PAULO ABEL DO NASCIMENTO – 60 ANOS

No último dia 13 de janeiro, Paulo Abel do Nascimento teria completado 60 anos. Sopranista e contraltista cearense nascido em Fortaleza, o músico teve uma breve e errática carreira, interrompida pela ação nefasta da AIDS. Deixou dois discos, algumas gravações inéditas e influenciou toda uma geração de artistas cearenses, preconizando a prática coletiva como meio de aprendizagem musical. Este artigo é parte de um projeto, denominado Paulo Abel (Ombra mai Fu), que consiste num documentário em longa-metragem e numa biografia, ambos em avançado estágio de produção, tocado na maneira do possível, há alguns anos, por este autor, e soma-se aos esforços de finalização do mesmo

Paulo Abel do Nascimento, cantor e educador cearense, teria completado 60 anos no último dia 13. Foto: arquivos Elvis Matos

Paulo Abel do Nascimento, cantor e educador cearense, teria completado 60 anos no último dia 13. Foto: arquivos Elvis Matos

Se estivesse fisicamente entre nós, Paulo Abel do Nascimento teria completado, no último dia 13 de janeiro, 60 anos. É possível que estivesse mais gordo e que os cabelos, já escassos nas têmporas, tivessem dado lugar a uma lustrosa careca. A voz, possivelmente, teria envelhecido com o seu dono, tornando-se mais grave, como a de tantos castratti sopranos, ao longo da carreira. Provavelmente seria renomado entre críticos especializados do mundo inteiro e talvez reconhecido pelo grande público. Ou então, como tantos outros artistas brasileiros no exterior, poderia ter consolidado uma audiência modesta, porém fiel. Tudo, no final, são apenas especulações.

Algo que fascina nas tragédias é justamente a possibilidade de se tecer questões e hipóteses, sem risco absoluto de acerto e nem de erro. Se Freddie Mercury tivesse sobrevivido, o jurássico Queen existiria até hoje? Se Cazuza tivesse sobrevivido, estaria desiludido com os governos do partido no qual depositou tantas esperanças? E se Renato Russo, Lauro Corona e tantos outros tivessem sobrevivido, o que seria das suas vidas hoje?

As alusões a estes personagens não são gratuitas. Todos foram vítimas do “mal do final do século XX”: a AIDS, doença que matou e ainda mata milhões de pessoas ao redor do mundo, entre as quais algumas daquelas que, por sua visibilidade, influenciaram a abordagem que a doença ganharia nos anos subsequentes ao início da epidemia, no alvorecer da década de 1980. O ator Rock Hudson (1925-1985) foi o primeiro entre os primeiros famosos a assumir a doença – e comprovadamente o primeiro a morrer em decorrência da mesma. No Brasil, este triste papel caberia à Cazuza (1958-1990), cuja agonia foi angustiosamente exposta em público. Mas talvez eu tenha me antecipado em demasia. Voltemos ao princípio.

Paulo Abel do Nascimento nasceu às 10h30 do dia 13 de janeiro de 1957. 15º filho de João Batista do Nascimento, um mestre de obras nascido em Quixeramobim, e de Raimunda Rodrigues do Nascimento, dona de casa alencarina – e um dos seis que sobreviveram às dificuldades da miséria econômica, morava na rua Caio Carlos, 165, no Benfica, ao sul do centro de Fortaleza. Este bairro abriga parte da Universidade Federal do Ceará, além do atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), a antiga Escola Técnica Federal do Ceará (ETFCE). A vizinhança com estas importantes instituições, que oferecem educação pública e gratuita, teria um peso decisivo para a formação do futuro músico.

O caçula dos Nascimento desde cedo se ligou em música. Gostava de cantar Babalu (composição da afro-cubana Margarita Lecuona, cuja versão, da lavra do compositor baiano Humberto Porto, foi gravada com sucesso pela cantora brasileira Ângela Maria) no chuveiro, segundo ele declarou  numa entrevista publicada no jornal O Povo, em 1991, e por vezes construía flautas com pedaços de bambu, como contou Antônio, o único dos seus irmãos ainda morando na capital cearense. Mecânico de aviões aposentado, Antônio também relatou um episódio que poderia explicar, ainda que parcialmente (junto a outros fatores, como a desnutrição), a hipoprodução de testosterona que  conservaria as características infantis da voz do menino do Benfica: durante a infância, brincando com os amigos, Abel levou um tombo desastrado, machucando os testículos. Com o saco inchado e chorando muito, foi levado a um posto de saúde. Porém, tudo o que o médico prescreveu, a título de “tratamento”, foram algumas compressas de gelo.

Com voz bela e afinada – falamos de um instrumento não temperado, Paulo foi estimulado a cantar desde cedo. Durante a infância, quando estudou no Grupo Rodolfo Teófilo, uma professora, chamada Joelinda, sempre o punha na programação das comemorações cívicas da escola. Sem saber, esta educadora teve papel determinante na construção da identidade do futuro artista. O repertório, segundo o próprio Paulo reportou numa entrevista à TV Ceará, na década de 1980, consistia em peças do cancioneiro popular. A ligação com este acervo sonoro seria indelével. É importante salientar, porém, que Paulo não tinha, nem poderia ter, de forma alguma, consciência da raridade da própria voz, o que lhe seria revelado a posteriori. Aliás, isto seria impossível, mesmo na Fortaleza dos dias atuais. Na década de 1960, quando Paulo começou a se interessar mais diretamente em estudar música, a única instituição de formação de músicos existentes na cidade era particular, em outras palavras, inacessível a quem provinha de uma família sem recursos.

Abel, porém, dava seus “pulos”. Uma vez que não podia frequentar o conservatório, estudou música a sua maneira: procurando as pessoas que poderiam ajuda-lo, de alguma forma, a matar sua vontade de aprender.  Foi assim que ele iniciou seus estudos com o violonista e professor João Lima (1923-1997), que costumava levar o garoto de 12 anos para encontros de violonistas, nos domingos pela manhã. Numa dessas reuniões, Abel conheceu o ex-coletor de impostos e agitador cultural Raimundo Nonato Ferreira (1913-1983). Apaixonado por música, mas sem muito talento, Ferreirinha, como era conhecido, dedicava os anos de aposentadoria aos estudos musicais no conservatório, ao mesmo tempo em que frequentava uma licenciatura em Pedagogia. Dono de um belo piano Essenfelder de parede (hoje localizado na Escola de Música Luiz Assunção, no centro de Fortaleza, caindo aos pedaços), Ferreirinha morava na rua Justiniano de Serpa (a casa ainda existe, mas não pertence mais à família Ferreira), nas cercanias de Paulo Abel. Paulo e Raimundo passavam horas escutando os discos de música erudita colecionados pelo aposentado, ao mesmo tempo em que buscavam aprender, dentro dos seus limites, a domar o difícil e fascinante instrumento.

Raimundo Nonato Ferreira, um dos principais apoiadores de Paulo Abel do Nascimento. Foto: arquivo familiar.

Raimundo Nonato Ferreira, um dos principais apoiadores de Paulo Abel do Nascimento. Foto: arquivo familiar.

A dedicação que Ferreirinha devotava à música por vezes exasperava Araniza Ferreira (morta em 2013, pouco tempo depois de me conceder uma entrevista), sua esposa. Um dia, enraivado com a impertinência da pobre dona de casa, enlouquecida pela insistência do marido naqueles estudos sobre as teclas do piano, deu o troco, do seu jeito, ao mesmo tempo rude e engraçado:

“Sai daí, Bruaca”!

Paulo compreendeu a palavra como “buarca”, e por “buarquinha” dona Araniza ficou. Paulo e Araniza manteriam uma ambígua  ligação entre si – Araniza, ao mesmo tempo em que lamentava sua ausência, parecia, às vezes, ter algum ressentimento em relação à Abel – até a morte do músico, que estava justamente na residência da Justiniano de Serpa quando foi-se embora do Brasil pela última vez.

Ferreirinha sempre procurou integrar grupos artísticos, como o Canto do Aboio, criado em 1968, e que trazia como novidade a introdução de elementos cênicos no coro. Desafinado que só ele, porém, não chegou a fazer parte da formação, segundo me esclareceu Luciano Hortêncio, ex-integrante do grupo.  Lembrou, entretanto, do pequeno vizinho, de voz bonita e interessado em música. Resolveu levá-lo a um dos ensaios. O garoto, porém, nem abriu a boca.

“Ferreirinha, de onde foi que você tirou essa ‘mulherzinha'”?

A frase (presumivelmente) proferida por uma integrante (não identificada) do Canto do Aboio, era enfatizada por Araniza, quando ela rememorava o lamentável episódio. Ferreirinha, evidentemente, ficou indignado e levou Paulo Abel de volta consigo. Comovido com o choro do pequeno amigo, prometeu ajuda-lo, da forma que pudesse, a realizar seu sonho de estudar música – fora dos estreitos limites da Fortaleza de então, de preferência.

Dona Araniza Ferreira, esposa de Ferreirinha. Fotografia: Eduardo Pereira.

Dona Araniza Ferreira, esposa de Ferreirinha. Fotografia: Eduardo Pereira.

A homossexualidade foi um fato perturbador e um tabu na vida de Paulo e dos seus familiares. O garoto delicado e de voz fina sempre foi dado às meninas da vizinhança, como disse Teresa Dantas, amiga de infância. Sua maior companheira desses tempos de inocência foi Lourdes de Almeida, já falecida. Num país patriarcal e sexista como o Brasil, obviamente isto inspirava comentários  e insultos maldosos. Mesmo em sua casa, Abel não era uma unanimidade. Enquanto os irmãos mais velhos tendiam a se envergonhar da “mulherzinha”, Maria Conceição, conhecida como Marta (1949-1993), penúltima filha do casal Nascimento e a única mulher sobrevivente, tomava para si aquele irmão de alma feminina. Infelizmente, esta generosa relação seria rompida de forma brusca, mais tarde.

Por outro lado, a família Nascimento era muito católica, e Paulo Abel frequentava assiduamente a igreja, na qual participava, inclusive, de grupos de jovens, como o JUCICA (Juventude Cívica Católica). É escusado dizer que a Igreja Católica, mesmo em tempos de Papa Francisco, ainda condena a homossexualidade. E a “culpa”, o melhor e mais eficiente dos instrumentos de dominação da consciência, pesaria sobre o futuro artista de maneira atroz. Paulo Abel viveria plenamente sua sexualidade apenas em solo europeu, porém de modo insensato e com pesados dramas de consciência. O fato é que, até hoje, a homossexualidade de Abel é um assunto desconfortável para a maior parte dos seus familiares. Quando o assunto é AIDS, então, a conversa logo toma outro rumo. No máximo, a doença simplesmente é negada.

Gay, mestiço e pobre, Paulo Abel dificilmente se adaptaria ao mundo tal como ele é. E, mais uma vez, fê-lo a partir da astúcia. Se não encontrava aprovação entre a parentela em casa, apoiava-se em familiares de mente mais aberta, como as primas Maria Lúcia Rodrigues, ainda hoje residindo em Fortaleza, e “Mundinha”, hoje residente em Brasília. E se a instituição oficial (e privada) de ensino de música na capital cearense lhe fechava a porta na cara, ele aprendia música (quase) sozinho, como me contou uma das mais importantes mulheres da vida de Paulo Abel do Nascimento: Izaíra Silvino Moraes.

Em 1968, Izaíra era uma jovem estudante de direito e bolsista do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Estava na Casa de Cultura Hispânica, na UFC, esperando um ensaio do Grupo de Tradições Cearenses, quando se deparou com um moleque meio alto e gordinho. Ele trazia um caderno de música consigo. Foi logo perguntando, sem muita cerimônia:

“Tu é (sic) Izaíra, né? Sabe música”?

A moça confirmou sua identidade e respondeu, modestamente, que sabia sim um pouco de teoria musical.

“Então, solfeja aí”.

Ele se referia a um exercício de oito compassos, em tempo quaternário, na tonalidade de dó maior. A musicista riu consigo e, claro, ajudou o pré-adolescente. A amizade (amor) entre os dois só encontraria termo com a morte do futuro cantor.

Izaíra Silvino, amiga e uma das mulheres mais importantes da vida de Paulo Abel. Foto: arquivo pessoal.

Izaíra Silvino, amiga e uma das mulheres mais importantes da vida de Paulo Abel. Foto: arquivo pessoal.

Da mesma forma em que ia aprendendo música “na marra”, esclarecendo com os outros aquilo que não entendia completamente, Paulo Abel também absorvia o que julgava necessário a sua formação cultural. Foi Izaíra também quem relatou que Paulo costumava circular entre as portas e janelas das casas de cultura estrangeira da UFC, onde até hoje se oferecem, a preços módicos (que Abel, cujo primeiro emprego foi auxiliar de pedreiro, não podia pagar), cursos de idiomas estrangeiros, a fim de “brechar” as aulas e aprender o que pudesse. Às vezes era descoberto e “corrido” de lá. Mas sempre voltava. Morreria falando cinco línguas.

Em 1974, aos 17 anos, e após vencer uma tuberculose, Paulo Abel ingressou no curso de Turismo, na então ETFCE. Embora a carreira de turismólogo não povoasse os seus sonhos, o garoto conseguiu, junto àquela instituição, dar vazão ao seu desejo de fazer música. Com ajuda de Laysce Bonfim Maciel (1917-1979), orientadora pedagógica da ETFCE, em 1976 ele conseguiu reativar o coral da instituição, parado desde a saída do maestro Orlando Leite (1926-2011) da escola técnica. Suprema ousadia para quem não detinha qualquer diploma de música. Mas este “atrevimento” se revelará fundamental na vida de Paulo. Numa das viagens do coral do ETFCE para participar das comemorações referentes ao dia de Santa Cecília, no Rio de Janeiro, o então regente conheceu o músico e professor da UERJ Michel Phillipot (1925-1996). Encantado com o jovem regente, mas consciente das suas limitações, o francês convidou-o a frequentar um pequeno curso que ele ministraria no início de 1977, em Curitiba. Em dezembro de 1976, durante o III ENCORET (Encontro de Corais das Escolas Técnicas Federais), em João Pessoa, Paulo encontrou outra figura importante para estimular-lhe o desejo de ampliar os horizontes musicais: Cleofe Person de Matos (1913-2002), maestrina e musicóloga responsável pela recuperação da obra musical do padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830). Cleofe não só elogiou a performance do rapaz e do seu grupo, como ainda lhe estimulou a aceitar o convite para o curso em Curitiba.

Durante o III ENCORET, em 1976. O jovem regente está à frente do Coral da ETFCE. Foto: arquivos Elvis Matos.

Durante o III ENCORET, em 1976. O jovem regente está à frente do Coral da ETFCE. Foto: arquivos Elvis Matos.

De volta à Fortaleza, Paulo conseguiu, através da ajuda de Laysce Bonfim Maciel e da empresária Beatriz Philomeno Gomes, a passagem de avião para o Paraná. Rica e bem relacionada, militante junto à Associação São Vicente de Paulo e ao JUCICA, Beatriz acionou o então Secretário de Cultura do governo biônico de José Adauto Bezerra, Ernando Uchoa. Uma vez na capital paranaense. Phillipot, talvez de forma equivocada (ou talvez Paulo não tenha entendido), fez uma vaga promessa de bolsa para Paulo Abel estudar na então recém-criada Universidade Estadual Paulista (UNESP), em São Bernardo do Campo. O músico, claro, ficou maravilhado. Mas não tinha um tostão para a viagem.

Albaniza Gondim, Beatriz Philomeno Gomes e Laysce Bonfim. Senhoras de caridade que ajudaram o jovem Paulo Abel. Fonte: arquivo pessoal.

Albaniza Gondim, Beatriz Philomeno Gomes e Laysce Bonfim. Senhoras de caridade que ajudaram o jovem Paulo Abel. Fonte: arquivo pessoal.

Dessa vez com o socorro do velho Ferreirinha, Paulo Abel chegou à cidade do automóvel,  entre julho e agosto de 1977, segundo o maestro Samuel Kerr. Trajava camiseta branca e calça cáqui, apesar do frio de rachar. Sem conseguir a tal bolsa e nem prestar vestibular, Paulo foi acolhido pelos amigos de Phillipot, que se encontrava fora de São Paulo, à época. Enquanto Samuel Kerr solicitou seus serviços de copista junto ao coral Cantum Nobile, dando alguma renda para o cearense se virar no Sudeste, Paulo foi morar com o musicólogo francês Roger Cotte (1921-1999) e sua esposa, François, na Vila Mariana, em São Paulo. Roger foi um dos poucos a atestar a raridade do registro vocal de Paulo Abel do Nascimento, e daria novo rumo à vida do jovem. Ele estudou, em regime livre, na UNESP, composição, direção de orquestra, musicologia e canto gregoriano. De volta à Fortaleza, para a conclusão do curso de Turismo na ETFCE, Paulo organizou uma apresentação de música antiga – o repertório certamente era influência de Roger Cotte, especialista no assunto. Mas o que ressaltou foi um fato “escandaloso”: segundo o professor aposentado da ETFCE, Myrson Lima, durante a colação de grau da sua turma, Paulo apareceu de vestido(!). O ato, irreverente mesmo hoje em dia, lhe valeu uma censura dentro da conservadora instituição.

Formado, Paulo voltaria a São Bernardo do Campo, onde passou a integrar um grupo de música antiga organizado por Roger Cotte. O grupo se apresentaria no IX Festival de Inverno de Campos do Jordão, mas uma confusão, até hoje mal explicada, envolvendo Abel e o diretor do evento, o cearense Eleazar de Carvalho (1912-1996), inviabilizou o concerto. A partir deste evento, Paulo passou a procurar novas possibilidades, fora do seu país. Com a ajuda de Roger Cotte, ele conseguiu uma bolsa do governo italiano para o Istituto Nazionale di Studi sul Rinascimento, em Florença. A bolsa, no entanto, financiava apenas os estudos e não o traslado e as despesas pessoais do estudante. Uma vez mais Paulo foi apoiado, dessa vez pela artista Giselda Leirner, que a pedido da pianista Ana Stella Chic (1925-2009), esposa de Roger Cotte, promoveu um concerto em seu apartamento, a fim de angariar recursos para a manutenção do jovem cantor cearense em terras europeias. Além disso, Giselda conseguiu, junto a um amigo, uma passagem aérea e comprou um guarda-roupa completo para o cantor.

Em solo italiano, Abel teve dificuldades em se manter. Procurou ajuda junto ao Centro Giorgio la Pira, financiado pela Cáritas, onde aprendeu melhor  sobre a cultura italiana e recebeu uma pequena ajuda financeira, por determinado tempo, até que, com a ajuda de Élisabeth de Miribel (1915-2005), Consulesa geral da França em Florença e ex-secretária do poderoso Charles De Gaulle, conseguiu trabalho junto à Villa Gucci, como uma espécie de preceptor.  Inicialmente, Abel estudou com a soprano Nella Anfuso. Porém, a convivência entre aluno e mestra foi difícil, ao ponto de Nella “desistir” de orientar o pupilo brasileiro, três anos depois, alegando indisciplina por parte do mesmo. Abel, por seu turno, queixou-se que a musicista tratava-o como um serviçal, impondo-lhe exercícios vocais sobre-humanos. Antes disso, porém, Nella submeteu Paulo Abel a uma série de exames junto ao hospital florentino de Careggi,  onde se constatou o hipogonadismo responsável pela ausência de mudança na voz de Paulo Abel, durante o período da puberdade.

O jovem rapaz, de fato, não tinha pomo-de-Adão e nem barba e sua voz se localizava na região da oitava natural feminina. Isso indicava que ela não passara pela fase de mudança, durante a puberdade, permanecendo infantil. Seria errado, contudo, dizer que Paulo Abel foi um castratto ou que tinha uma voz de castratto. Em primeiro lugar porque, ao contrário de castratti autênticos, como Farinelli (1705-1782), Paulo não foi emasculado. Em segundo, porque não há um registro específico de castratto. Os castratti não obtinham, por efeito cirúrgico, uma voz bela e educada. Aliás, o que lhes distinguia não era o seu registro, mas seu virtuosismo, demonstrado no domínio da técnica de ornamentação barroca, no contexto do Barroco Musical. Paulo Abel do Nascimento poderia ser chamado, de forma um tanto inadequada, de castratto endocrinológico, uma vez que a sua voz permaneceu infantil em decorrência do hipogonadismo, como se constatou (finalmente) na Itália, na década de 1970. Todavia, mesmo sem ser um castratto autêntico, Abel, fisiologicamente, tinha o mesmo potencial desses jovens cuja virilidade foi sacrificada, na maioria das vezes por determinação ou ingenuidade dos seus pais, em função de ambições sociais e econômicas. Aliás, a questão acerca da autenticidade do status de castratto ou não de Paulo Abel do Nascimento não passa de falsa polêmica. No máximo, uma questão banal, que não ofusca o brilho da sua voz e do seu gênio musical.

Nestes anos italianos, Abel também daria vazão aos seus apetites sexuais. Desde a rebelião de Stonewall, em 1969, o movimento LGBT se empoderou, e os espaços voltados a este público se multiplicaram mundo afora. Florença, cidade relativamente tranquila no difícil contexto italiano das décadas de 1960/1970 viu nascer, em 1974, a primeira boate gay da terra de Mussolini: Il Tabasco, localizada no interior da Piazza della Signoria. Frequentada por homossexuais do mundo inteiro, esta boate era famosa por sua dark room. Terra de fricchettone, adaptação italiana do vocábulo inglês freak, i.e., “esquisito”, Florença tinha uma vida sexual exuberante. Tudo o que um jovem homossexual nos seus vinte e poucos anos poderia desejar. Segundo Giuseppe Nuccio Iaccono, florentino que teve uma breve amizade com o cantor brasileiro, Paulo Abel tinha um comportamento sexual promíscuo, sempre acompanhado de diferentes parceiros. Um enorme risco, ainda ignorado pela comunidade LGBT, uma vez que, já em 1979, foram descritos os primeiros casos de AIDS, então uma doença sem cara nem nome, em Nova York.

Na Europa: solidão e estudos intensos. Foto: arquivo pessoal.

Na Europa: solidão e estudos intensos. Foto: arquivo pessoal.

Embora afetasse alegria e força para os mais próximos, Paulo Abel guardava grandes sofrimentos em si. Solitário, emocionalmente instável, mergulhado em diferentes e tênues relações amorosas, Paulo superestimava o próprio sucesso. Morava numa singela água-furtada, no subúrbio parisiense. Porém, diria aos familiares que ocupava um belo apartamento, um dos dois que possuía – o outro se localizava em Florença, onde Abel tinha que revezar meio ano de permanência, uma vez que não possuía cidadania francesa. Ao sobrinho, Gleison Nascimento, o cantor chegou a “confessar” que estava juntando dinheiro para comprar um jatinho, a fim de poupá-lo dos inconvenientes dos voos comerciais.

Este aspecto megalomaníaco, além de uma certa falta de orientação especializada e indisciplina, levou Paulo a seguir uma carreira errática. Em 1981, o músico fez sua estreia profissional, uma apresentação transmitida ao vivo pela Rádio e Televisão Belgo-Francesa (RTBF), por intermédio de Michel Phillipot. A partir de então, ele seguiu uma agenda de pequenos, porém constantes recitais, que lhe deram a oportunidade de viver de música, mas não de alcançar o grande público. A década de 1980 será a dos grandes “fenômenos” pop, como Michael Jackson e Madonna e Paulo não será infenso, de forma alguma, ao fascínio que a mitologia em torno daqueles artistas despertava na maior parte das pessoas. A “estranheza” da sua voz era um atrativo em si. Bastava encontrar a parceria certa. Foi imbuído desse espírito que Paulo realizou duas gravações, até hoje mantidas inéditas: a Bachiana Brasileira n. 5, com o arranjo eletrônico do músico francês José-michel, e Lebanon, composição do empresário francês Antoine Bonnel.

Com o músico francês José-Michel, em meados da década de 1980: Bachiana Brasileira n. 5, com arranjo eletrônico. Fonte: arquivos José-Michel.

Com o músico francês José-Michel, em meados da década de 1980: Bachiana Brasileira n. 5, com arranjo eletrônico. Fonte: arquivos José-Michel.

O ano de 1984 marcou uma “virada” na carreira de Paulo Abel. O músico suíço Paul-André Demierre deveria realizar a montagem da Ópera Xerxes, em homenagem ao tricentenário do compositor Georg Friedrich Haendel (1685-1759). Desde a montagem empreendida por Caffarelli, entre 1737-1738, em Londres, esta seria a segunda vez em que o personagem-título seria interpretado por um homem, no caso, o contratenor italiano Ruggiero Spallone. Uma vez que o divo era uma pessoa “intratável”, Demierre deu-lhe o bilhete azul, mas ficou de mãos atadas, já que restavam poucas semanas para a estreia. Foi então que o diretor de palco da ópera, Alessandro Balducci, soube da existência de um jovem brasileiro de voz extraordinária. Paulo foi chamado para o teste e encantou a todos. Foi nesta montagem que ele tomou contato com a ária que o consagraria internacionalmente: Ombra mai Fu. Quando Paulo precisou cantá-la no teste para a cena que fez em Ligações Perigosas, não deu para os outros 72 candidatos.

Em 1985, quase sete anos após deixar o Brasil, Paulo Abel do Nascimento voltou ao seu país de origem. Veio como convidado do Festival Aquarius, organizado pelo jornalista Péricles de Barros, ligado à Rede Globo, e pelo  maestro Isaac Karabtchevsky. Paulo se apresentou no dia 18 de agosto, nos jardins do Palácio do Catete. O “fenômeno” foi objeto de uma pequena matéria para o Fantástico, à época, o noticiário mais prestigiado da noite de domingo. No dia 22, o cantor esteve no então decadente Teatro José de Alencar, num concerto beneficente organizado pelas senhoras de caridade. A ligação de Paulo Abel com estas damas da alta sociedade seria constante. Além de Beatriz Philomeno, Maria Macedo, esposa de um rico empresário cearense, teria uma forte relação com o músico, responsabilizando-se, inclusive, pelo traslado das suas cinzas.

Este retorno marcou também o reencontro de Paulo com a sua família, à qual ele podia apenas mandar cartas e fazer escassos (e caríssimos) telefonemas internacionais, e também com seus amigos, como Izaíra Silvino, neste período coordenadora da Casa de Cultura Artística da Universidade Federal do Ceará. É provável que, já neste período, Paulo Abel do Nascimento estivesse contaminado com o vírus HIV e tivesse ciência de que era soropositivo. Isto explicaria o sentido de urgência com que o cantor chegou para Izaíra, quase de supetão, propondo-lhe a realização de uma ópera cearense. Lúcida, a musicista ponderou que esta seria uma empresa deveras difícil no contexto de um Estado no qual sequer havia uma escola de formação de músicos. Propôs-lhe então uma espécie de escola, com a realização de oficinas de formação em diferentes funções artísticas, cujo resultado seria a montagem de óperas como aquela que propunha Paulo. Para isso, Izaíra e Abel arregimentaram talentos locais, como o professor, poeta e pesquisador Oswald Barroso, o compositor Eugênio Leandro, a pianista Nara Vasconcelos, o artista plástico e músico Descartes Gadelha e o compositor Tarcísio José de Lima, entre tantos outros que se uniram num esforço colaborativo para levar adiante o sonho de fazer música, coletivamente, apesar de todos os pesares de um país que começava a sair das amarras da ditadura civil-militar.

É aí que surge uma das maiores contribuições de Paulo Abel do Nascimento para a educação musical no Ceará: muitos daqueles que fizeram parte do projeto ópera, como o então bolsista da Casa de Cultura Artística, Elvis de Azevedo Matos, levaram adiante sua concepção coletiva de aprendizagem musical, sendo diretamente responsáveis pelo surgimento do curso de licenciatura em música da UFC, o único do Brasil a não exigir o Teste de Habilidade Específica. A Ópera com a qual Paulo Abel sonhou, Moacir das Sete Mortes: ou a vida desinfeliz de um cabra da peste, tem libreto assinado por Oswald Barroso e Eugênio Leandro e música composta por Tarcísio José de Lima. A obra jamais foi encenada integralmente, mas não foi esquecida. É possível que um dia seja enfim apresentada ao público. Resta, no entanto, a dúvida: quem cantaria as partes escritas para a poderosa voz de Paulo Abel?

A partir de 1985, as vindas de Paulo Abel ao Brasil passam a ser constantes. Em geral, ele aportava no Rio de Janeiro, onde mantinha amigos importantes, como Joãozinho Trinta (1933-2011) e passava o Carnaval, seguindo para Brasília, onde ficava na casa de Mundinha, sua prima, e costumava dar recitais e oficinas, e terminava em Fortaleza, onde matava as saudades dos parentes e amigos e continuava a coordenar os trabalhos do Projeto Ópera. E foi justamente na sua terra que Abel encontrou seu último amor, Claudio Belisario. Claudio acompanharia Abel na derradeira viagem do músico para a Europa, mas problemas com seu passaporte impediram-no de embarcar.

Em 1986, Paulo lançaria seu primeiro CD: Alessandro et Domenico Scarlatti: cantates et sonates, pela pequena Lyrinx. Hoje uma raridade, este disco guarda a rica sonoridade da voz de Paulo Abel do Nascimento, antes que a AIDS se manifestasse. Além disso, trata-se de um trabalho de resgate de uma obra perdida no tempo, uma vez que fora feita para ser cantada por castratti.

1988 seria um ano auspicioso para o artista em ascensão: Paulo participou do filme  Ligações Perigosas, numa pequena cena na qual um castratto entretém a nobreza francesa. A ponta foi significativa, uma vez que lhe abriu as portas para novas oportunidades artísticas. E, suprema das ironias, justamente no mesmo Festival de Inverno de Campos do Jordão, 10 anos após o incidente com Eleazar de Carvalho, Paulo marcaria a consolidação do seu reconhecimento em terras brasílicas. O evento teve ótima repercussão e lhe granjeou ainda mais prestígio (e inveja) no meio cearense. Com apoio de Violeta Arraes (1926-2008), secretária de cultura do governo Tasso Jereissati e sua amiga desde a época em que a socióloga residia na França, Paulo participaria de eventos significativos, como a reinauguração do Teatro José de Alencar.

No XIX Festival de Inverno de Campos do Jordão, com a cravista Helena Jank. Foto: arquivos Helena Jank.

No XIX Festival de Inverno de Campos do Jordão, com a cravista Helena Jank. Foto: arquivos Helena Jank.

Todavia, é também neste período que os sintomas da terrível doença que daria termo a sua vida se manifestam com mais contundência. A morte da sua mãe, em 19 de setembro de 1990, em decorrência de problemas cardíacos, na opinião de quase todos os seus amigos, precipitou a sua morte. É possível. Não obstante, o organismo de Paulo Abel já estava deveras debilitado. Claude Fondraz, seu pianista por vários anos, relatou que, certa vez, numa apresentação na França, o músico teve um ataque de diarreia, entre uma ária e outra, sendo obrigado a deixar uma plateia e músicos atônitos.

Apesar de tudo, Paulo desejava trabalhar. Tanto que, no final de 1990, ele grava  seu último disco: Melodies Populaires Brésiliennes, também pelo selo Lyrinx. O repertório consiste numa amostra significativa do cancioneiro popular brasileiro, além de peças de compositores como o pernambucano Marlus Nobre, que, na condição de diretor do MIDEM, em 1985, promoveu um bem-sucedido concerto de Paulo Abel, em companhia da esposa do compositor, a pianista Maria Luíza Nobre. É notório que sua voz está um pouco mais débil, em comparação ao disco anterior, porém, sua beleza e a técnica de Paulo ainda estão irretocáveis.

O desejo de deixar um legado levou o músico a tentar acessar o doutorado em Musicologia na Sorbonne. Para isso, ele procurou a prestigiada Georgie Durosier. Em entrevista por e-mail, a professora e escritora, especialista em música barroca e da I Guerra Mundial, argumentou que foi procurada pelo cantor, porém seu trabalho não se enquadraria naquilo que seria necessário para se empreender os estudos do doutorado. Segundo Claude Fondraz, Paulo Abel do Nascimento conquistara um DEA – o que, no antigo sistema educacional francês, equivalia a um mestrado. Porém, Durosier me garantiu que Abel não possuía mestrado e que seu projeto não caminhou adiante. Não por incompetência, mas pela morte.

No início da década de 1990, visivelmente mais abatido. Foto: arquivos Claude Fondraz.

No início da década de 1990, visivelmente mais abatido. Foto: arquivos Claude Fondraz.

Paulo Abel do Nascimento morreu no dia 13 de maio de 1992, aos 35 anos, na França. A notícia pegou a família e os amigos de surpresa, salvo aqueles que, de uma forma ou de outra, já suspeitavam da doença. Ainda em 1992, poucos meses antes de fim, Paulo fez sua última visita à cidade que o viu nascer. Vinha do Rio de Janeiro, onde passou seu último Carnaval. Todavia, as coisas não iam bem. A aparência do músico, magérrimo e com cabelos ralos, despertou a mórbida curiosidade de amigos, vizinhos e desafetos. No campo doméstico, as coisas estavam piores. Casada pela segunda vez, Marta, a irmã que fora o principal esteio de Paulo entre seus irmãos, rompeu com o músico, acusada de se apropriar de recursos que o irmão bem-sucedido enviava ao seu pai. Abel se refugiou na residência de dona Araniza, evitando contato com os familiares. Foi de lá que o músico, intempestivamente, decidiu ir embora. Rumou para a França, sendo recebido por Claude Fondraz. Nem teve tempo de ir para casa. Foi obrigado a se internar no Hospital Universitário de Paris, de onde nunca mais sairia.

Eu não conheci Paulo Abel do Nascimento. Este personagem fabuloso chegou até mim em 2009, por ocasião de um pequeno curso de canto e fisiologia da voz, no âmbito da VII Semana de Humanidades UECE/UFC. Desde então, o fascínio por esta pessoa, cuja vida foi marcada simultaneamente pela superação e pela tragédia, só cresceu. Esta é uma breve síntese biográfica, um extrato de um trabalho enorme, que realizo com a paciência e o empenho de um artesão: a reconstituição, fragmento por fragmento, da vida de uma pessoa que, até poucos anos atrás, só podia ser acessada através de notas perdidas na internet ou da pioneira biografia do professor Elvis Matos, lançada em 2006 pela Fundação Demócrito Rocha.

O projeto, intitulado Paulo Abel (Ombra mai Fu) consiste numa ampla biografia e num documentário, ambos em avançado estágio de produção, que caminham ao ritmo de um trabalho sem recursos, feito na base da colaboração e de muito amor. Este esforço, junto a de outras pessoas, gerou frutos.  Em 2012, dentro do Ano Paulo Abel do Nascimento, promovido pela Secretaria de Cultura Artística da UFC, na figura de Elvis Matos, titular da secretaria, foi lançado o livro Paulo Abel: eu me lembro. Ainda neste ano, foi lançado o sítio http://www.pauloabelcom e exibida uma primeira montagem do documentário Paulo Abel (Ombra mai Fu), num belo evento realizado no auditório da Reitoria da UFC. Oxalá a finalização desse ambicioso projeto possa levar ao público a história desse homem fascinante, de voz angelical e ao mesmo tempo tão humano, que escalou os cumes da glória para, como numa tragédia grega, sofrer a sanção invejosa dos deuses.

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