RELICÁRIO DO CINEMA #4 – PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA

O filme que consolidou a carreira de Quentin Tarantino como expoente da nova geração de realizadores de Hollywood, Pulp Fiction é o analisado da semana na nova coluna sobre os clássicos da Sétima Arte

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PULP FICTION (1994) : Tarantino chegou com o pé na porta dos grandes estúdios

A nouvelle vague, movimento do cinema francês da década de 60, trouxe o conceito de “cinema de autor”, no qual a obra estaria repleta de características que imediatamente fariam referência ao diretor. Essas marcas registradas serviriam para identificar imediatamente um determinado autor pelos detalhes de seus filmes. Quentin Tarantino é tão fã da Nouvelle Vague, que sua produtora se chamava A Band Apart, uma homenagem ao filme do mestre francês Jean Luc Godard.

Pulp Fiction é impregnado daqueles detalhes que fazem os filmes de Tarantino serem marcantes e nele inseridos a ultra violência, o humor negro, a trilha sonora cuidadosamente escolhida, os diálogos banais, mas cuidadosamente lapidados e a maneira não linear de contar a história. É o cinema de Quentin, na melhor acepção da palavra. Some-se à essa mistura, um elenco estelar, e temos, em 1994, o filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes e, do Oscar, de Roteiro Original. Orçado em “apenas” oito milhões de dólares, o filme rendeu mais de US$ 200 milhões no mundo todo, caracterizando assim o sucesso de público e crítica. Uma observação: o título adveio das publicações em papel barato (pulp), que contam as peripécias de gângsteres, mulheres fatais e são permeadas de violência, condizendo exatamente com a temática do filme.

Temos no roteiros três histórias distintas que se entrecruzam em determinados momentos. Primeiro temos Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) e Vincent Vega ( John Travolta), dois funcionários do gângster Marsellus Wallace (Ving Rhames), que tem como missão buscarem uma mala com um misterioso e valioso conteúdo na casa de uns bandidos pé-rapados. Vale destacar aqui a química de cena entre Travolta e Jackson, ambos muito bem em seus papéis, seus desempenhos foram reconhecidos e assim indicados à várias premiações naquele ano (incluindo o Oscar).

Na segunda história, Vic tem que fazer companhia a mulher do seu chefe, Mia Wallace(Uma Thurman), durante uma noite, e assim a leva para sair, o que resulta em pelo menos duas cenas antológicas: a da dança ao som de Chuck Berry, e a da overdose, com a famigerada injeção de adrenalina. A terceira história é a de Butch, pugilista que tem como acordo com Marsellus para perder a sua luta e, ao invés disso, mata o adversário no ringue, o que vem obviamente, a causar problemas com o criminoso.

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PULP FICTION (1994) : Travolta rememora seus tempos de brilhantina e disco music

A história vai e volta no tempo, e. no entanto, isso em nenhum momento a deixa confusa, pelo contrário, dá um dinamismo narrativo, fazendo com que sempre esteja acontecendo algo interessante, ou sendo proferida uma frase marcante. As atuações dos elenco , excelentes – até mesmo Tarantino dá as caras no arco narrativo de Vic/Jules, destaque também para a hilariante participação de Harvey Keitel, e o seu “resolvedor de problemas”, Wolf. As músicas, como sempre, são um caso à parte, bem escolhidas. Temos Dick Dale ( e o empolgante tema inicial), Dusty Springfield, Chuck Berry e sua “You Never Can Tell” e Urge Overkill, com a bela “Girl You’ll Be a Woman Soon “

Por ter revitalizado a carreira de John Travolta – que andava no ostracismo -, alavancado as carreiras de Uma Thurman e Samuel L.Jackson, contar com um roteiro brilhante e atuações beirando à perfeição, Pulp Fiction merece figurar entre os clássicos do cinema. E mesmo passando-se quase vinte anos de seu lançamento ainda mantém o frescor intacto, simplesmente genial.

NOVE CURIOSIDADES SOBRE PULP FICTION

1- A mãe de Tarantino afirmou que, durante a gravidez, costumava escutar repetidamente música “You Never Can Tell”, de Chuck Berry, escolhida por ele para a cena da dança entre Mia e Vincent no Jack Rabbit;

2- John Travolta não tinha sido o escolhido para o filme, foi Michael Madsen que ganhou o papel, mas ele não pôde (estava gravando Wyatt Earp), então, Travolta foi chamado para atuar;

3- Muitas atrizes queriam o papel de Mia Wallace, entre elas, Meg Ryan e Isabella Rossellini, mas Tarantino estava tão desesperado para que Uma Thurman aceitasse o papel, que leu o roteiro inteiro para ela no telefone, fazendo-a aceitar;

4- Originalmente, o personagem Jules deveria ostentar uma vasta cabeleira estilo black power, mas um membro da equipe mostrou uma peruca feita com cabelo encaracolado para Quentin Tarantino. O diretor gostou, Samuel L. Jackson experimentou a peruca, aprovou e ela foi usada no filme;

5- Em princípio, o papel de Lance seria interpretado por Tarantino, e o de Jimmie, por Eric Stoltz. Mas o diretor decidiu que queria estar atrás das câmeras na cena da injeção de adrenalina em Mia, por isso, trocaram os papéis;

6- A carteira de Jules, onde dizia “Bad Motherfucker” era, na verdade, de Tarantino;

7- O Método de Pumpkin e Honey Bunney’s de assaltar vem do filme O Grande Roubo do Trem (1903),o primeiro filme de faroeste da história;

8- Na conversa entre Mia e Vincent no restaurante, Mia conta que formava parte de um grupo de 5 garotas: uma loira, uma chinesa, uma negra, uma francesa e a própria Mia, que era a mais letal com facas. Fato que coincide com as características das 5 integrantes do “Esquadrão Assassino Víboras Mortais” em Kill Bill;

9- A espada que Butch usa para salvar Marcellus, é a mesma usada em Kill Bill;

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EUA, 1994
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary
Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Uma Thurman, Harvey Keitel, Quentin Tarantino, Ving Rhames
Produção: Lawrence Bender
Fotografia: Andrzej Sekula
Montagem: Sally Menke
Trilha Sonora:Karyn Rachtman
160 minutos
18 anos
A Band Apart / Jersey Films / Miramax Films

Confira a icônica cena de dança de John Travolta e Uma Thurman ao som de You Never Can Tell, de Chuck Berry