RELICÁRIO DO CINEMA #4 – PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA

O filme que consolidou a carreira de Quentin Tarantino como expoente da nova geração de realizadores de Hollywood, Pulp Fiction é o analisado da semana na nova coluna sobre os clássicos da Sétima Arte

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PULP FICTION (1994) : Tarantino chegou com o pé na porta dos grandes estúdios

A nouvelle vague, movimento do cinema francês da década de 60, trouxe o conceito de “cinema de autor”, no qual a obra estaria repleta de características que imediatamente fariam referência ao diretor. Essas marcas registradas serviriam para identificar imediatamente um determinado autor pelos detalhes de seus filmes. Quentin Tarantino é tão fã da Nouvelle Vague, que sua produtora se chamava A Band Apart, uma homenagem ao filme do mestre francês Jean Luc Godard.

Pulp Fiction é impregnado daqueles detalhes que fazem os filmes de Tarantino serem marcantes e nele inseridos a ultra violência, o humor negro, a trilha sonora cuidadosamente escolhida, os diálogos banais, mas cuidadosamente lapidados e a maneira não linear de contar a história. É o cinema de Quentin, na melhor acepção da palavra. Some-se à essa mistura, um elenco estelar, e temos, em 1994, o filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes e, do Oscar, de Roteiro Original. Orçado em “apenas” oito milhões de dólares, o filme rendeu mais de US$ 200 milhões no mundo todo, caracterizando assim o sucesso de público e crítica. Uma observação: o título adveio das publicações em papel barato (pulp), que contam as peripécias de gângsteres, mulheres fatais e são permeadas de violência, condizendo exatamente com a temática do filme.

Temos no roteiros três histórias distintas que se entrecruzam em determinados momentos. Primeiro temos Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) e Vincent Vega ( John Travolta), dois funcionários do gângster Marsellus Wallace (Ving Rhames), que tem como missão buscarem uma mala com um misterioso e valioso conteúdo na casa de uns bandidos pé-rapados. Vale destacar aqui a química de cena entre Travolta e Jackson, ambos muito bem em seus papéis, seus desempenhos foram reconhecidos e assim indicados à várias premiações naquele ano (incluindo o Oscar).

Na segunda história, Vic tem que fazer companhia a mulher do seu chefe, Mia Wallace(Uma Thurman), durante uma noite, e assim a leva para sair, o que resulta em pelo menos duas cenas antológicas: a da dança ao som de Chuck Berry, e a da overdose, com a famigerada injeção de adrenalina. A terceira história é a de Butch, pugilista que tem como acordo com Marsellus para perder a sua luta e, ao invés disso, mata o adversário no ringue, o que vem obviamente, a causar problemas com o criminoso.

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PULP FICTION (1994) : Travolta rememora seus tempos de brilhantina e disco music

A história vai e volta no tempo, e. no entanto, isso em nenhum momento a deixa confusa, pelo contrário, dá um dinamismo narrativo, fazendo com que sempre esteja acontecendo algo interessante, ou sendo proferida uma frase marcante. As atuações dos elenco , excelentes – até mesmo Tarantino dá as caras no arco narrativo de Vic/Jules, destaque também para a hilariante participação de Harvey Keitel, e o seu “resolvedor de problemas”, Wolf. As músicas, como sempre, são um caso à parte, bem escolhidas. Temos Dick Dale ( e o empolgante tema inicial), Dusty Springfield, Chuck Berry e sua “You Never Can Tell” e Urge Overkill, com a bela “Girl You’ll Be a Woman Soon “

Por ter revitalizado a carreira de John Travolta – que andava no ostracismo -, alavancado as carreiras de Uma Thurman e Samuel L.Jackson, contar com um roteiro brilhante e atuações beirando à perfeição, Pulp Fiction merece figurar entre os clássicos do cinema. E mesmo passando-se quase vinte anos de seu lançamento ainda mantém o frescor intacto, simplesmente genial.

NOVE CURIOSIDADES SOBRE PULP FICTION

1- A mãe de Tarantino afirmou que, durante a gravidez, costumava escutar repetidamente música “You Never Can Tell”, de Chuck Berry, escolhida por ele para a cena da dança entre Mia e Vincent no Jack Rabbit;

2- John Travolta não tinha sido o escolhido para o filme, foi Michael Madsen que ganhou o papel, mas ele não pôde (estava gravando Wyatt Earp), então, Travolta foi chamado para atuar;

3- Muitas atrizes queriam o papel de Mia Wallace, entre elas, Meg Ryan e Isabella Rossellini, mas Tarantino estava tão desesperado para que Uma Thurman aceitasse o papel, que leu o roteiro inteiro para ela no telefone, fazendo-a aceitar;

4- Originalmente, o personagem Jules deveria ostentar uma vasta cabeleira estilo black power, mas um membro da equipe mostrou uma peruca feita com cabelo encaracolado para Quentin Tarantino. O diretor gostou, Samuel L. Jackson experimentou a peruca, aprovou e ela foi usada no filme;

5- Em princípio, o papel de Lance seria interpretado por Tarantino, e o de Jimmie, por Eric Stoltz. Mas o diretor decidiu que queria estar atrás das câmeras na cena da injeção de adrenalina em Mia, por isso, trocaram os papéis;

6- A carteira de Jules, onde dizia “Bad Motherfucker” era, na verdade, de Tarantino;

7- O Método de Pumpkin e Honey Bunney’s de assaltar vem do filme O Grande Roubo do Trem (1903),o primeiro filme de faroeste da história;

8- Na conversa entre Mia e Vincent no restaurante, Mia conta que formava parte de um grupo de 5 garotas: uma loira, uma chinesa, uma negra, uma francesa e a própria Mia, que era a mais letal com facas. Fato que coincide com as características das 5 integrantes do “Esquadrão Assassino Víboras Mortais” em Kill Bill;

9- A espada que Butch usa para salvar Marcellus, é a mesma usada em Kill Bill;

8435107717803PULP FICTION
EUA, 1994
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary
Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Uma Thurman, Harvey Keitel, Quentin Tarantino, Ving Rhames
Produção: Lawrence Bender
Fotografia: Andrzej Sekula
Montagem: Sally Menke
Trilha Sonora:Karyn Rachtman
160 minutos
18 anos
A Band Apart / Jersey Films / Miramax Films

Confira a icônica cena de dança de John Travolta e Uma Thurman ao som de You Never Can Tell, de Chuck Berry

SUNDANCE INICIA CORRIDA PELO OSCAR 2016 COM “BROOKLYN”, “GRANDMA” E MAIS

Ramin Setoodeh, Editor de Filmes, Nova Iorque para o site Variety
Tradução: Ávila Souza Oliveira

Cena de BROOKLYN (2015), de

Cena de BROOKLYN (2015), de John Crowley

Brooklyn, um drama sobre a jornada de um imigrante irlandês para a América, estreou no Festival de Sundance em uma segunda à noite, sem nenhum burburinho prévio. Mas quando as luzes se acenderam no Eccles Theatre em Park City, cerca de suas horas depois da exibição, seguidas de uma sessão de aplausos de pé, ficou claro que Sundance tinha cabado de exibir um dos melhores filmes do ano. Dentro de 24 horas a Fox Searchlight venceu os concorrentes (incluindo Weistein Co. E Focus Features) e uma disputa quente e arrebatou Brooklyn por 9 milhões de dólares. O acordo, o maior do festival desse ano, também iniciou oficialmente a corrida pelo Oscar 2016.

Pode parecer ridículo tentar prever uma premiação que acontecerá daqui a 13 meses. Mas os cinemas cobertos de neve em Park City podem ser as primeiras paradas de uma grande temporada de prêmios. Em 2014 Sundance iniciou campanhas de indicados a Melhor Filme desse ano como Whiplash: Em Busca da Perfeição (que estreou no festival) e Boyhood: Da Infância à Juventude, com Richard Linklater e o elenco de seu então projeto secreto falaram com os repórteres pela primeira vez.

Brooklyn, que se passa como algo entre Educação (2009) e Terra dos Sonhos (2002), ambos indicados ao Oscar, é marcado pela melhor atuação da carreira de Saoirse Ronan como uma jovem mulher irlandesa que viaja até Nova Iorque em 1952. Ronan, que foi indicada ao Oscar em 2007 por Desejo e Reparação (2007), certamente estará na cerimônia do ano que vem. A Academia adora um bom choro, e Brooklyn é um forte candidato porque preenche três requisitos importantes: é uma fonte de lágrimas, é um filme de época e apresenta vários sotaques. O filme provavelmente concorra em categorias como Melhor Filme, Melhor Diretor (John Crowley), Melhor Roteiro (Nick Hornby adaptado do romance de Colm Toibin) e figurino.

Além de Ronan, Sundance deu boas vindas entusiasmadas para Blythe Danner em I’ll See You in My Dreams (Vejo Você em Meus Sonhos em tradução livre). Essa comédia dramática do diretor Brett Haley deu a sua estrela de 71 anos – sendo protagonista pela primeira vez em sua carreira – aplausos unânimes. I’ll See You in My Dreams, que foca em uma viúva lutando com sua própria mortalidade, é um filme com temáticas que dialogariam com o votantes mais maduros da Academia (a la Para Sempre Alice). E Danner, que vem de uma família de Hollywood, é um rosto familiar – muito atrasada para sua primeira indicação ao Oscar. É apenas uma questão de achar para o filme, que ainda não foi vendido, o distribuidor certo para impulsionar o filme na temporada de premiações.

Tendo em vista o quão fraca têm sido das disputas de Melhor Atriz recentemente, 2015 poderia mudar isso, porque Sundance apresentou outra forte concorrente na categoria. Estou falando de Lily Tomlin por Grandma, uma comédia de viagem estrelado pela veterana atriz. O filme estreou no final de janeiro nos EUA, mas ele brilhou bastante na cabine para imprensa e cineastas como uma solicitação para que Sony Pictures Classics o colhesse. A personagem de Tomlin, uma famosa poeta lésbica com setenta e poucos anos de luto pela perda de sua parceira, embarca em uma jornada com sua neta grávida. Aqueles que já viram o filme dizem que Tomlin carrega o filme cheio de diálogos pesados, especialmente durante uma longa e emocionante cena com Sam Elliott.

Os compradores de Sundance notaram rapidamente que os filmes desse ano estavam fortes fora do normal. Como resultado, não fiquem surpresos se The End of the Tour (O Final da Viagem em tradução livre) aparecer entre os últimos lançamentos a tempo da temporda de premiações. O drama, dirigido por James Ponsoldt, foca em um período de cinco dias em 1996 no qual o jornalista David Lipsky (Jesse Eisenberg), da revista Rolling Stone, entrevista David Foster Wallace (Jason Segel), logo depois da publicação do romance “Infinite Jest”. A Academia ama honrar atores que interpretam pessoas reais, e Segel consegue desaparecer nas cenas e dar vida ao cultuado escritor que era ambivalente em relação a sua própria fama. Se a distribuidora A24 decidir colocar Eisenberg como melhor ator coadjuvante (mesmo ele dividindo quase o mesmo tempo de cena que Segel), ele pode facilmente conseguir sua segunda indicação ao Oscar – a primeira em 2010 por A Rede Social.

Tive também vários documentários promissores, incluindo o olhar afiado de Alex Gibney na Igreja da Cientologia em Going Clear, The Hunting Groud, de Kirby Dick sobre estupro e Best of Enemies, documentário do diretor de A Um Passo do Estrelato, Morgan Neville, e Robert Gordon sobre o debate televisivo de 1968 entre Gore Vidal e William Buckley.

Por último, o favorito do público de Sundance foi Me & Earl & The Dying Girl, rotulado como A Culpa É das Estrelas de 2015 por causa de sua história sobre um formando do Ensino Médio (Thomas Mann) que vira melhor amigo de uma colega com leucemia (Olivia Cook). A Academia não é boa em reconhecer filmes sobre jovens, mas esse – que foi comprado pela Fox Searchlight – lembra o tom irreverente de Juno, indicado a Melhor Filme. Se o filme e as atuações não chegarem a ser indicados, a Academia ainda pode reconhecer o esperto e espirituoso roteiro de Jesse Andrews (que ele adaptou de seu próprio romance).

Voltem daqui a 12 meses nessa postagem para ver como essas previsões se saíram.

Dublado ou Legendado?

Com a ascensão da chamada classe C ao universo do consumo, um novo fenômeno toma conta das salas de cinema brasileiras: a exibição massiva de cópias dubladas, o que pode levar o público cinéfilo tradicional a abandonar de vez a frequências às salas de cinema, já confinadas em Shopping Centers

A dublagem é o fenômeno moderno das salas de cinema brasileiras

A dublagem é o fenômeno moderno das salas de cinema brasileiras. Imagem: reprodução

Dizem que uma das razões das cédulas de real – atual e mais duradoura moeda brasileira – serem coloridas, ao contrário das cédulas de dólar, monocromáticas, é que isso facilitaria a vida dos analfabetos, grupo ainda expressivo no conjunto da população nacional, sendo o oitavo maior entre adultos sem conhecimentos básicos em leitura do mundo. Deve ter sido em função dessa triste realidade que Jânio Quadros, o presidente da vassoura, decretou, em 1962, que todos os filmes transmitidos pela televisão nacional deveriam ser dublados. Nesse período, quase 30 dos cerca de 70 milhões de brasileiros não sabia fazer um “O” com uma quenga e quem sabia – a maioria dos donos de aparelhos de TV, um luxo naquele período – não estava muito disposto a acompanhar as legendas colocadas na parte inferior da telinha.

Quando Jânio fez valer a obrigatoriedade da “versão brasileira” de películas internacionais exibidas naquele tempo pré Globo, ele não poderia prever que a ascensão da classe C – famílias com relativo poder aquisitivo – em outras palavras, pouca grana – e exagerado nível de consumo, levaria essa regra, cada dia com mais força, às salas de cinema, por sua vez desertadas pelo público mais exigente, sobretudo o mais velho, cansado de se ver obrigado a se deslocar até distantes shopping centers, enfrentar longas filas, barulho a dar com o pau e ainda ter que pagar por tudo isso. Vitória da preguiça, da mediocridade. Pois, assim como cédulas coloridas não resolvem o drama do analfabetismo em nosso país – sobretudo o funcional, talvez mais grave que o formal -, filmes dublados não tornam a sétima arte mais “acessível” ao público. Pelo contrário: quem gosta de filme dublado normalmente não gosta de cinema.

Filmes dublados não são prejudiciais apenas por nos tirar a oportunidade de ouvir o áudio original das películas, bem diferente daquele refeito – com competência, vale dizer – em estúdios especializados no Brasil. Pouca gente sabe que, para ser um dublador, um dos requisitos mais valorizados é a formação em teatro. Muitos dubladores são também atores. E isso tem fortes implicações sobre a qualidade das atuações de atores cujas vozes são substituídas por colegas brasileiros. É inevitável que o dublador, seja ele ator profissional ou não, ponha algo de si nas falas de um… Marlon Brando, por exemplo. Por mais fiel que o dublador seja ao estilo de Brando, ou do método Stanislaviski, popularizado nos EUA por Stella Adler (professora de Brando) e Lee Strasberg, é evidente que a interpretação, a rigor, não será a mesma, assim como um raio nunca cai duas vezes sobre um mesmo lugar.

 “E daí?” há de retrucar o indiferente adolescente na (longa) fila do cinema com sua turma, ostentando seu figurino “de marca” e fazendo sorridentes poses para overdoses de selfies que funcionarão como prova – virtual, como tudo nos dias de hoje – de que ele lá esteve (não no cinema, mas no cinema “do Shoppipng”), ou a mãe repleta de filhos choramingando porque querem a carérrima pipoca que entrará na fatura do cartão de crédito, já estourado. Esse público ocasional possivelmente se sente mais à vontade em conversar e mexer nos seus smartphones durante a sessão, sem ter que prestar atenção à legendas ou aos diálogos de atores estrangeiros. Isso porque o cinema para ele é o de menos, apenas um plus no dia de lazer capitalista. É triste constatar, ao se confrontar o número de cópias legendadas, em relação às dubladas, distribuídas atualmente nas salas de cinema brasileiras, que o futuro é esse mesmo. A (de) formação das novas gerações de cinéfilos está garantida. Por via das dúvidas, é melhor imprimir mais notas coloridas.

XUXA – O Ocaso do Star System Televisivo Tupiniquim

Ex-rainha dos baixinhos, após 30 anos de Globo Xuxa foi demitida, com a perspectiva de contratação por parte da Rede Record em futuro próximo. Este fato, no entanto, não pode ser interpretado isoladamente, fazendo parte de um contexto mais amplo, onde estrelas de televisão são arrastadas pelo ocaso dessa mídia tradicional, face ao desgaste da programação tradicional e das novas atrações oferecidas a partir da internet de banda larga. Será este mais um sinal dos tempos para os grandes grupos televisivos? Não, mas provavelmente o primeiro passo de uma ampla reformulação da mesma, que implicará um novo papel para antigos ídolos da telinha

Ex-rainha dos baixinhos, atualmente Xuxa está sem contrato na TV

Ex-rainha dos baixinhos, atualmente Xuxa está sem contrato na TV. Fotografia: reprodução

Foi-se o tempo em que estrelas de TV podiam se dar ao luxo de ficar na “geladeira” e/ou exigir cifras milionárias para fechar contrato com grandes emissoras. Após trinta anos de Globo, Xuxa Meneghel está sem emprego e, até agora, apenas com uma proposta não oficial da Rede Record para fazer parte do star system da principal concorrente da Vênus platinada.

Ainda que Xuxa migre para o grupo de comunicação de Edir Macedo, é provável que isso não dê em muita coisa. Gugu Liberato já esteve por lá, ganhando salário incompatível com sua escassa audiência, e logo recebeu o bilhete azul. Hebe Camargo, outro baluarte da televisão brasileira, fechou contrato com a Rede TV, em 2010, após 25 anos de SBT, mas logo entrou em litígio por questões salariais e pelo retorno insatisfatório de audiência do seu então novo programa. Estava de volta, de mala e cuia, para a emissora de Silvio Santos, com salário e verba de produção reduzidos, quando faleceu, em 2012.

Tanto Xuxa como Gugu estão há algum tempo longe dos holofotes. De certa forma, as estrelas do mainstream televisivo nacional sofrem com o profundo processo de transformação promovido  no ambiente midiático pela internet de banda larga. Não há mais lugar para contratados ociosos que ganham rios de dinheiro sem dar um dia de serviço e que exigem mundos e fundos para vender sua imagem no sempre instável mundo do show business. Num tempo em que “novos ídolos” aparecem e somem na velocidade de um clique e a audiência média dos programas de TV despenca ladeira abaixo, isso é impraticável.

A televisão passa por um irreversível processo de desgaste, cujas causas principais são a má qualidade da programação das emissoras hegemônicas (efeito a longo prazo de décadas de críticas ignoradas pelos executivos das mesmas), além da comodidade propiciada pelos novos serviços utilizando a internet de banda larga. O Streaming (serviço de vídeos sob demanda) superará a TV a cabo em poucos anos, prevê Reed Hastings, executivo do Netflix. Claro, isso não será o fim definitivo da TV como a conhecemos, mas certamente implicará numa reformulação dos formatos dos programas, dos contratos com seu cast e, principalmente, no lento ocaso das antigas estrelas não adaptadas aos novos tempos.

Durante as décadas de 1980 e 1990, Xuxa Meneghel e Gugu Liberato eram sinônimo de televisão no Brasil. Atualmente, ambos simbolizam a decadência desse veículo de comunicação, assim como do star system da telinha tupiniquim. Dos medalhões da TV dessa época, apenas Faustão resiste bravamente, com índices de audiência razoáveis para os dias de hoje e com mega salário (estima-se em R$ 5 milhões mensais), mas com planos de aposentadoria entre 2017 e 2020. Se Silvio Santos (90 anos em 2020), que é de outra geração e dono de emissora, ainda estiver vivo até lá, será um dos únicos que ainda poderão fidelizar uma plateia, nem que esta seja repleta de “colegas de trabalho”. Mesmo que se tente encontrar sucessores, é provável que essas iniciativas sejam debaldadas, quando consideramos que as crianças e adolescentes de hoje dificilmente abrem mão dos seus celulares para formar uma plateia passiva defronte à TV. Xuxa já não é rainha dos baixinhos faz tempo, e certamente será difícil encontrar outro papel social para uma jovem senhora de muita beleza, mas pouco apelo frente à juventude de hoje. Seria mais digno para ela curtir a aposentadoria precoce, sem se preocupar com a falsa necessidade de se manter no mundo da fama. Se Xuxa persistir, mesmo em outra empresa, será provável que ela descubra o que há muito se nega a admitir: ela e a televisão, tal como a conhecemos, já deram o que tinham de dar.

O Imortal Bolaños

Aos 85 anos e com graves problemas de saúde, Roberto Gomez Bolanõs faleceu na última sexta-feira, deixando um legado que já o imortalizou em vida. O gênio mexicano foi o responsável por programas e personagens famosos ao redor do mundo e que traziam a marca de um tipo de humor ingênuo, o qual cativou e continua cativando gerações de fãs. Um dos raros artistas a aliar talento artístico e comercial, Bolaños entra na galeria de personalidades indeléveis da história da cultura de massas em todos os tempos. E não poderia ser diferente

Um gênio vestindo a persona de outro gênio: Bolaños como Chaplin

Um gênio vestindo a persona de outro gênio: Bolaños como Carlitos, o personagem que imortalizou Charles Chaplin, a maior influência do ídolo mexicano. Foto: reprodução

Saber do desaparecimento físico de Roberto Gómez Bolaños provoca inevitavelmente tristeza em milhões de pessoas ao redor do mundo. Gerações se dobraram (e ainda dobram) de rir com a galeria de personagens nascidos do gênio mexicano que nos deixou na última sexta. Considerando a idade avançada e os sucessivos problemas de saúde, a sua morte não chega a surpreender, ponderação que não diminui a perda. Porém, recordando as inúmeras vezes em que Chaves ou Chapolin – só para citar suas criações mais famosas – nos fizeram rir, dá para ficar exatamente triste?

Bolaños foi o raro tipo de artista que soube aliar o talento à verve comercial. Embora não fosse unanimidade entre a crítica especializada (há quem torça o nariz para tudo!), o filho de uma secretária e de um artista visual, que conheceu o sucesso de público já na casa dos 40 – mas que gozaria do mesmo pelo resto da vida -,  demonstrou desde cedo talento para as letras. Isso fica muito evidente quando analisamos os principais elementos que concorreram para o estouro de um seriado como Chaves. Não obstante a precariedade dos recursos, o que chama mesmo a atenção para esse autêntico fenômeno da cultura de massas é o excelente roteiro, além, claro, do elenco matador.

Isso nos leva a dimensionar a genialidade de Roberto: ele não só escrevia muito bem, como ainda tinha grande sensibilidade para identificar o talento alheio. Só um artista e profissional tarimbado como ele poderia ter convencido a então petulante e jovem atriz dramática Maria Antonieta de las Nieves a encarar o papel de filha de um trambiqueiro num seriado televisivo de humor. Só ele poderia ter imortalizado Ramón Valdez, ator que tinha dezenas de filmes nas costas, mas quase todos com participações irrelevantes. Isso só para ficar nos campos do roteiro e da direção. É preciso dizer que o mestre mexicano era um homem de múltiplos talentos: compunha, atuava e administrava sua obra, tudo com inegável brilho. Como resistir ao olhar de fome ou medo do chavinho quando o quarentão Roberto lhe dava aquela expressão tão característica das crianças?

Reunido com o elenco de Chaves, sua criação mais popular: fenômeno cultural

Reunido com o elenco de Chaves, sua criação mais popular: fenômeno cultural. Foto: reprodução

Roberto é tributário de mestres do humor simples e ingênuo visto em Chaves. Sem dúvida, Charles Chaplin foi uma das suas mais fortes influências. Há muito Chaplin nas gags do seriado mexicano, nos temas universais e na promoção de valores humanitários. Embora fosse marcadamente conservador – fez duras críticas à esquerda mexicana e tinha ligações com a igreja católica -, Bolaños sempre se mostrou preocupado com as chagas sociais que estigmatizavam o seu país, tão longe de Deus, mas tão próximo dos Estados Unidos. Chaves é um retrato sociológico de uma América Latina marcada pelas contradições sociais e pelos seus efeitos em nível micro: a promiscuidade entre a classe média e a pobreza (ambas dividindo o mesmo espaço), a vida de improviso de quem não se adequa ao sistema (leia-se seu Madruga e seus trambiques), a arrogância daqueles que detêm o saber, enfim: taxar a série de alienada é tão leviano quanto entender a politização da arte como panfletarismo barato. Mas ainda há quem persista no equívoco de levar tudo a sério demais.

Roberto Gómez Bolaños foi um dos raros artistas a ser imortalizado ainda em vida. Sabia que era amado, sobretudo nos lugares onde sua obra foi mais consagrada, como no Brasil. Sua última mensagem no Twitter foi dedicada ao país onde Chaves aportou em 1984, para nunca mais deixar de ser exibido, chegando a ameaçar a liderança de standards da TV brasileira, como o Jornal Nacional, em determinados períodos. Nesse aspecto, ele deve ter ido em paz. E merecidamente.

A verdadeira idolatria em torno de Chaves gerou homenagens como o trailer de um falso filme de ação envolvendo os personagens do seriado mexicano. E é com esse material que encerramos nossa homenagem:

Imagem de Amostra do You Tube