Dublado ou Legendado?

Com a ascensão da chamada classe C ao universo do consumo, um novo fenômeno toma conta das salas de cinema brasileiras: a exibição massiva de cópias dubladas, o que pode levar o público cinéfilo tradicional a abandonar de vez a frequências às salas de cinema, já confinadas em Shopping Centers

A dublagem é o fenômeno moderno das salas de cinema brasileiras

A dublagem é o fenômeno moderno das salas de cinema brasileiras. Imagem: reprodução

Dizem que uma das razões das cédulas de real – atual e mais duradoura moeda brasileira – serem coloridas, ao contrário das cédulas de dólar, monocromáticas, é que isso facilitaria a vida dos analfabetos, grupo ainda expressivo no conjunto da população nacional, sendo o oitavo maior entre adultos sem conhecimentos básicos em leitura do mundo. Deve ter sido em função dessa triste realidade que Jânio Quadros, o presidente da vassoura, decretou, em 1962, que todos os filmes transmitidos pela televisão nacional deveriam ser dublados. Nesse período, quase 30 dos cerca de 70 milhões de brasileiros não sabia fazer um “O” com uma quenga e quem sabia – a maioria dos donos de aparelhos de TV, um luxo naquele período – não estava muito disposto a acompanhar as legendas colocadas na parte inferior da telinha.

Quando Jânio fez valer a obrigatoriedade da “versão brasileira” de películas internacionais exibidas naquele tempo pré Globo, ele não poderia prever que a ascensão da classe C – famílias com relativo poder aquisitivo – em outras palavras, pouca grana – e exagerado nível de consumo, levaria essa regra, cada dia com mais força, às salas de cinema, por sua vez desertadas pelo público mais exigente, sobretudo o mais velho, cansado de se ver obrigado a se deslocar até distantes shopping centers, enfrentar longas filas, barulho a dar com o pau e ainda ter que pagar por tudo isso. Vitória da preguiça, da mediocridade. Pois, assim como cédulas coloridas não resolvem o drama do analfabetismo em nosso país – sobretudo o funcional, talvez mais grave que o formal -, filmes dublados não tornam a sétima arte mais “acessível” ao público. Pelo contrário: quem gosta de filme dublado normalmente não gosta de cinema.

Filmes dublados não são prejudiciais apenas por nos tirar a oportunidade de ouvir o áudio original das películas, bem diferente daquele refeito – com competência, vale dizer – em estúdios especializados no Brasil. Pouca gente sabe que, para ser um dublador, um dos requisitos mais valorizados é a formação em teatro. Muitos dubladores são também atores. E isso tem fortes implicações sobre a qualidade das atuações de atores cujas vozes são substituídas por colegas brasileiros. É inevitável que o dublador, seja ele ator profissional ou não, ponha algo de si nas falas de um… Marlon Brando, por exemplo. Por mais fiel que o dublador seja ao estilo de Brando, ou do método Stanislaviski, popularizado nos EUA por Stella Adler (professora de Brando) e Lee Strasberg, é evidente que a interpretação, a rigor, não será a mesma, assim como um raio nunca cai duas vezes sobre um mesmo lugar.

 “E daí?” há de retrucar o indiferente adolescente na (longa) fila do cinema com sua turma, ostentando seu figurino “de marca” e fazendo sorridentes poses para overdoses de selfies que funcionarão como prova – virtual, como tudo nos dias de hoje – de que ele lá esteve (não no cinema, mas no cinema “do Shoppipng”), ou a mãe repleta de filhos choramingando porque querem a carérrima pipoca que entrará na fatura do cartão de crédito, já estourado. Esse público ocasional possivelmente se sente mais à vontade em conversar e mexer nos seus smartphones durante a sessão, sem ter que prestar atenção à legendas ou aos diálogos de atores estrangeiros. Isso porque o cinema para ele é o de menos, apenas um plus no dia de lazer capitalista. É triste constatar, ao se confrontar o número de cópias legendadas, em relação às dubladas, distribuídas atualmente nas salas de cinema brasileiras, que o futuro é esse mesmo. A (de) formação das novas gerações de cinéfilos está garantida. Por via das dúvidas, é melhor imprimir mais notas coloridas.

XUXA – O Ocaso do Star System Televisivo Tupiniquim

Ex-rainha dos baixinhos, após 30 anos de Globo Xuxa foi demitida, com a perspectiva de contratação por parte da Rede Record em futuro próximo. Este fato, no entanto, não pode ser interpretado isoladamente, fazendo parte de um contexto mais amplo, onde estrelas de televisão são arrastadas pelo ocaso dessa mídia tradicional, face ao desgaste da programação tradicional e das novas atrações oferecidas a partir da internet de banda larga. Será este mais um sinal dos tempos para os grandes grupos televisivos? Não, mas provavelmente o primeiro passo de uma ampla reformulação da mesma, que implicará um novo papel para antigos ídolos da telinha

Ex-rainha dos baixinhos, atualmente Xuxa está sem contrato na TV

Ex-rainha dos baixinhos, atualmente Xuxa está sem contrato na TV. Fotografia: reprodução

Foi-se o tempo em que estrelas de TV podiam se dar ao luxo de ficar na “geladeira” e/ou exigir cifras milionárias para fechar contrato com grandes emissoras. Após trinta anos de Globo, Xuxa Meneghel está sem emprego e, até agora, apenas com uma proposta não oficial da Rede Record para fazer parte do star system da principal concorrente da Vênus platinada.

Ainda que Xuxa migre para o grupo de comunicação de Edir Macedo, é provável que isso não dê em muita coisa. Gugu Liberato já esteve por lá, ganhando salário incompatível com sua escassa audiência, e logo recebeu o bilhete azul. Hebe Camargo, outro baluarte da televisão brasileira, fechou contrato com a Rede TV, em 2010, após 25 anos de SBT, mas logo entrou em litígio por questões salariais e pelo retorno insatisfatório de audiência do seu então novo programa. Estava de volta, de mala e cuia, para a emissora de Silvio Santos, com salário e verba de produção reduzidos, quando faleceu, em 2012.

Tanto Xuxa como Gugu estão há algum tempo longe dos holofotes. De certa forma, as estrelas do mainstream televisivo nacional sofrem com o profundo processo de transformação promovido  no ambiente midiático pela internet de banda larga. Não há mais lugar para contratados ociosos que ganham rios de dinheiro sem dar um dia de serviço e que exigem mundos e fundos para vender sua imagem no sempre instável mundo do show business. Num tempo em que “novos ídolos” aparecem e somem na velocidade de um clique e a audiência média dos programas de TV despenca ladeira abaixo, isso é impraticável.

A televisão passa por um irreversível processo de desgaste, cujas causas principais são a má qualidade da programação das emissoras hegemônicas (efeito a longo prazo de décadas de críticas ignoradas pelos executivos das mesmas), além da comodidade propiciada pelos novos serviços utilizando a internet de banda larga. O Streaming (serviço de vídeos sob demanda) superará a TV a cabo em poucos anos, prevê Reed Hastings, executivo do Netflix. Claro, isso não será o fim definitivo da TV como a conhecemos, mas certamente implicará numa reformulação dos formatos dos programas, dos contratos com seu cast e, principalmente, no lento ocaso das antigas estrelas não adaptadas aos novos tempos.

Durante as décadas de 1980 e 1990, Xuxa Meneghel e Gugu Liberato eram sinônimo de televisão no Brasil. Atualmente, ambos simbolizam a decadência desse veículo de comunicação, assim como do star system da telinha tupiniquim. Dos medalhões da TV dessa época, apenas Faustão resiste bravamente, com índices de audiência razoáveis para os dias de hoje e com mega salário (estima-se em R$ 5 milhões mensais), mas com planos de aposentadoria entre 2017 e 2020. Se Silvio Santos (90 anos em 2020), que é de outra geração e dono de emissora, ainda estiver vivo até lá, será um dos únicos que ainda poderão fidelizar uma plateia, nem que esta seja repleta de “colegas de trabalho”. Mesmo que se tente encontrar sucessores, é provável que essas iniciativas sejam debaldadas, quando consideramos que as crianças e adolescentes de hoje dificilmente abrem mão dos seus celulares para formar uma plateia passiva defronte à TV. Xuxa já não é rainha dos baixinhos faz tempo, e certamente será difícil encontrar outro papel social para uma jovem senhora de muita beleza, mas pouco apelo frente à juventude de hoje. Seria mais digno para ela curtir a aposentadoria precoce, sem se preocupar com a falsa necessidade de se manter no mundo da fama. Se Xuxa persistir, mesmo em outra empresa, será provável que ela descubra o que há muito se nega a admitir: ela e a televisão, tal como a conhecemos, já deram o que tinham de dar.

O Imortal Bolaños

Aos 85 anos e com graves problemas de saúde, Roberto Gomez Bolanõs faleceu na última sexta-feira, deixando um legado que já o imortalizou em vida. O gênio mexicano foi o responsável por programas e personagens famosos ao redor do mundo e que traziam a marca de um tipo de humor ingênuo, o qual cativou e continua cativando gerações de fãs. Um dos raros artistas a aliar talento artístico e comercial, Bolaños entra na galeria de personalidades indeléveis da história da cultura de massas em todos os tempos. E não poderia ser diferente

Um gênio vestindo a persona de outro gênio: Bolaños como Chaplin

Um gênio vestindo a persona de outro gênio: Bolaños como Carlitos, o personagem que imortalizou Charles Chaplin, a maior influência do ídolo mexicano. Foto: reprodução

Saber do desaparecimento físico de Roberto Gómez Bolaños provoca inevitavelmente tristeza em milhões de pessoas ao redor do mundo. Gerações se dobraram (e ainda dobram) de rir com a galeria de personagens nascidos do gênio mexicano que nos deixou na última sexta. Considerando a idade avançada e os sucessivos problemas de saúde, a sua morte não chega a surpreender, ponderação que não diminui a perda. Porém, recordando as inúmeras vezes em que Chaves ou Chapolin – só para citar suas criações mais famosas – nos fizeram rir, dá para ficar exatamente triste?

Bolaños foi o raro tipo de artista que soube aliar o talento à verve comercial. Embora não fosse unanimidade entre a crítica especializada (há quem torça o nariz para tudo!), o filho de uma secretária e de um artista visual, que conheceu o sucesso de público já na casa dos 40 – mas que gozaria do mesmo pelo resto da vida -,  demonstrou desde cedo talento para as letras. Isso fica muito evidente quando analisamos os principais elementos que concorreram para o estouro de um seriado como Chaves. Não obstante a precariedade dos recursos, o que chama mesmo a atenção para esse autêntico fenômeno da cultura de massas é o excelente roteiro, além, claro, do elenco matador.

Isso nos leva a dimensionar a genialidade de Roberto: ele não só escrevia muito bem, como ainda tinha grande sensibilidade para identificar o talento alheio. Só um artista e profissional tarimbado como ele poderia ter convencido a então petulante e jovem atriz dramática Maria Antonieta de las Nieves a encarar o papel de filha de um trambiqueiro num seriado televisivo de humor. Só ele poderia ter imortalizado Ramón Valdez, ator que tinha dezenas de filmes nas costas, mas quase todos com participações irrelevantes. Isso só para ficar nos campos do roteiro e da direção. É preciso dizer que o mestre mexicano era um homem de múltiplos talentos: compunha, atuava e administrava sua obra, tudo com inegável brilho. Como resistir ao olhar de fome ou medo do chavinho quando o quarentão Roberto lhe dava aquela expressão tão característica das crianças?

Reunido com o elenco de Chaves, sua criação mais popular: fenômeno cultural

Reunido com o elenco de Chaves, sua criação mais popular: fenômeno cultural. Foto: reprodução

Roberto é tributário de mestres do humor simples e ingênuo visto em Chaves. Sem dúvida, Charles Chaplin foi uma das suas mais fortes influências. Há muito Chaplin nas gags do seriado mexicano, nos temas universais e na promoção de valores humanitários. Embora fosse marcadamente conservador – fez duras críticas à esquerda mexicana e tinha ligações com a igreja católica -, Bolaños sempre se mostrou preocupado com as chagas sociais que estigmatizavam o seu país, tão longe de Deus, mas tão próximo dos Estados Unidos. Chaves é um retrato sociológico de uma América Latina marcada pelas contradições sociais e pelos seus efeitos em nível micro: a promiscuidade entre a classe média e a pobreza (ambas dividindo o mesmo espaço), a vida de improviso de quem não se adequa ao sistema (leia-se seu Madruga e seus trambiques), a arrogância daqueles que detêm o saber, enfim: taxar a série de alienada é tão leviano quanto entender a politização da arte como panfletarismo barato. Mas ainda há quem persista no equívoco de levar tudo a sério demais.

Roberto Gómez Bolaños foi um dos raros artistas a ser imortalizado ainda em vida. Sabia que era amado, sobretudo nos lugares onde sua obra foi mais consagrada, como no Brasil. Sua última mensagem no Twitter foi dedicada ao país onde Chaves aportou em 1984, para nunca mais deixar de ser exibido, chegando a ameaçar a liderança de standards da TV brasileira, como o Jornal Nacional, em determinados períodos. Nesse aspecto, ele deve ter ido em paz. E merecidamente.

A verdadeira idolatria em torno de Chaves gerou homenagens como o trailer de um falso filme de ação envolvendo os personagens do seriado mexicano. E é com esse material que encerramos nossa homenagem:

Imagem de Amostra do You Tube