉCNICA

 

SCARFACESCARFACE
EUA, 1983
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Oliver Stone
Elenco: Al Pacino, Michele Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Mirian Colon, F. Murray Abraham e Paul Shenar
Produção: Martin Bregman
Fotografia: John A. Alonzo
Montagem: Gerald B. Greenberg e David Ra
Trilha Sonora: Giorgio Moroder
170 minutos
18 anos
Universal

Confira o trailer de Scarface.

 

 

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2 Comments

  1. Bom, muito bom dá até vontade de assistir de novo!!

  2. Cara! Esses textos estão maravilhosos! Essas listas de curiosidades estão ótimas!

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