BELCHIOR: o adeus ao poeta recluso

Há anos recluso, o cantor, compositor e poeta sobralense morreu dormindo, aos 70 anos, numa pequena cidade do interior gaúcho. Deixa como legado uma obra referencial e uma biografia marcada pelo desprendimento que fê-lo largar a carreira, há mais de dez anos, apesar das insistentes ofertas para voltar aos palcos. O corpo de Belchior está sendo velado no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura e será sepultado em Fortaleza

O cantor, compositor, poeta e pintor Belchior faleceu neste domingo. Foto: reprodução.

O cantor, compositor, poeta e pintor Belchior faleceu neste domingo. Imagem: reprodução.

Há pouco mais de uma semana, quando o cantor Jerry Adriani se foi, quedei-me a pensar que sua geração artística, a (não mais tanto) jovem guarda, estava começando a se despedir. Exageros com pinta de falsa nostalgia, prepotência histórica evidente. A bem da verdade, a – tá bom – jovem guarda já se foi há muito tempo, e seus sobreviventes, vez por outra, precisam morrer para provar que ainda estão vivos.

Isto porque, infelizmente, neste país de memória curta, muitos e muitos artistas são descartados pelo afã de “novidade”, nem sempre tão nova assim, hoje muito menos. Parafraseando Belchior, morto neste domingo, aos 70 anos, no interior do Rio Grande do Sul, [na verdade] quem nos dá a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus e contando seus metais.

Esta clarividência e o espírito desprendido, um tanto anárquico, devem ter inspirado o cantor, compositor, poeta e pintor cearense a largar a carreira, em 2005, logo após se conhecer Edna Prometheu, sua última esposa. Desde então, os mitos em torno da sua aparente “loucura” se tornaram maiores do que a sua obra. Uma evidente injustiça, porém compreensível, num país que hoje é pautado pelo Big Brother e por seriados da Netflix.

Filho de um pequeno comerciante, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nasceu na semiárida Sobral, no sertão cearense. Estudou música, filosofia e medicina, que largou no quarto ano. O espírito errante fê-lo acompanhar um grupo de artistas que se consagraria como o “pessoal do Ceará”, em meados da década de 1970. Culto, ganharia destaque como letrista, ao lado de parceiros como Fagner e Fausto Nilo.

Com Alucinação, em 1976, conquistaria projeção nacional. Best seller para os padrões da indústria fonográfica brasileira da época, com 30 mil cópias vendidas em três semanas, o disco conta com sucessos como Apenas um Rapaz Latino-Americano e Como Nossos Pais, imortalizada na versão gravada por Elis Regina. Uma obra-prima referencial de um período de desbunde e desespero, no auge da ditadura civil-militar brasileira.

Embora nunca tenha feito parte da elite da música popular brasileira, Belchior inspirava profundo respeito nos seus pares. É só ler o noticiário acerca da sua morte. Há uma espécie de unanimidade em torno deste artista enigmático, que chegou a receber uma proposta milionária (e desrespeitosa) de uma montadora para estrelar um comercial, além de ofertas de empresários para que voltasse aos palcos, com dívidas quitadas – tudo em vão. Sua recusa quase franciscana de desfrutar dos bens que sua arte lhe proveu, sua determinação joãogilbertiana de se manter recluso, aumentaram ainda mais a idolatria em torno de si. Algo de que, certamente, Belchior não gostava.

Tais idiossincrasias também tornaram o artista numa figura querida e cultuada entre diferentes gerações. Seu público compreende de sessentões saudosistas à jovens com síndrome de nostalgia de tempos não vividos. Embora tenha gravado seu último álbum de inéditas em 1996, Belchior se revestiu daquela aura messiânica que apenas os loucos e os gênios parecem ter. Humilde, ele tinha consciência de que não era nada disso. Mas o público, este poço de carência referencial, queria que isto fosse verdade e esperava que ele, setentão e com saúde frágil, voltasse triunfalmente, qual um D. Sebastião, para nos redimir da mediocridade cultural.

Belchior, porém, queria mais era sumir, sem melancolia e nem estardalhaço. Fracassou, mas não por sua culpa. Embora estivesse abrigado numa casa simples, no interior do friorento Rio Grande do Sul, e seus vizinhos nem suspeitassem de que um homem famoso vivia ao seu lado, o bardo cearense não pôde refrear a força da comoção que se abateu com a sua morte, durante o sono, num cantinho da casa que não era sua, cercado de livros. Neste momento, está sendo velado, com toda pompa e circunstância, em Fortaleza, onde será sepultado. Milhares de curiosos terão a oportunidade de ver, com os próprios olhos, o cadáver do homem que, por muitos anos, foi dado como “desaparecido”. Um triste espetáculo, a título de homenagem.

Que lhe deixem em paz, tão logo o show em torno de si termine.

PAULO ABEL DO NASCIMENTO – 60 ANOS

No último dia 13 de janeiro, Paulo Abel do Nascimento teria completado 60 anos. Sopranista e contraltista cearense nascido em Fortaleza, o músico teve uma breve e errática carreira, interrompida pela ação nefasta da AIDS. Deixou dois discos, algumas gravações inéditas e influenciou toda uma geração de artistas cearenses, preconizando a prática coletiva como meio de aprendizagem musical. Este artigo é parte de um projeto, denominado Paulo Abel (Ombra mai Fu), que consiste num documentário em longa-metragem e numa biografia, ambos em avançado estágio de produção, tocado na maneira do possível, há alguns anos, por este autor, e soma-se aos esforços de finalização do mesmo

Paulo Abel do Nascimento, cantor e educador cearense, teria completado 60 anos no último dia 13. Foto: arquivos Elvis Matos

Paulo Abel do Nascimento, cantor e educador cearense, teria completado 60 anos no último dia 13. Foto: arquivos Elvis Matos

Se estivesse fisicamente entre nós, Paulo Abel do Nascimento teria completado, no último dia 13 de janeiro, 60 anos. É possível que estivesse mais gordo e que os cabelos, já escassos nas têmporas, tivessem dado lugar a uma lustrosa careca. A voz, possivelmente, teria envelhecido com o seu dono, tornando-se mais grave, como a de tantos castratti sopranos, ao longo da carreira. Provavelmente seria renomado entre críticos especializados do mundo inteiro e talvez reconhecido pelo grande público. Ou então, como tantos outros artistas brasileiros no exterior, poderia ter consolidado uma audiência modesta, porém fiel. Tudo, no final, são apenas especulações.

Algo que fascina nas tragédias é justamente a possibilidade de se tecer questões e hipóteses, sem risco absoluto de acerto e nem de erro. Se Freddie Mercury tivesse sobrevivido, o jurássico Queen existiria até hoje? Se Cazuza tivesse sobrevivido, estaria desiludido com os governos do partido no qual depositou tantas esperanças? E se Renato Russo, Lauro Corona e tantos outros tivessem sobrevivido, o que seria das suas vidas hoje?

As alusões a estes personagens não são gratuitas. Todos foram vítimas do “mal do final do século XX”: a AIDS, doença que matou e ainda mata milhões de pessoas ao redor do mundo, entre as quais algumas daquelas que, por sua visibilidade, influenciaram a abordagem que a doença ganharia nos anos subsequentes ao início da epidemia, no alvorecer da década de 1980. O ator Rock Hudson (1925-1985) foi o primeiro entre os primeiros famosos a assumir a doença – e comprovadamente o primeiro a morrer em decorrência da mesma. No Brasil, este triste papel caberia à Cazuza (1958-1990), cuja agonia foi angustiosamente exposta em público. Mas talvez eu tenha me antecipado em demasia. Voltemos ao princípio.

Paulo Abel do Nascimento nasceu às 10h30 do dia 13 de janeiro de 1957. 15º filho de João Batista do Nascimento, um mestre de obras nascido em Quixeramobim, e de Raimunda Rodrigues do Nascimento, dona de casa alencarina – e um dos seis que sobreviveram às dificuldades da miséria econômica, morava na rua Caio Carlos, 165, no Benfica, ao sul do centro de Fortaleza. Este bairro abriga parte da Universidade Federal do Ceará, além do atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), a antiga Escola Técnica Federal do Ceará (ETFCE). A vizinhança com estas importantes instituições, que oferecem educação pública e gratuita, teria um peso decisivo para a formação do futuro músico.

O caçula dos Nascimento desde cedo se ligou em música. Gostava de cantar Babalu (composição da afro-cubana Margarita Lecuona, cuja versão, da lavra do compositor baiano Humberto Porto, foi gravada com sucesso pela cantora brasileira Ângela Maria) no chuveiro, segundo ele declarou  numa entrevista publicada no jornal O Povo, em 1991, e por vezes construía flautas com pedaços de bambu, como contou Antônio, o único dos seus irmãos ainda morando na capital cearense. Mecânico de aviões aposentado, Antônio também relatou um episódio que poderia explicar, ainda que parcialmente (junto a outros fatores, como a desnutrição), a hipoprodução de testosterona que  conservaria as características infantis da voz do menino do Benfica: durante a infância, brincando com os amigos, Abel levou um tombo desastrado, machucando os testículos. Com o saco inchado e chorando muito, foi levado a um posto de saúde. Porém, tudo o que o médico prescreveu, a título de “tratamento”, foram algumas compressas de gelo.

Com voz bela e afinada – falamos de um instrumento não temperado, Paulo foi estimulado a cantar desde cedo. Durante a infância, quando estudou no Grupo Rodolfo Teófilo, uma professora, chamada Joelinda, sempre o punha na programação das comemorações cívicas da escola. Sem saber, esta educadora teve papel determinante na construção da identidade do futuro artista. O repertório, segundo o próprio Paulo reportou numa entrevista à TV Ceará, na década de 1980, consistia em peças do cancioneiro popular. A ligação com este acervo sonoro seria indelével. É importante salientar, porém, que Paulo não tinha, nem poderia ter, de forma alguma, consciência da raridade da própria voz, o que lhe seria revelado a posteriori. Aliás, isto seria impossível, mesmo na Fortaleza dos dias atuais. Na década de 1960, quando Paulo começou a se interessar mais diretamente em estudar música, a única instituição de formação de músicos existentes na cidade era particular, em outras palavras, inacessível a quem provinha de uma família sem recursos.

Abel, porém, dava seus “pulos”. Uma vez que não podia frequentar o conservatório, estudou música a sua maneira: procurando as pessoas que poderiam ajuda-lo, de alguma forma, a matar sua vontade de aprender.  Foi assim que ele iniciou seus estudos com o violonista e professor João Lima (1923-1997), que costumava levar o garoto de 12 anos para encontros de violonistas, nos domingos pela manhã. Numa dessas reuniões, Abel conheceu o ex-coletor de impostos e agitador cultural Raimundo Nonato Ferreira (1913-1983). Apaixonado por música, mas sem muito talento, Ferreirinha, como era conhecido, dedicava os anos de aposentadoria aos estudos musicais no conservatório, ao mesmo tempo em que frequentava uma licenciatura em Pedagogia. Dono de um belo piano Essenfelder de parede (hoje localizado na Escola de Música Luiz Assunção, no centro de Fortaleza, caindo aos pedaços), Ferreirinha morava na rua Justiniano de Serpa (a casa ainda existe, mas não pertence mais à família Ferreira), nas cercanias de Paulo Abel. Paulo e Raimundo passavam horas escutando os discos de música erudita colecionados pelo aposentado, ao mesmo tempo em que buscavam aprender, dentro dos seus limites, a domar o difícil e fascinante instrumento.

Raimundo Nonato Ferreira, um dos principais apoiadores de Paulo Abel do Nascimento. Foto: arquivo familiar.

Raimundo Nonato Ferreira, um dos principais apoiadores de Paulo Abel do Nascimento. Foto: arquivo familiar.

A dedicação que Ferreirinha devotava à música por vezes exasperava Araniza Ferreira (morta em 2013, pouco tempo depois de me conceder uma entrevista), sua esposa. Um dia, enraivado com a impertinência da pobre dona de casa, enlouquecida pela insistência do marido naqueles estudos sobre as teclas do piano, deu o troco, do seu jeito, ao mesmo tempo rude e engraçado:

“Sai daí, Bruaca”!

Paulo compreendeu a palavra como “buarca”, e por “buarquinha” dona Araniza ficou. Paulo e Araniza manteriam uma ambígua  ligação entre si – Araniza, ao mesmo tempo em que lamentava sua ausência, parecia, às vezes, ter algum ressentimento em relação à Abel – até a morte do músico, que estava justamente na residência da Justiniano de Serpa quando foi-se embora do Brasil pela última vez.

Ferreirinha sempre procurou integrar grupos artísticos, como o Canto do Aboio, criado em 1968, e que trazia como novidade a introdução de elementos cênicos no coro. Desafinado que só ele, porém, não chegou a fazer parte da formação, segundo me esclareceu Luciano Hortêncio, ex-integrante do grupo.  Lembrou, entretanto, do pequeno vizinho, de voz bonita e interessado em música. Resolveu levá-lo a um dos ensaios. O garoto, porém, nem abriu a boca.

“Ferreirinha, de onde foi que você tirou essa ‘mulherzinha'”?

A frase (presumivelmente) proferida por uma integrante (não identificada) do Canto do Aboio, era enfatizada por Araniza, quando ela rememorava o lamentável episódio. Ferreirinha, evidentemente, ficou indignado e levou Paulo Abel de volta consigo. Comovido com o choro do pequeno amigo, prometeu ajuda-lo, da forma que pudesse, a realizar seu sonho de estudar música – fora dos estreitos limites da Fortaleza de então, de preferência.

Dona Araniza Ferreira, esposa de Ferreirinha. Fotografia: Eduardo Pereira.

Dona Araniza Ferreira, esposa de Ferreirinha. Fotografia: Eduardo Pereira.

A homossexualidade foi um fato perturbador e um tabu na vida de Paulo e dos seus familiares. O garoto delicado e de voz fina sempre foi dado às meninas da vizinhança, como disse Teresa Dantas, amiga de infância. Sua maior companheira desses tempos de inocência foi Lourdes de Almeida, já falecida. Num país patriarcal e sexista como o Brasil, obviamente isto inspirava comentários  e insultos maldosos. Mesmo em sua casa, Abel não era uma unanimidade. Enquanto os irmãos mais velhos tendiam a se envergonhar da “mulherzinha”, Maria Conceição, conhecida como Marta (1949-1993), penúltima filha do casal Nascimento e a única mulher sobrevivente, tomava para si aquele irmão de alma feminina. Infelizmente, esta generosa relação seria rompida de forma brusca, mais tarde.

Por outro lado, a família Nascimento era muito católica, e Paulo Abel frequentava assiduamente a igreja, na qual participava, inclusive, de grupos de jovens, como o JUCICA (Juventude Cívica Católica). É escusado dizer que a Igreja Católica, mesmo em tempos de Papa Francisco, ainda condena a homossexualidade. E a “culpa”, o melhor e mais eficiente dos instrumentos de dominação da consciência, pesaria sobre o futuro artista de maneira atroz. Paulo Abel viveria plenamente sua sexualidade apenas em solo europeu, porém de modo insensato e com pesados dramas de consciência. O fato é que, até hoje, a homossexualidade de Abel é um assunto desconfortável para a maior parte dos seus familiares. Quando o assunto é AIDS, então, a conversa logo toma outro rumo. No máximo, a doença simplesmente é negada.

Gay, mestiço e pobre, Paulo Abel dificilmente se adaptaria ao mundo tal como ele é. E, mais uma vez, fê-lo a partir da astúcia. Se não encontrava aprovação entre a parentela em casa, apoiava-se em familiares de mente mais aberta, como as primas Maria Lúcia Rodrigues, ainda hoje residindo em Fortaleza, e “Mundinha”, hoje residente em Brasília. E se a instituição oficial (e privada) de ensino de música na capital cearense lhe fechava a porta na cara, ele aprendia música (quase) sozinho, como me contou uma das mais importantes mulheres da vida de Paulo Abel do Nascimento: Izaíra Silvino Moraes.

Em 1968, Izaíra era uma jovem estudante de direito e bolsista do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Estava na Casa de Cultura Hispânica, na UFC, esperando um ensaio do Grupo de Tradições Cearenses, quando se deparou com um moleque meio alto e gordinho. Ele trazia um caderno de música consigo. Foi logo perguntando, sem muita cerimônia:

“Tu é (sic) Izaíra, né? Sabe música”?

A moça confirmou sua identidade e respondeu, modestamente, que sabia sim um pouco de teoria musical.

“Então, solfeja aí”.

Ele se referia a um exercício de oito compassos, em tempo quaternário, na tonalidade de dó maior. A musicista riu consigo e, claro, ajudou o pré-adolescente. A amizade (amor) entre os dois só encontraria termo com a morte do futuro cantor.

Izaíra Silvino, amiga e uma das mulheres mais importantes da vida de Paulo Abel. Foto: arquivo pessoal.

Izaíra Silvino, amiga e uma das mulheres mais importantes da vida de Paulo Abel. Foto: arquivo pessoal.

Da mesma forma em que ia aprendendo música “na marra”, esclarecendo com os outros aquilo que não entendia completamente, Paulo Abel também absorvia o que julgava necessário a sua formação cultural. Foi Izaíra também quem relatou que Paulo costumava circular entre as portas e janelas das casas de cultura estrangeira da UFC, onde até hoje se oferecem, a preços módicos (que Abel, cujo primeiro emprego foi auxiliar de pedreiro, não podia pagar), cursos de idiomas estrangeiros, a fim de “brechar” as aulas e aprender o que pudesse. Às vezes era descoberto e “corrido” de lá. Mas sempre voltava. Morreria falando cinco línguas.

Em 1974, aos 17 anos, e após vencer uma tuberculose, Paulo Abel ingressou no curso de Turismo, na então ETFCE. Embora a carreira de turismólogo não povoasse os seus sonhos, o garoto conseguiu, junto àquela instituição, dar vazão ao seu desejo de fazer música. Com ajuda de Laysce Bonfim Maciel (1917-1979), orientadora pedagógica da ETFCE, em 1976 ele conseguiu reativar o coral da instituição, parado desde a saída do maestro Orlando Leite (1926-2011) da escola técnica. Suprema ousadia para quem não detinha qualquer diploma de música. Mas este “atrevimento” se revelará fundamental na vida de Paulo. Numa das viagens do coral do ETFCE para participar das comemorações referentes ao dia de Santa Cecília, no Rio de Janeiro, o então regente conheceu o músico e professor da UERJ Michel Phillipot (1925-1996). Encantado com o jovem regente, mas consciente das suas limitações, o francês convidou-o a frequentar um pequeno curso que ele ministraria no início de 1977, em Curitiba. Em dezembro de 1976, durante o III ENCORET (Encontro de Corais das Escolas Técnicas Federais), em João Pessoa, Paulo encontrou outra figura importante para estimular-lhe o desejo de ampliar os horizontes musicais: Cleofe Person de Matos (1913-2002), maestrina e musicóloga responsável pela recuperação da obra musical do padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830). Cleofe não só elogiou a performance do rapaz e do seu grupo, como ainda lhe estimulou a aceitar o convite para o curso em Curitiba.

Durante o III ENCORET, em 1976. O jovem regente está à frente do Coral da ETFCE. Foto: arquivos Elvis Matos.

Durante o III ENCORET, em 1976. O jovem regente está à frente do Coral da ETFCE. Foto: arquivos Elvis Matos.

De volta à Fortaleza, Paulo conseguiu, através da ajuda de Laysce Bonfim Maciel e da empresária Beatriz Philomeno Gomes, a passagem de avião para o Paraná. Rica e bem relacionada, militante junto à Associação São Vicente de Paulo e ao JUCICA, Beatriz acionou o então Secretário de Cultura do governo biônico de José Adauto Bezerra, Ernando Uchoa. Uma vez na capital paranaense. Phillipot, talvez de forma equivocada (ou talvez Paulo não tenha entendido), fez uma vaga promessa de bolsa para Paulo Abel estudar na então recém-criada Universidade Estadual Paulista (UNESP), em São Bernardo do Campo. O músico, claro, ficou maravilhado. Mas não tinha um tostão para a viagem.

Albaniza Gondim, Beatriz Philomeno Gomes e Laysce Bonfim. Senhoras de caridade que ajudaram o jovem Paulo Abel. Fonte: arquivo pessoal.

Albaniza Gondim, Beatriz Philomeno Gomes e Laysce Bonfim. Senhoras de caridade que ajudaram o jovem Paulo Abel. Fonte: arquivo pessoal.

Dessa vez com o socorro do velho Ferreirinha, Paulo Abel chegou à cidade do automóvel,  entre julho e agosto de 1977, segundo o maestro Samuel Kerr. Trajava camiseta branca e calça cáqui, apesar do frio de rachar. Sem conseguir a tal bolsa e nem prestar vestibular, Paulo foi acolhido pelos amigos de Phillipot, que se encontrava fora de São Paulo, à época. Enquanto Samuel Kerr solicitou seus serviços de copista junto ao coral Cantum Nobile, dando alguma renda para o cearense se virar no Sudeste, Paulo foi morar com o musicólogo francês Roger Cotte (1921-1999) e sua esposa, François, na Vila Mariana, em São Paulo. Roger foi um dos poucos a atestar a raridade do registro vocal de Paulo Abel do Nascimento, e daria novo rumo à vida do jovem. Ele estudou, em regime livre, na UNESP, composição, direção de orquestra, musicologia e canto gregoriano. De volta à Fortaleza, para a conclusão do curso de Turismo na ETFCE, Paulo organizou uma apresentação de música antiga – o repertório certamente era influência de Roger Cotte, especialista no assunto. Mas o que ressaltou foi um fato “escandaloso”: segundo o professor aposentado da ETFCE, Myrson Lima, durante a colação de grau da sua turma, Paulo apareceu de vestido(!). O ato, irreverente mesmo hoje em dia, lhe valeu uma censura dentro da conservadora instituição.

Formado, Paulo voltaria a São Bernardo do Campo, onde passou a integrar um grupo de música antiga organizado por Roger Cotte. O grupo se apresentaria no IX Festival de Inverno de Campos do Jordão, mas uma confusão, até hoje mal explicada, envolvendo Abel e o diretor do evento, o cearense Eleazar de Carvalho (1912-1996), inviabilizou o concerto. A partir deste evento, Paulo passou a procurar novas possibilidades, fora do seu país. Com a ajuda de Roger Cotte, ele conseguiu uma bolsa do governo italiano para o Istituto Nazionale di Studi sul Rinascimento, em Florença. A bolsa, no entanto, financiava apenas os estudos e não o traslado e as despesas pessoais do estudante. Uma vez mais Paulo foi apoiado, dessa vez pela artista Giselda Leirner, que a pedido da pianista Ana Stella Chic (1925-2009), esposa de Roger Cotte, promoveu um concerto em seu apartamento, a fim de angariar recursos para a manutenção do jovem cantor cearense em terras europeias. Além disso, Giselda conseguiu, junto a um amigo, uma passagem aérea e comprou um guarda-roupa completo para o cantor.

Em solo italiano, Abel teve dificuldades em se manter. Procurou ajuda junto ao Centro Giorgio la Pira, financiado pela Cáritas, onde aprendeu melhor  sobre a cultura italiana e recebeu uma pequena ajuda financeira, por determinado tempo, até que, com a ajuda de Élisabeth de Miribel (1915-2005), Consulesa geral da França em Florença e ex-secretária do poderoso Charles De Gaulle, conseguiu trabalho junto à Villa Gucci, como uma espécie de preceptor.  Inicialmente, Abel estudou com a soprano Nella Anfuso. Porém, a convivência entre aluno e mestra foi difícil, ao ponto de Nella “desistir” de orientar o pupilo brasileiro, três anos depois, alegando indisciplina por parte do mesmo. Abel, por seu turno, queixou-se que a musicista tratava-o como um serviçal, impondo-lhe exercícios vocais sobre-humanos. Antes disso, porém, Nella submeteu Paulo Abel a uma série de exames junto ao hospital florentino de Careggi,  onde se constatou o hipogonadismo responsável pela ausência de mudança na voz de Paulo Abel, durante o período da puberdade.

O jovem rapaz, de fato, não tinha pomo-de-Adão e nem barba e sua voz se localizava na região da oitava natural feminina. Isso indicava que ela não passara pela fase de mudança, durante a puberdade, permanecendo infantil. Seria errado, contudo, dizer que Paulo Abel foi um castratto ou que tinha uma voz de castratto. Em primeiro lugar porque, ao contrário de castratti autênticos, como Farinelli (1705-1782), Paulo não foi emasculado. Em segundo, porque não há um registro específico de castratto. Os castratti não obtinham, por efeito cirúrgico, uma voz bela e educada. Aliás, o que lhes distinguia não era o seu registro, mas seu virtuosismo, demonstrado no domínio da técnica de ornamentação barroca, no contexto do Barroco Musical. Paulo Abel do Nascimento poderia ser chamado, de forma um tanto inadequada, de castratto endocrinológico, uma vez que a sua voz permaneceu infantil em decorrência do hipogonadismo, como se constatou (finalmente) na Itália, na década de 1970. Todavia, mesmo sem ser um castratto autêntico, Abel, fisiologicamente, tinha o mesmo potencial desses jovens cuja virilidade foi sacrificada, na maioria das vezes por determinação ou ingenuidade dos seus pais, em função de ambições sociais e econômicas. Aliás, a questão acerca da autenticidade do status de castratto ou não de Paulo Abel do Nascimento não passa de falsa polêmica. No máximo, uma questão banal, que não ofusca o brilho da sua voz e do seu gênio musical.

Nestes anos italianos, Abel também daria vazão aos seus apetites sexuais. Desde a rebelião de Stonewall, em 1969, o movimento LGBT se empoderou, e os espaços voltados a este público se multiplicaram mundo afora. Florença, cidade relativamente tranquila no difícil contexto italiano das décadas de 1960/1970 viu nascer, em 1974, a primeira boate gay da terra de Mussolini: Il Tabasco, localizada no interior da Piazza della Signoria. Frequentada por homossexuais do mundo inteiro, esta boate era famosa por sua dark room. Terra de fricchettone, adaptação italiana do vocábulo inglês freak, i.e., “esquisito”, Florença tinha uma vida sexual exuberante. Tudo o que um jovem homossexual nos seus vinte e poucos anos poderia desejar. Segundo Giuseppe Nuccio Iaccono, florentino que teve uma breve amizade com o cantor brasileiro, Paulo Abel tinha um comportamento sexual promíscuo, sempre acompanhado de diferentes parceiros. Um enorme risco, ainda ignorado pela comunidade LGBT, uma vez que, já em 1979, foram descritos os primeiros casos de AIDS, então uma doença sem cara nem nome, em Nova York.

Na Europa: solidão e estudos intensos. Foto: arquivo pessoal.

Na Europa: solidão e estudos intensos. Foto: arquivo pessoal.

Embora afetasse alegria e força para os mais próximos, Paulo Abel guardava grandes sofrimentos em si. Solitário, emocionalmente instável, mergulhado em diferentes e tênues relações amorosas, Paulo superestimava o próprio sucesso. Morava numa singela água-furtada, no subúrbio parisiense. Porém, diria aos familiares que ocupava um belo apartamento, um dos dois que possuía – o outro se localizava em Florença, onde Abel tinha que revezar meio ano de permanência, uma vez que não possuía cidadania francesa. Ao sobrinho, Gleison Nascimento, o cantor chegou a “confessar” que estava juntando dinheiro para comprar um jatinho, a fim de poupá-lo dos inconvenientes dos voos comerciais.

Este aspecto megalomaníaco, além de uma certa falta de orientação especializada e indisciplina, levou Paulo a seguir uma carreira errática. Em 1981, o músico fez sua estreia profissional, uma apresentação transmitida ao vivo pela Rádio e Televisão Belgo-Francesa (RTBF), por intermédio de Michel Phillipot. A partir de então, ele seguiu uma agenda de pequenos, porém constantes recitais, que lhe deram a oportunidade de viver de música, mas não de alcançar o grande público. A década de 1980 será a dos grandes “fenômenos” pop, como Michael Jackson e Madonna e Paulo não será infenso, de forma alguma, ao fascínio que a mitologia em torno daqueles artistas despertava na maior parte das pessoas. A “estranheza” da sua voz era um atrativo em si. Bastava encontrar a parceria certa. Foi imbuído desse espírito que Paulo realizou duas gravações, até hoje mantidas inéditas: a Bachiana Brasileira n. 5, com o arranjo eletrônico do músico francês José-michel, e Lebanon, composição do empresário francês Antoine Bonnel.

Com o músico francês José-Michel, em meados da década de 1980: Bachiana Brasileira n. 5, com arranjo eletrônico. Fonte: arquivos José-Michel.

Com o músico francês José-Michel, em meados da década de 1980: Bachiana Brasileira n. 5, com arranjo eletrônico. Fonte: arquivos José-Michel.

O ano de 1984 marcou uma “virada” na carreira de Paulo Abel. O músico suíço Paul-André Demierre deveria realizar a montagem da Ópera Xerxes, em homenagem ao tricentenário do compositor Georg Friedrich Haendel (1685-1759). Desde a montagem empreendida por Caffarelli, entre 1737-1738, em Londres, esta seria a segunda vez em que o personagem-título seria interpretado por um homem, no caso, o contratenor italiano Ruggiero Spallone. Uma vez que o divo era uma pessoa “intratável”, Demierre deu-lhe o bilhete azul, mas ficou de mãos atadas, já que restavam poucas semanas para a estreia. Foi então que o diretor de palco da ópera, Alessandro Balducci, soube da existência de um jovem brasileiro de voz extraordinária. Paulo foi chamado para o teste e encantou a todos. Foi nesta montagem que ele tomou contato com a ária que o consagraria internacionalmente: Ombra mai Fu. Quando Paulo precisou cantá-la no teste para a cena que fez em Ligações Perigosas, não deu para os outros 72 candidatos.

Em 1985, quase sete anos após deixar o Brasil, Paulo Abel do Nascimento voltou ao seu país de origem. Veio como convidado do Festival Aquarius, organizado pelo jornalista Péricles de Barros, ligado à Rede Globo, e pelo  maestro Isaac Karabtchevsky. Paulo se apresentou no dia 18 de agosto, nos jardins do Palácio do Catete. O “fenômeno” foi objeto de uma pequena matéria para o Fantástico, à época, o noticiário mais prestigiado da noite de domingo. No dia 22, o cantor esteve no então decadente Teatro José de Alencar, num concerto beneficente organizado pelas senhoras de caridade. A ligação de Paulo Abel com estas damas da alta sociedade seria constante. Além de Beatriz Philomeno, Maria Macedo, esposa de um rico empresário cearense, teria uma forte relação com o músico, responsabilizando-se, inclusive, pelo traslado das suas cinzas.

Este retorno marcou também o reencontro de Paulo com a sua família, à qual ele podia apenas mandar cartas e fazer escassos (e caríssimos) telefonemas internacionais, e também com seus amigos, como Izaíra Silvino, neste período coordenadora da Casa de Cultura Artística da Universidade Federal do Ceará. É provável que, já neste período, Paulo Abel do Nascimento estivesse contaminado com o vírus HIV e tivesse ciência de que era soropositivo. Isto explicaria o sentido de urgência com que o cantor chegou para Izaíra, quase de supetão, propondo-lhe a realização de uma ópera cearense. Lúcida, a musicista ponderou que esta seria uma empresa deveras difícil no contexto de um Estado no qual sequer havia uma escola de formação de músicos. Propôs-lhe então uma espécie de escola, com a realização de oficinas de formação em diferentes funções artísticas, cujo resultado seria a montagem de óperas como aquela que propunha Paulo. Para isso, Izaíra e Abel arregimentaram talentos locais, como o professor, poeta e pesquisador Oswald Barroso, o compositor Eugênio Leandro, a pianista Nara Vasconcelos, o artista plástico e músico Descartes Gadelha e o compositor Tarcísio José de Lima, entre tantos outros que se uniram num esforço colaborativo para levar adiante o sonho de fazer música, coletivamente, apesar de todos os pesares de um país que começava a sair das amarras da ditadura civil-militar.

É aí que surge uma das maiores contribuições de Paulo Abel do Nascimento para a educação musical no Ceará: muitos daqueles que fizeram parte do projeto ópera, como o então bolsista da Casa de Cultura Artística, Elvis de Azevedo Matos, levaram adiante sua concepção coletiva de aprendizagem musical, sendo diretamente responsáveis pelo surgimento do curso de licenciatura em música da UFC, o único do Brasil a não exigir o Teste de Habilidade Específica. A Ópera com a qual Paulo Abel sonhou, Moacir das Sete Mortes: ou a vida desinfeliz de um cabra da peste, tem libreto assinado por Oswald Barroso e Eugênio Leandro e música composta por Tarcísio José de Lima. A obra jamais foi encenada integralmente, mas não foi esquecida. É possível que um dia seja enfim apresentada ao público. Resta, no entanto, a dúvida: quem cantaria as partes escritas para a poderosa voz de Paulo Abel?

A partir de 1985, as vindas de Paulo Abel ao Brasil passam a ser constantes. Em geral, ele aportava no Rio de Janeiro, onde mantinha amigos importantes, como Joãozinho Trinta (1933-2011) e passava o Carnaval, seguindo para Brasília, onde ficava na casa de Mundinha, sua prima, e costumava dar recitais e oficinas, e terminava em Fortaleza, onde matava as saudades dos parentes e amigos e continuava a coordenar os trabalhos do Projeto Ópera. E foi justamente na sua terra que Abel encontrou seu último amor, Claudio Belisario. Claudio acompanharia Abel na derradeira viagem do músico para a Europa, mas problemas com seu passaporte impediram-no de embarcar.

Em 1986, Paulo lançaria seu primeiro CD: Alessandro et Domenico Scarlatti: cantates et sonates, pela pequena Lyrinx. Hoje uma raridade, este disco guarda a rica sonoridade da voz de Paulo Abel do Nascimento, antes que a AIDS se manifestasse. Além disso, trata-se de um trabalho de resgate de uma obra perdida no tempo, uma vez que fora feita para ser cantada por castratti.

1988 seria um ano auspicioso para o artista em ascensão: Paulo participou do filme  Ligações Perigosas, numa pequena cena na qual um castratto entretém a nobreza francesa. A ponta foi significativa, uma vez que lhe abriu as portas para novas oportunidades artísticas. E, suprema das ironias, justamente no mesmo Festival de Inverno de Campos do Jordão, 10 anos após o incidente com Eleazar de Carvalho, Paulo marcaria a consolidação do seu reconhecimento em terras brasílicas. O evento teve ótima repercussão e lhe granjeou ainda mais prestígio (e inveja) no meio cearense. Com apoio de Violeta Arraes (1926-2008), secretária de cultura do governo Tasso Jereissati e sua amiga desde a época em que a socióloga residia na França, Paulo participaria de eventos significativos, como a reinauguração do Teatro José de Alencar.

No XIX Festival de Inverno de Campos do Jordão, com a cravista Helena Jank. Foto: arquivos Helena Jank.

No XIX Festival de Inverno de Campos do Jordão, com a cravista Helena Jank. Foto: arquivos Helena Jank.

Todavia, é também neste período que os sintomas da terrível doença que daria termo a sua vida se manifestam com mais contundência. A morte da sua mãe, em 19 de setembro de 1990, em decorrência de problemas cardíacos, na opinião de quase todos os seus amigos, precipitou a sua morte. É possível. Não obstante, o organismo de Paulo Abel já estava deveras debilitado. Claude Fondraz, seu pianista por vários anos, relatou que, certa vez, numa apresentação na França, o músico teve um ataque de diarreia, entre uma ária e outra, sendo obrigado a deixar uma plateia e músicos atônitos.

Apesar de tudo, Paulo desejava trabalhar. Tanto que, no final de 1990, ele grava  seu último disco: Melodies Populaires Brésiliennes, também pelo selo Lyrinx. O repertório consiste numa amostra significativa do cancioneiro popular brasileiro, além de peças de compositores como o pernambucano Marlus Nobre, que, na condição de diretor do MIDEM, em 1985, promoveu um bem-sucedido concerto de Paulo Abel, em companhia da esposa do compositor, a pianista Maria Luíza Nobre. É notório que sua voz está um pouco mais débil, em comparação ao disco anterior, porém, sua beleza e a técnica de Paulo ainda estão irretocáveis.

O desejo de deixar um legado levou o músico a tentar acessar o doutorado em Musicologia na Sorbonne. Para isso, ele procurou a prestigiada Georgie Durosier. Em entrevista por e-mail, a professora e escritora, especialista em música barroca e da I Guerra Mundial, argumentou que foi procurada pelo cantor, porém seu trabalho não se enquadraria naquilo que seria necessário para se empreender os estudos do doutorado. Segundo Claude Fondraz, Paulo Abel do Nascimento conquistara um DEA – o que, no antigo sistema educacional francês, equivalia a um mestrado. Porém, Durosier me garantiu que Abel não possuía mestrado e que seu projeto não caminhou adiante. Não por incompetência, mas pela morte.

No início da década de 1990, visivelmente mais abatido. Foto: arquivos Claude Fondraz.

No início da década de 1990, visivelmente mais abatido. Foto: arquivos Claude Fondraz.

Paulo Abel do Nascimento morreu no dia 13 de maio de 1992, aos 35 anos, na França. A notícia pegou a família e os amigos de surpresa, salvo aqueles que, de uma forma ou de outra, já suspeitavam da doença. Ainda em 1992, poucos meses antes de fim, Paulo fez sua última visita à cidade que o viu nascer. Vinha do Rio de Janeiro, onde passou seu último Carnaval. Todavia, as coisas não iam bem. A aparência do músico, magérrimo e com cabelos ralos, despertou a mórbida curiosidade de amigos, vizinhos e desafetos. No campo doméstico, as coisas estavam piores. Casada pela segunda vez, Marta, a irmã que fora o principal esteio de Paulo entre seus irmãos, rompeu com o músico, acusada de se apropriar de recursos que o irmão bem-sucedido enviava ao seu pai. Abel se refugiou na residência de dona Araniza, evitando contato com os familiares. Foi de lá que o músico, intempestivamente, decidiu ir embora. Rumou para a França, sendo recebido por Claude Fondraz. Nem teve tempo de ir para casa. Foi obrigado a se internar no Hospital Universitário de Paris, de onde nunca mais sairia.

Eu não conheci Paulo Abel do Nascimento. Este personagem fabuloso chegou até mim em 2009, por ocasião de um pequeno curso de canto e fisiologia da voz, no âmbito da VII Semana de Humanidades UECE/UFC. Desde então, o fascínio por esta pessoa, cuja vida foi marcada simultaneamente pela superação e pela tragédia, só cresceu. Esta é uma breve síntese biográfica, um extrato de um trabalho enorme, que realizo com a paciência e o empenho de um artesão: a reconstituição, fragmento por fragmento, da vida de uma pessoa que, até poucos anos atrás, só podia ser acessada através de notas perdidas na internet ou da pioneira biografia do professor Elvis Matos, lançada em 2006 pela Fundação Demócrito Rocha.

O projeto, intitulado Paulo Abel (Ombra mai Fu) consiste numa ampla biografia e num documentário, ambos em avançado estágio de produção, que caminham ao ritmo de um trabalho sem recursos, feito na base da colaboração e de muito amor. Este esforço, junto a de outras pessoas, gerou frutos.  Em 2012, dentro do Ano Paulo Abel do Nascimento, promovido pela Secretaria de Cultura Artística da UFC, na figura de Elvis Matos, titular da secretaria, foi lançado o livro Paulo Abel: eu me lembro. Ainda neste ano, foi lançado o sítio http://www.pauloabelcom e exibida uma primeira montagem do documentário Paulo Abel (Ombra mai Fu), num belo evento realizado no auditório da Reitoria da UFC. Oxalá a finalização desse ambicioso projeto possa levar ao público a história desse homem fascinante, de voz angelical e ao mesmo tempo tão humano, que escalou os cumes da glória para, como numa tragédia grega, sofrer a sanção invejosa dos deuses.

Nirvana Smells like Teen Spirits – ainda

Há 25 anos o grupo liderado por Kurt Cobain lançava o álbum que consagraria a banda formada em 1987 e extinta em 1994, após o suicídio de Kurt.

O disco histórico da banda estadunidense completa 25 anos neste sábado. Foto: reprodução

O disco histórico da banda estadunidense completa 25 anos neste sábado. Foto: reprodução

Se reduzíssemos o Nirvana a uma análise estritamente musical, não falaríamos sobre música pop. Muito menos aquela produzida nos anos 1990 (conhecida como a “década do pop“), com breguissimas boys e girls bands, “princesinhas” (um saco, convenhamos) pop calientes latinos cujo som era feito sob medida para que todos bailassem até a morte, numa doce e alienada manifestação de alegria padronizada.

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Imagine Dragons: Smoke + Mirrors Live

Na noite de 2 de março de 2016 foi exibido em vários cinema do mundo o show da banda  americana de indie rock Imagine Dragons, realizado em Toronto, Canadá, e que revela os hits do último CD da banda, Smoke + Mirrors, incluindo o single I bet my life, com grande repercussão nas paradas musicais

Dan Reynolds no show Imagine Dragons: Smoke + Mirrors Live

Dan Reynolds no show IMAGINE DRAGONS: SMOKE + MIRRORS LIVE

Com os fãs ansiosos do Imagine Dragons na plateia, foi lançado nos cinemas de todo o mundo, de forma simultânea, o show gravado em 4 de julho de 2015 em Toronto (Canadá), show este que fez parte da turnê de ‘Smoke + Mirrors’, segundo álbum da banda formada pelo esforçado vocalista Dan Reynolds, pelo talentoso guitarrista Wayne Sermon, pelo baixista Ben McKee e pelo baterista Daniel Platzman. Entre as músicas selecionadas que foram apresentadas no show estão: Demons, I Bet My Life, Shots, Gold, Radioactive e Thief, esta última, tocada pela primeira vez ao vivo.

Conforme o site vadecultura.com.br, sobre o show, os integrantes da banca declararam que: Colocamos mais sangue, suor e lasers no planejamento do Smoke + Mirrors do que em qualquer outra performance que já fizemos até o momento, e é algo que lembraremos para sempre. Este filme captura a energia do ao vivo de uma forma incrivelmente envolvente. Nós estamos ansiosos para mostrar para os nossos fãs de todo o mundo que querem voltar a viver essa experiência juntos ou vê-la pela primeira vez.

Com poucas falas em inglês, as exibições não foram legendadas, mas apesar disso, foi possível adentrar na atmosfera proposta pela banda. Destaque para a iluminação que destaca a performance dos músicos e a reação do público. Um dos pontos altos do show é quando a banda apresenta o cover de Forever Young, de Bob Dylan, que está na setlist.

Pster de Imagine Dragons: Smoke + Mirrors Live (2016) de Dick Carruthers

Pôster de IMAGINE DRAGONS: SMOKE + MIRRORS LIVE (2016), de Dick Carruthers

Título: Imagine Dragons: Smoke + Mirrors Live

Estreia: 02/03/2016

Gênero: Musical, Conteúdo alternativo

Duração: 95 min.

Origem: Estados Unidos, Canadá

Direção: Dick Carruthers

Classificação: 10 Anos

Ano: 2016

 

 

 

 

 

 

Segue trailer:

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MONSTERS OF ROCK – NOVA EDIÇÃO EM 2015

O festival Monsters of Rock chega ao Brasil tendo como palco o cidade de São Paulo. Será na Arena Anhembi, em abril. Este surgiu na Inglaterra em 1980, idealizado pelo produtor musical Paul Loasby (que produziu também o Pink Floyd). Rapidamente ganhou dimensão internacional e agora terá a sua 6ª edição brasileira

JOSÉ FERNANDO S. MONTEIRO

Loasby queria um evento diferenciado, unicamente com bandas de hard rock e trash metal e escolheu o autódromo de Donington Park, no condado de Leicestershire, para a realização de uma primeira edição. A mistura entre atrações britânicas e internacionais fez com que o festival fosse um sucesso imediato, mais de 35 mil pessoas compareceram a esse primeiro evento que contou com bandas como Raimbow, Judas Priest, Scorpions, Saxon, entre outras. Esse número chegaria a um total de 107 mil pessoas em 1998, quando devido a morte de duas pessoas (durante a apresentação do Guns n’Roses, fato atribuído a superlotação) o público passou a ser limitado a 75 mil pessoas.

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Imagem da primeira edição do Monsters of Rock, realizada em Donington Park no ano de 1980

Apesar dos problemas, o Monsters of Rock foi realizado, com poucas exceções, até 2006 na Inglaterra e logo se espalhou para outros países: Alemanha (1983-1991), Suécia (1984-1990), Itália (1987-2004), EUA (1988), Holanda (1988-1991), Espanha (1988-2008), França (1988-1990), Hungria (1991), Bélgica (1991), Áustria (1991), Polônia (1991), União Soviética (1991), Chile (1994-2008), Argentina (1995-2005) e Brasil (1994-2015).

Confira momentos da história ro rock – Parte 1

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No Brasil os direitos foram comprados pela produtora Mercury Concerts, que realizou o primeiro Monsters of Rock em 27 de agosto de 1994, no estádio do Pacaembú, onde 45 mil pessoas estavam presentes para ver bandas como Kiss, Black Sabbath, Suicidal Tendencies e Slayer, entre as internacionais, e Dr. Sin, Angra, Viper e Raimundos, entre as nacionais.

Folder da primeira edição do Monsters of Rock Brasil, realizada em 1994

Folder da primeira edição do Monsters of Rock Brasil, realizada em 1994

Em 02 de setembro de 1995, o “Monsters” volta ao Pacaembú, onde compareceram 50 mil pessoas para ver Ozzy Osbourne, Alice Cooper, Faith no More, Megadeth, Therapy?, Paradise Lost, Virna Lisi e Ratablanca.

No ano seguinte, mais uma edição no dia 26 de agosto, Entre as apresentações a tão esperada Iron Maiden e também Motörhead, Skid Row, Biohazard, Helloween, King Diamond, Mercyful Fate, Ratablanca e Raimundos.

Depois de dois anos, é realizada a quarta edição do Monsters of Rock, desta vez na Pista de Atletismo do Ibirapuera. Estiveram presentes as bandas Slayer, Megadeth, Manowar, Saxon, Dream Theater, Savatage, Glen Hughes e as brasileiras Korzus e Dorsal Atlântica. Esta foi considerada a edição mais pesada do evento no Brasil.

Quinze anos mais tarde, se realiza, nos dias 19 e 20 de outubro, o quinto “Monsters” no Brasil, em novo lugar, na Arena Anhembi. No dia 19 se apresentaram as bandas Slipknot, Korn, Limp Bizkit, Killswitch Engage, Hatebreed, Gojira e Project 46. No segundo dia foi a vez das veteranas Aerosmith, Whitesnake, Ratt, Buckcherry, Quensrÿche, Dokken e Dr. Sin.

Momentos marcantes do rock – Parte 2

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Em 2015 o Brasil ganha mais uma edição do Monsters of Rock, prevista para ocorrer nos dias 25 e 26 de abril, novamente na Arena Anhembi, em São Paulo. Em seu line up vão estar Ozzy Osbourne, Judas Priest, Motörhead, Black Veil Brides, Rival Sons, Coal Chamber e Primal Fear, no primeiro dia, e Kiss, Manowar, Accept, Unisonic, Yngwie Malmsteen e Steel Panther, no segundo.

Momentos marcantes da história do Monsters of Rock – Parte 3

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Foi anunciado que no dia 30 de abril haverá uma extensão do Monsters of Rock na cidade de Porto Alegre, onde irão se apresentar Ozzy Osbourne, Judas Priest e Motörhead, no Estádio Passo D’Areia (também chamado Estádio Zequinha), mas ao que parece trata-se de um evento isolado. Infelizmente, nesse festival, que veio na esteira do Rock in Rio como uma forma de abrir caminho para o rock/metal brasileiro, não se apresenta confirmação, em 2015, de nenhuma banda nacional, o que vem a desfavorecer o evento que surgiu como uma vitrine para o mundo e agora desembarca diversos grupos no Brasil, sem alimentar a produção nacional. Está certo que nas primeiras edições o Raimundos encontrou dificuldades de ser aceito em meio a grupos reconhecidamente mais pesados, e que o Angra encontrou uma inicial dificuldade de reconhecimento, mas bandas como Dr. Sin e Korzus, cada uma a seu modo, sempre estiveram no gosto dos metaleiros e dentre os muitos nomes da atualidade é preciso abrir espaço para bandas nacionais, ainda mais deste gênero com espaço já tão reduzido. Isso talvez justificasse uma iniciativa que já foi proposta por Thiago Bianchi (vocalista do Shaman) de criar em 13 de novembro o Dia do Metal Nacional, onde, na semana comemorativa haveria diversos shows pelo Brasil e um grande evento no dia 13. Seria uma forma de levantar a bandeira do metal brasileiro, importante também seria incluir estes grupos depois em eventos internacionais como o próprio Monsters of Rock.

Para mais informações e ingressos no site do evento, clique aqui.

Fique com a parte final dos momentos da história do Monsters of Rock:

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SCARLETT JOHANSSON LANÇA MÚSICA CANDY

Em seus 30 anos de vida, a atriz, modelo e mãe Scarlett Johansson, que já foi musa de Woody Allen, interpretou com maestria um sistema operacional, e agora mostra sua versatilidade na música, ao lançar o single Candy, com a banda pop feminina The Singles, composta por Scarlett, Holly Miranda, Kendra Morris, Julia Haltigan e Este Haim – baixista da banda Haim

Scarlett Johansson. Foto: Divulgação

Scarlett Johansson. Foto: Divulgação

A atriz explicou que: a ideia era escrever músicas super-pop, escritas e tocadas por garotas. Eu queria que fosse como essas bandas ultra-pop, mas também um pouco irônico. Como influências, Johansson cita as bandas Grimes, The Bangles e Go-Go’s.

Anteriormente, Scarlett já havia ingressado na carreira musical quando lançou um álbum com covers de Tom Waits, e já havia participado de álbum em homenagem a Serge Gainsbourg, entre outras obras musicais.

Lançado em 20 de Fevereiro, o single Candy foi produzido por David Sitek, da banda TV On the Radio, já pode ser ouvida na internet. A canção possui uma pegada eletrônica e letra que revela uma certa doçura ao cantar sobre um rapaz que a faz desejá-lo como se desejam doces.

Confira Candy no vídeo abaixo:

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AS CANÇÕES DE BOYHOOD – A TRILHA SONORA DE UMA VIDA

Ganhador do Globo de Ouro 2015, e com seis indicações ao Oscar 2015, o filme de Richard Linklater possui uma trilha sonora musical interessante, que tal qual o filme, acompanha o garoto da sua infância à juventude

Ellar Coltrane em BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (2014), de Richard Linklater

Ellar Coltrane em BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (2014), de Richard Linklater

Muito tem se falado do filme de Richard Linklater, ganhador do prêmio de melhor filme dramático no Globo de Ouro 2015. Apesar da qualidade da longa, pouco se tem falado acerca das músicas que embalam a história. A seleção desenvolvida pelo diretor Richard Linklater conta com canções que marcaram cada um dos 12 anos capturados pelo longa-metragem e, segundo ele estipulou, quase metade dos R$ 9,7 milhões gastos com o filme foi destinada ao pagamento para utilizar as canções no longa que tem conquistado vários prêmios ( SAIBA MAIS e leia a crítica de Ávila Souza aqui ).

Chama a atenção o fato de as músicas de Boyhood passearem pelo período que abrange o longa, mostrando um pouco do que fazia sucesso na época, definindo o tempo em que as cenas foram filmadas e sendo parte essencial na história de Linklater. A trilha sonora oficial do filme tem apenas 16 faixas, mas na trilha completa ouvimos músicas na produção, entre canções que são executadas como parte do filme, ou cantadas pelos personagens, ou emitida de alguma outra forma. Vamos aos comentários por período.

Anos 2000/2001

Logo no início da trama, ouvimos a melancólica Yellow, escrita por Guy Berryman, Jonny Buckland, Will Champion e Chis Martin e interpretada pelo Coldplay. A letra da canção é uma referência ao amor não correspondido. Ouça a seguir:

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Ainda acompanhando a infância de Mason, ouvimos Hate To Say I Told You So, da banda de rock The Hives, grupo sueco de punk de garagem formada em 1994 por cinco adolescentes da cidade industrial de Fagersta. Confira:

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Além das conhecidas Yellow, do Coldplay, e Hate To Say I Told You So, dos Hives, escutamos indiretamente Try again, também dos Hives, e Anthem Part Two, do Blink 182, que representam exatamente o período anterior ao início das filmagens, em maio de 2002. No entanto, o grande destaque é o hit de Britney Spears, Oops!… I did it again, que é cantada por Lorelei Linklater, filha do diretor.

Anos 2002 a 2004

Quando Mason envelhece um pouco, o período é representado por Soak up the sun, da Sheryl Crow. Curiosamente, chama atenção também uma faixa da trilha de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, de John Williams, dentro da trilha de Boyhood. Ouvimos Could We, canção gravada em 2006 pela cantora e compositora americana Cat Power e a banda de rock alternativo da década de 80, The Flaming Lips, que também está presente na trilha com a canção Do You Realize??. Ouça no clipe da música a seguir:

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Anos 2005/2006

Nesse período, Gnarls Barkley ganharam o mundo com Crazy, uma das melhores canções do setlist. O Gnarls Barkley, grupo formado pelo DJ e produtor Danger Mouse e o rapper Cee Lo Green ganhou o Grammy de melhor música alternativa do ano de 2007 com esta canção. Confira:

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Nesse período, os desconhecidos do Old Crow Medicine Show gravaram a My good gal. No longa ouvimos também o rap Freaks! Freaks!, de Pigeon John. Ainda há espaço para um Bob Dylan contemporâneo que dispensa comentários e está presente na trilha com Beyond The Horizon, num período da vida de Mason em que é possível vislumbrar o futuro de uma vida que está apenas começando.

Anos 2007/2008

Em mais uma fase marcada pela diversidade, temos o rap Crank that, de Soulja Boy. Na trilha há espaço para Let It Die, do Foo Fighters e a banda americana Vampire Weekend surge com One (Blake’s Got A New Face), uma balada bem ritmada e com letra simples. Wilco apresenta Hate It Here e já vemos claramente na letra da canção, a nova fase na vida de Mason Jr., a chegada da adolescência. Ouça Let It Die, do Foo Fighters:

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Ano 2009

O período de balada de Mason é embalado por Good Girls Go Bad, da banda Cobra Starship, grupo de pop punk e synthpop criada pelo vocalista e baixista da extinta banda Midtown, que tem uma pegada pop/eletrônica que nos remete ao auge dos Backstreet Boys. Nesta canção, temos a participação de Leighton Meester, atriz, cantora, compositora e modelo norte-americana, mais conhecida por interpretar Blair Waldorf na série Gossip Girl. Segue vídeo oficial da canção:

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No rádio, ou afins escutamos 1901, do Phoenix, e LoveGame, de Lady Gaga, que também aparece com Telephone, canções que certamente agitaram muitas festas na época. Quando o protagonista já tá lá pelos 15 anos, o pai dele dá de presente para o garoto uma coletânea dos Beatles. O nome da mixtape presente no CD é Black Album e reúne as principais obras dos quatro Beatles após o término da banda. No entanto a coletânea foi produzida de verdade pelo Ethan Hawke, intérprete do pai do protagonista do filme, para sua filha na vida real. Veja matéria completa sobre o Black Album clicando aqui.

Deste álbum, escutamos Sr. Paul McCartney com Band On The Run, da banda de rock Wings, formada em 1971 pelo ex-beatle Paul McCartney, que permaneceu em atividade até 1981. A banda atingiu bastante sucesso, embora tenha mudado constantemente de integrantes. A canção toca quando Mason Sr., Annie, Samantha e Mason Jr. chegam à casa dos pais de Annie. Segue clipe da canção:

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Ano 2010

Os Black Keys estouraram com o álbum Brothers de onde saiu She’s Long Gone, onde vemos que o amor começa a rondar a vida de Mason Jr. A canção tem riffs de guitarra e solos que exalam rebeldia juvenil, muito bem encaixado na trama. O Arcade Fire lançou The suburbs e aparece na trilha com Deep Blue e Suburban War, que toca enquanto Mason dirige com sua namorada rumo a Austin, onde eles iriam passar o fim de semana visitando a irmã dele na faculdade. Há espaço até para a brasileira Luísa Maita, que emplacou Desencabulada e Lero lero no longa. Confira a brasileira no vídeo abaixo:

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Anos 2011/2013

Wouter “Wally” De Backer, conhecido profissionalmente como Gotye, é um compositor e cantor multi-instrumentista belga-australiano que ficou conhecido com a canção Somebody That I Used To Know, que tem a participação da cantora, compositora e instrumentista neozelandesa Kimbra e foi indicada a vários prêmios é outro ponto alto da trilha. Ela expressa bem o sentimento ao final de um relacionamento. Confira:

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Helena Beat, do Foster The People, Trojans, do Atlas Genius, Hero, segundo álbum de estúdio, Loma Vista, da banda norte-americana de indie rock Family of the Year e I’ll Be Around, de Yo La Tengo, retomam a melancolia do início do filme e representam o ano em que as filmagens terminaram. Segue vídeo da canção I’ll Be Around:

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Ano 2014

O longa também trás músicas recentes em seu bojo, caso das três canções do primeiro disco de estúdio de Moreno Veloso: Não acorde o neném, Em todo lugar e Coisa boa e canção de início do filme, quando começamos a acompanhar a trajetória de vida de Mason, ainda nos créditos iniciais com Summer Noon escrita e Interpretada por Tweedy, compositor, músico e líder da banda Wilco. Segue vídeo com clipe animado da canção, que acompanha um balão vermelho durante seu voo:

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Adquira a trilha sonora clicando aqui.

FICHA TÉCNICA

Poster de BOYHOOD - DA INFÂNCIA A JUVENTUDE ( Boyhood, 2014) de Richard Linklater

Poster de BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (2014) de Richard Linklater

Boyhood – Da Infância à Juventude

Título original: Boyhood / EUA, 2014

Direção/Roteiro: Richard Linklater

Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Janet Piersen, Elijah

Smith, Bonnie Cross, Jamie Howard, libbie Villari, Marco Perella, Steven Chester Prince, Sidney Orta e Shane Graham

Orçamento: US$ 4 milhões

Duração: 165 minutos

Censura: 12 anos

Distribuidora: Universal Pictures

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Segue trailer de Boyhood – Da Infância à Juventude:

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OSCAR 2015: OUÇA AS CANÇÕES INDICADAS

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas divulgou na manhã de 15/01 os indicados ao Oscar 2015. Os diretores J.J. Abrams (Super 8) e Alfonso Cuarón (Gravidade) anunciaram os primeiros indicados, e posteriormente o ator Chris Pine (Além da Escuridão – Star Trek) e Cheryl Boone Isaacs, Presidente da Academia anunciaram as categorias mais importantes. Destacamos as canções indicadas

Indicados ao Oscar 2015 de Melhor Canção Original. Foto: Divulgação

Indicados ao Oscar 2015 de Melhor Canção Original. Foto: Divulgação

Concorrem ao Oscar 2015 de Melhor Canção Original na 87ª edição do Oscar: Everything is Awesome, de Shawn Patterson, da animação Uma Aventura LEGO (The LEGO Movie, 2014), de Phil Lord e Christopher Miller; a vencedora do Globo de ouro Glory, de John Stephens e Lonnie Lynn, do drama Selma (2014), de Ava DuVernay; Grateful, de Diane Warren, de Além das Luzes (Beyond The Lights, 2014), de Gina Prince-Bythewood; I’m Not Gonna Miss You, de Glen Campbell e Julian Raymond, do documentário Glen Cambell: I’ll Be Me (2014), de James Keach, e Lost Stars, de Gregg Alexander e Danielle Brisebois, do drama musical Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again, 2013), de John Carney.

Banner de UMA AVENTURA LEGO (The Lego Movie, 2014) de Phil Lord

Banner de UMA AVENTURA LEGO (The LEGO Movie, 2014), de Phil Lord

Everything is Awesome, de Shawn Patterson

É o ponto alto da animação da Warner Bros. Uma Aventura LEGO (The LEGO Movie, 2014), de Phil Lord e Christopher Miller. A canção é daquelas que grudam na mente quando você ouve, talvez por isso tenha sido lembrada. A animação consegue contar uma história animada com os brinquedos que já fizeram sucesso entre as crianças. Ouçam Everything is Awesome na voz de Tegan e Sara com participação de The Lonely Island:

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Elenco de SELMA (Selma, 2014) de Ava DuVernay

Elenco de SELMA (2014), de Ava DuVernay

Glory, de John Stephens e Lonnie Lynn

A canção está presente no drama SELMA (2014), de Ava DuVernay, filme que conta a história de cidadãos negros da cidade de Selma, no Alabama, que tiveram seus direitos ao voto negados. O caso chamou tanta atenção que teve a participação de Martin Luther King Jr. no movimento. Astros como Cuba Gooding Jr.Oprah Winfrey e Tim Roth integram o elenco.  É a melhor canção indicada, com uma letra forte sobre justiça. Ganhou ainda mais força com o Globo de Ouro conquistado e deve ser a vencedora. Ouça o rap Glory no clipe abaixo, com vozes de John Legend e Common:

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Banner de Grateful de Diane Warren do filme ALÉM DAS LUZES (Beyond The Lights, 2014) de Gina Prince-Bythewood

Banner de Grateful, de Diane Warren, do filme ALÉM DAS LUZES (Beyond The Lights, 2014), de Gina Prince-Bythewood

Grateful de Diane Warren

A canção-tema do filme ALÉM DAS LUZES (Beyond The Lights, 2014), de Gina Prince-Bythewood, possui uma pegada pop cativante. O filme conta a história de Noni, uma talentosa cantora que está sofrendo uma grande pressão para tornar-se estrela, até que conhece Kaz, um jovem policial que irá ajudá-la a encontrar coragem e descobrir seu potencial para se transformar na artista que sempre quis ser. Confira Grateful interpretada por Rita Ora:

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Capa do EP de GLEN CAMPBELL: I’LL BE ME (2014) de James Keach

Capa do EP de GLEN CAMPBELL: I’LL BE ME (2014), de James Keach

I’m Not Gonna Miss You, de Glen Campbell e Julian Raymond

A canção está no documentário Glen Campbell: I’ll Be Me (2014) de James Keach, sobre a lenda da música country, ganhador de inúmeros prêmios, incluindo um Grammy, durante sua turnê de despedida, enquanto luta contra o Alzheimer. Ouça a emocionante I’m Not Gonna Miss You na voz do próprio Glen Campbell:

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Keira Knightley e Mark Ruffalo em MESMO SE NADA DAR CERTO (Begin Again, 2013) de John Carney.

Keira Knightley e Mark Ruffalo em MESMO SE NADA DAR CERTO (Begin Again, 2013), de John Carney.

Lost Stars, de Gregg Alexander e Danielle Brisebois

Esta música é o tema de Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again, 2013), de John Carney, que conta a história de uma cantora inglesa (Keira Knightley) que se muda para Nova Iorque, e tem que lidar com o fim de um relacionamento. Em crise, ela começa a cantar em bares, até ser descoberta por um produtor de discos (Mark Ruffalo), certo de que ela pode se tornar uma estrela. Ouça Adam Levine cantando a belíssima Lost Stars

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Qual a sua favorita? A cerimônia de entrega dos prêmios será comandada pelo apresentador Neil Patrick Harris, e acontecerá no dia 22 de fevereiro no Teatro Dolby, no Hollywood & Highland Center, em Hollywood.

Segue trailer de SELMA (2014 ), de Ava DuVernay, que estreia no Brasil ainda em janeiro:

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ROCK IN RIO – HAVE YOU EVER BEEN THERE?

Há exatos 30 anos começava a primeira edição do Rock in Rio, que se tornaria um dos mais famosos festivais do gênero no mundo. Ao contrário do que escandalizados pais de família pensavam, porém, o evento não trazia apenas sexo, drogas e rock’n’roll, mas o desejo de libertação de uma geração sufocada por décadas de ditadura, que finalmente caía naquele já remoto 11 de janeiro de 1985, após a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral. Tancredo não chegaria a ser empossado, mas toda uma geração experimentou uma espécie de catarse coletiva naqueles 10 dias de música num descampado no subúrbio carioca. Em artigo retrospectivo, José Fernando Monteiro dá maiores informações sobre o mega festival que terá sua primeira edição nos Estados Unidos

O público delirava na conjunção de música e política do primeiro Rock in Rio. Foto: reprodução

O público delirava na conjunção de música e política do primeiro Rock in Rio. Foto: reprodução

Texto de José Fernando Monteiro, especial para o Cinema e Artes

Hoje, o festival que colocou a América do Sul na rota das grandes tournées mundiais completa 30 anos. Multicultural e bonito por natureza, o balzaquiano Rock in Rio é hoje uma expressão da diversidade presente na sociedade atual, característica que mantém desde sua primeira edição, em 1985, realizada na “Cidade do Rock”, construída em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, especialmente para o evento. Numa década de 80 marcada pela ebulição do rock nacional, o Rock in Rio chamou para o palco desde monstros sagrados como Queen, Iron Maiden, Ozzy Osbourne e AC/DC, até os arretados Alceu Valença e Elba Ramalho, além de Gilberto Gil, da black music de George Benson e Al Jarreau e do pop do B 52’s.

Estrela entre as estrelas, a banda britânica Queen foi a grande atração do primeiro Rock in Rio. Imagem: reprodução

Estrela entre as estrelas, a banda britânica Queen foi a grande atração do primeiro Rock in Rio. Imagem: reprodução

Mas o Rock in Rio não parou por aí – aliás esse era só o começo. Após duas edições (1991 e 2001), o festival alçou voo rumo a terra dos patrícios e aportou em Portugal para a primeira edição do Rock in Rio Lisboa, em 2004. Nessa altura o evento já havia associado a si uma imagem politicamente correta, através da iniciativa do projeto “Por um mundo melhor”, que incitava o debate sobre questões socioambientais e discussões sobre possíveis melhorias no planeta. Essa iniciativa, que acompanha o festival ainda hoje, já arrecadou cerca de 23 milhões de dólares e já investiu por volta de 2 milhões de dólares em causas sociais, recebendo inclusive, em 2009, o Energy Globe Awards, na categoria juventude, prêmio anual concedido pela Energy Globe Fundation para incentivar soluções para os problemas ambientais do planeta.

Ingresso para a primeira edição do Rock in Rio (1985): "Eu fui". Imagem: reprodução

Ingresso para a primeira edição do Rock in Rio (1985): “Eu fui”. Imagem: reprodução

Depois de quatro anos, em 2008, e juntamente com a terceira edição portuguesa, foi a vez dos espanhóis receberem o evento, na primeira edição do Rock in Rio Madri, com sua própria “Ciudad del Rock”, mais um endereço para o festival tupiniquim que agora já se afirmava como um evento legitimamente internacional. Neste contexto ibérico, um novo gênero ganhava mais espaço, a música eletrônica, sendo representada por artistas como David Guetta e Tiësto, além do comum hábito de abrir espaço para artistas locais. O Rock in Rio madrilenho também viria a ser responsável por elevar o festival a novos níveis, em especial através da transmissão ao vivo do evento via Youtube, em 2012, quando foi assistido por milhares de pessoas em todo o mundo.

Ney Matogrosso abrindo o festival, em 11 de janeiro de 1985, com "Desperta, América do Sul". Imagem: reprodução

Ney Matogrosso abrindo o festival, em 11 de janeiro de 1985, com “Desperta, América do Sul”. Imagem: reprodução

Os portugueses não ficaram para trás e também contribuíram em vários aspectos com o festival. O Palco Sunset, criado para juntar artistas diferentes em jam sessions fenomenais, foi iniciativa dos lusos, também foi deles a ideia de juntar ao festival desfiles de moda e mesmo apresentações de dança, através da criação do Palco Street Dance, destinado a apresentações de grupos de danças locais, ideia que seria copiada na edição brasileira de 2013. Em 2011, os brasileiros ainda haviam acrescentado uma novidade ao festival, a Rock Street, uma rua temática na “Cidade do Rock”, que além de abrigar lanchonetes, bares e apresentações artísticas, ainda serve de ponto de encontro para o público do evento. Aliás, neste mesmo ano de 2011 o Rock in Rio Brasil estava de casa nova, sendo que a “Cidade do Rock” havia de mudado de Jacarepaguá para o Parque dos Atletas (ou Parque Olímpico Cidade do Rock), na Barra da Tijuca. A antiga “Cidade do Rock” vai abrigar a Vila Olímpica para os Jogos Olímpicos de 2016, a serem realizados no Rio de Janeiro.

Cartaz da última edição do Rock in Rio Lisboa (2014). Festival de alcance global. Imagem: divulgação

Cartaz da última edição do Rock in Rio Lisboa (2014). Festival de alcance global. Imagem: divulgação

No ano de seu trigésimo aniversário, o Rock in Rio desembarca na terra do Tio Sam para a primeira edição do Rock in Rio USA, a ser realizado em Las Vegas nos dias 08, 09, 15 e 16 de maio. O evento já tem confirmado nomes como No Doubt, Metallica, Bruno Mars, Maná, Linkin Park, Deftones, Sepultura, John Legend, Joss Stone, entre outros. Além dos palcos Main Stage, Sunset Stage e Electronic, o evento contará com uma Rock Street (que aliás foi inspirada na ambientação das ruas de Nova Orleans) dividida em três temas diferentes, Rock Street Brazil, Rock Street USA e Rock Street UK. Será mais uma “Cidade do Rock” (“Rock City”) na terra onde o rock nasceu. O projeto “Por um mundo melhor” (“For a better world”) também acompanhará o evento.

O Rock in Rio também está confirmado para acontecer no Brasil em 2015, comemorando seu aniversário em casa. Já confirmaram presença Katy Perry, A-ha, System of a Down, Queens of Stone Age, System of a Down e John Legend. O evento que ocorrerá nos 18, 19, 20, 24, 25, 26 e 27 de setembro, já tem seus ingressos antecipados esgotados, estando as vendas programadas para serem retomadas em abril.

O fato é que o Rock in Rio se tornou um gigante: são 7 milhões de pagantes, 1 bilhão de espectadores via TV e/ou internet, mais de 11 milhões de pessoas com acesso ao evento pelas redes sociais e cerca de 150 mil operários trabalhando ao longo das 14 edições do festival. Vale lembrar que o festival já foi homenageado com um musical (“Rock in Rio – O musical”) e um samba-enredo (“Eu Vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio”, da Mocidade Independente de Padre Miguel), ambos em 2013. Enfim, deixamos aqui também a nossa homenagem, feliz aniversário a este gigante chamado Rock in Rio!

Para finalizar deixamos alguns momentos marcantes na trajetória do Rock in Rio:

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Mais informações no site oficial do evento: http://rockinrio.com/rio/

Pato Fu reafirma vigor com o novo álbum “Não Pare pra Pensar”

A banda mineira Pato Fu retorna aos estúdios e lança um dos discos mais inspirados da carreira depois de um hiato de sete anos de composições inéditas. Não Pare pra Pensar se destaca como um dos melhores álbuns brasileiros de 2014, com canções de peso como a faixa título, Um dia do seu sol e You have to outgrow rock’n’roll

Da esquerda para a direita: Lulu Camargo, Ricardo Koctus, John Ulhoa e Glauco Mendes. No sofá, Fernanda Takai

Da esquerda para a direita: Lulu Camargo, Ricardo Koctus, John Ulhoa e Glauco Mendes. No sofá, Fernanda Takai

2014 foi um ano bastante generoso no que se refere a lançamentos do pop rock nacional. Um dos últimos e mais importantes deles foi o retorno do Pato Fu a um álbum de inéditas desde 2007, quando saiu Daqui pro Futuro. Entre um e outro disco houve a experimentação com instrumentos de brinquedo e a voz de duas crianças nos discos Música de Brinquedo (2010) e o registro ao vivo de sua turnê, Música de Brinquedo ao Vivo (2011), direcionado também ao público infantil.

Boa parte da culpa dessa demora em lançarem um disco novo da banda foi o sucesso do trabalho solo de Fernanda Takai, que, desde o seu primeiro disco solo, Onde Brilhem os Olhos Seus (2007), não parou mais. Veio em seguida o registro ao vivo da turnê, Luz Negra (2009), que até trazia uma canção em parceria com John e que poderia muito bem integrar um álbum do Pato Fu; um trabalho com o ex-guitarrista do The Police Andy Summers, Fundamental (2012), e o novo e eclético Na Medida do Impossível (2014).

Não Pare pra Pensar (2014) dá seguimento ao clima de Daqui pro Futuro, embora seja um disco bem mais inspirado. As canções dialogam com o anterior e com a obra-prima Toda Cura para Todo Mal (2005). A primeira canção, por exemplo, Cego para as Cores, com uma guitarra que se destaca, celebra a alegria terrena, assim como Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié!, do disco de 2005. E por alegria terrena também quer dizer lidar com o que há de desagradável na vida.

A segunda canção, Crédito ou débito, já é mais venenosa, na tradição de Like a rolling stone, de Bob Dylan. Você vai se arrepender, espere só o seu fim, canta em tom ameaçador Fernanda Takai, em sua voz doce.

Takai talvez não tenha se sentido à vontade para cantar a canção seguinte, Ninguém mexe com o diabo, ficando a cargo do marido John Ulhoa. Não chega a ser uma canção diabólica ou algo assim, mas não deixa de ser um tanto incômoda. Fala da falta de amor no mundo. Destaque para os teclados de Lulu Camargo.

A faixa título Não pare pra pensar é muito gostosa de ouvir, com uma sonoridade bem eletrônica, festiva e dançante, embora a letra, mais uma vez, seja agridoce, ao lidar com a incapacidade de mudar a si próprio.

Eu era feliz começa lembrando os acordes iniciais de Why can’t I be you?, do The Cure, e também equilibra a alegria da música com a tristeza da letra. O refrão diz: Arrisquei palavras frias que ferem/ Queimam e podem matar/Dói no peito o amor que de mim aos poucos se desfaz.

Mas nada nos prepara para a beleza e a melancolia de Um dia do seu sol, uma das mais belas canções do ano. A canção, mais lenta, começa apenas com a guitarra para depois os outros instrumentos entrarem. A letra já começa devastadora: Às vezes você pensa/ Será que essa chuva nunca vai passar/nunca vai parar de me molhar/Mas pode ser que o mundo esteja te implorando um dia de sol/ Me dê um dia do seu sol. A balada é enriquecida com um solo de guitarra de John tão lindo que dói.

John Ulhoa com seu skate no videoclipe de You have to outgrow rock'n'roll

John Ulhoa com seu skate no videoclipe de You have to outgrow rock’n’roll

A faixa seguinte, You have to outgrow rock’n’roll, trata de espantar um pouco a tristeza da canção anterior com um rock próximo do punk e do skate rock na voz de John. É uma das melhores e mais vibrantes faixas do disco e é cantada em inglês. Foi destaque na internet. No clipe, John mostra um grupo de cinquentões (ou quase) não deixando de lado o seu vício pelo skate, algo tão relacionado à juventude. E a canção trata justamente disso, da necessidade de amadurecer, casar, ter filhos, ser parte da paisagem. Ainda assim, é uma mensagem que pode ser encarada com um grau de ironia. De todo modo, é dessas canções que nos fazem sonhar em um show ao vivo da banda e que certamente faria um enorme sucesso mundo afora se fosse de uma banda americana ou inglesa.

Siga mesmo no escuro é uma volta às baladas e às canções tristes, embora a letra seja otimista. O refrão diz: Você vai enxergar quando seus olhos se acostumarem. Muito provavelmente é uma faixa dedicada a pessoas com depressão e que precisam de uma voz de esperança. A guitarra lembra um pouco o U2 tardio.

O cantor Ritchie, que fez tanto sucesso nos anos 1980, faz um duo com Fernanda em Pra qualquer bicho, que não é das canções mais inspiradas do disco, mas a música tem uma textura agradável, com uma cozinha de baixo e bateria bastante atuante.

Talvez a canção que poderia ter ficado de fora do álbum seja Mesmo que seja eu, de autoria de Roberto e Erasmo Carlos, que já teve o seu cover definitivo na voz de Marina Lima. Até pela sua orientação sexual, a letra faz todo o sentido na voz de Marina, que ainda modificou bastante o arranjo e a estrutura, destacando inclusive a solidão. Embora o Pato Fu tenha alguns covers ótimos, este não é dos melhores. Poderia estar no disco solo da Fernanda Takai. Ainda assim, a canção é tão boa que não dá pra reclamar, até pelas guitarras de John ao final.

Fechando o álbum, destaca-se outra verve irônica de John em Eu ando tendo sorte, em que se destaca o piano de Lulu Camargo. John já havia tratado dessa questão da sorte e da má sorte explicitamente em uma faixa do álbum Toda Cura para Todo Mal. Mais uma amostra de que o Pato Fu chegou a um estágio de sua carreira em que pode se dar ao luxo de fazer autorreferências.

E com Não Pare pra Pensar, Pato Fu segue se firmando como uma das melhores bandas de rock do país, com uma carreira que veio de discos engraçadinhos, fruto de certa tendência dos anos 1990, além de beber muito da influência dos Mutantes, para depois entrar de cabeça em canções mais melancólicas e profundas e chegar à maturidade com o vigor que poucas bandas de mais de 20 anos têm.

Veja o clipe de You have to outgrow rock’n’roll

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