RELICÁRIO DO CINEMA #5 – TRÊS HOMENS EM CONFLITO

O expoente máximo do subgênero western spaghetti, é o filme analisado nessa semana na coluna, saiba o porque de Três Homens em Conflito (1966), de Sérgio Leone, merecer a alcunha de clássico incontestável

3 HOMENS EM CONFLITO (1966), de Sérgio Leone: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach

3 HOMENS EM CONFLITO (1966), de Sérgio Leone: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach

Sérgio Leone (1929 – 1989) costumava dizer que Clint Eastwood tinha apenas duas expressões faciais: uma com, e outra sem chapéu. Uma certa injustiça com o mais famoso (ao lado de John Wayne) ator dos westerns e protagonista central da célebre Trilogia dos Dólares, que tem em Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966) o seu terceiro e último capítulo. Embora as três produções possam ser encaradas como histórias independentes, esse último ato das aventuras do personagem sem nome vivido por Clint, talvez seja o maior representante do chamado westerns spaghetti, produções que apesar do pano de fundo histórico calcado na história dos EUA, era produzido e dirigido quase em sua exclusividade por europeus, sobretudo os italianos como Leone.

A trama, como o próprio nome diz (embora os brasileiros sempre tendam a inventar moda), gira em torno de três foras-da-lei que ganham a vida no Velho Oeste de modos diversos, Blondie, o Bom (Eastwood) tem uma parceria com Tuco, o Feio (Eli Wallach, soberbo), e ganham dinheiro passando a perna em xerifes e moradores de pequenas cidades, com um golpe pra lá de engenhoso. Já Angel Eyes ( Lee Van Cleef), é um impiedoso assassino de aluguel, o típico vilão detestável e temido dos típicos filmes de faroeste.

Após o término da parceria entre o Loirinho e Tuco, e o descobrimento de um certo tesouro enterrado em um local distante, tem-se ali o início da disputa entre os três, que planejam passar a perna um no outro para a obtenção da fortuna, a qual se encontra enterrada em um cemitério. Some-se ao enredo, o fato da região ser palco da Guerra Civil Americana e obrigatória a passagem dos personagens principais pela zona de conflito, o que causará alguns dramas e cenas memoráveis ao longo da película.

Em entrevista, Clint Eastwood afirmava que os charutos eram horrorosos e de péssima qualidade

Em entrevista, Clint Eastwood afirmava que os charutos eram horrorosos e de péssima qualidade

Geralmente, os detratores do gênero western, falam do pouco apuro técnico das produções, ou da interpretação afetada e clichê dos atores, mas essas reclamações jamais podem ser feita aos filmes de Sérgio Leone – e sobretudo a este em análise -, já que os enquadramentos, tanto de cenas abertas (gravadas em Almería, na Espanha), quanto nos closes ( a famosa cena do “trielo”), oferecem uma criatividade de renovação completa de um gênero dado como morto. O que vemos é um cineasta que sabia o que estava fazendo – e muito bem feito -, por sinal.

E quanto às atuações, Clint, como sempre mostra um total conforto ao interpretar o herói durão e corajoso, e Lee Van Cleef realmente faz crer que o seu personagem é perigoso e cruel – e que não se deve mexer com ele -,  sob o risco de ir falar mais cedo com Deus ou o Diabo. Mas o destaque do filme, aquele que mais tempo passa na tela, e que rouba as cenas mesmo com os outros personagens principais é Eli Wallach e o seu Tuco trambiqueiro, simplesmente magistral, tanto nas cenas de ação, quanto nos alívios cômicos no decorrer da trama, sendo este considerado, para muitos de seus fãs, o seu grande papel da carreira.

Algumas cenas memoráveis da história da Sétima Arte estão em 3 Homens em Conflito. Mesmo quem nunca o assistiu deve ter visto ou ouvido  falar da famosa cena do duelo – ou “trielo” final -, na qual os três personagens título decidem a posse do tesouro; ou viu ou ouviu sobre algumas das inúmeras paródias ao longo desses quase cinquenta anos, ou mesmo a corrida no cemitério, protagonizada por Tuco, uma das mais belas cenas que tive o prazer de ver em um filme. Mas a história não teria o mesmo peso dramático sem a trilha do insuperável mestre Ennio Morricone, que tem aqui algumas das suas melhores composições, casando completamente com a história, e pontuando com extrema precisão os momentos-chave da trama.

Três homens em Conflito é um clássico incontestável do Cinema, tendo em vista que, mesmo ao reunir vários dos clichês dos filmes de caubói, revigora um gênero quase abandonado pelos estúdios de Hollywood e se impõe  em definitivo ao apresentar um novo estilo de abordagem das histórias de faroeste, mesmo que tenha um roteiro que do ponto de vista narrativo pareça simplório, mas que em compensação traz vários diálogos memoráveis. E, sem deixar de destacar, os momentos de silêncio, o filme expressa a tensão de situações e personagens, como a já comentada sequência de quase cinco minutos do confronto final, com os seus seguidos enquadramentos nos olhos e expressões dos personagens, elementos cinematográficos elevam as expectativas do espectador, até o clímax – a qual, claro, não irei contar -, pois o objetivo aqui e querer que quem não a viu, veja,a parte ou melhor ainda, assista ao filme inteiro.

A cena clássica do duelo em 3 HOMENS EM CONFLITO: renovação da concepção dos duelos no Cinema

A cena clássica do duelo em 3 HOMENS EM CONFLITO: renovação da concepção dos duelos no Cinema

Três Homens em Conflito é altamente recomendado para os fãs do gênero e dos grandes filmes de um modo geral. Mas, os que gostam do cinema como arte irão se apaixonar.

CINCO CURIOSIDADES SOBRE TRÊS HOMENS EM CONFLITO

1- Em Il Buono, il Brutto, il Cattivo (O bom, o Mau e o Feio), o “feio” (Eli Wallach) é o personagem que mais aparece, embora o “bom” (Eastwood”) seja considerado o astro;

2- Eli Wallach quase foi decapitado na cena em que cai do trem;

3- O esqueleto encontrado por Tuco no cemitério de Sad Hill, era verdadeiro. Uma atriz espanhola colocou em seu testamento que gostaria de atuar mesmo depois de morta;

4- Sergio Leone e Ennio Morricone,o gênio que compôs as musicas dos seus filmes e de vários outros, eram colegas de classe quando crianças;

5- A cena da corrida no cemitério, em seu começo traz um improviso inusitado: o cachorro que assusta Eli Wallach, foi colocado sem o conhecimento do ator, Leone disse que tomou tal decisão porque não queria que o momento tomasse uma desnecessária carga melodramática. Coisa de gênio.

TRÊS HOMENS EM CONFLITO the-good-the-bad-and-the-ugly-movie-poster-1966-1010415095
Il Buono, il Brutto, il Cativo
The Good, the Bad and the Ugly (título internacional)
Itália-Espanha, 1966
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Lone, Agenore Incrocci, Furio Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni
Elenco: Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee VanCleef, Mario Brega, Rada Rassimov e Aldo Giuffré
Produção: Alberto Grimaldi
Fotografia: Tonino Delli Colli
Trilha Sonora: Enio Morricone
161 minutos

Conheça ou reveja  a clássica cena do cemitério, embalada pela magistral trilha de Enio Morricone:

Imagem de Amostra do You Tube

 

LEGO BATMAN – O FILME: DIVERTIDO, BEM HUMORADO E SENTIMENTAL

Animação Lego Batman – O Filme (The LEGO Batman Movie, Dinamarca/EUA, 2017), de Chris McKay diverte o espectador ao longo de sua duração, com um sarcasmo pertinente e hilário em diversos momentos, especialmente quando o homem morcego faz piada sobre sua própria história, como quando cita a série de TV dos anos 1960.


Cena de LEGO BATMAN - O FILME (2017), de Chris McKay

Cena de LEGO BATMAN – O FILME (2017), de Chris McKay

Com o mesmo espírito irreverente e divertido de Uma Aventura Lego (The Lego Movie, 2014) de Phil Lord e Chris Miller que foi um fenômeno global, tendo recebido elogios do público e da crítica. Nesta animação há citações a trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Nolan, e até do controverso Batman vs Superman: A Origem da Justiça, respeitando todo o legado criado por Bob Kane e Bill Finger e os fãs do herói mais popular dos cinemas, com todas as referências possíveis à história do personagem, nas telas e nos quadrinhos. Destaco aqui as cutucadas dadas ao homem de ferro.

Dessa vez, o egocêntrico e solitário Batman (dublado por Duda Ribeiro no Brasil) precisa aprender a trabalhar em grupo para salvar Gotham City. Apesar disto, ele curte bastante o posto de celebridade e o fato de sempre ser chamado pela polícia quando surge algum problema – que ele, inevitavelmente, resolve. Quando o comissário Gordon se aposenta, quem assume em seu lugar é sua filha Barbara Gordon/Batgirl (dublado por Guilene Conte na versão brasileira), que deseja implementar alguns métodos de eficiência de forma que a polícia não seja tão dependente do Batman. O herói, é claro, não gosta da ideia, por mais que sinta uma forte atração por Barbara. Paralelamente, o Coringa elabora um plano contra o Homem-Morcego motivado pelo fato de ter ficado magoado por ele não o reconhece como seu maior arquinimigo, aceitando a ajuda do mordono Alfred Pennyworth (dublado por Júlio Chaves no Brasil) e de Robin (dublado por Andreas Avancini no Brasil) seu filho adotivo Dick Grayson que rende piadas sobre os rumores permanentes acerca do relacionamento gay entre Batman e Robin, além da presença de vários personagens de filmes da Warner Bros.

Com roteiro escrito por Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington, o filme é repleto de um humor frenético, visual colorido e uma mensagem sentimental, mas extremamente honesta sobre a importância da família.

Poster de LEGO BATMAN - O FILME (The LEGO Batman Movie, Dinamarca/EUA, 2017), de Chris McKay

Poster de LEGO BATMAN – O FILME (The LEGO Batman Movie, Dinamarca/EUA, 2017), de Chris McKay

FICHA TÉCNICA

The Lego Batman Movie

Lançamento: 09/02/2017

Gênero: Animação, Ação, Comédia

Duração: 104 min

Origem: Estados Unidos

Direção: Chris McKay

Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern, John Whittington

Distribuidor: Warner Bros.

Classificação: Livre

Ano: 2017

 

Assista ao trailer de Lego Batman – O Filme:

Imagem de Amostra do You Tube

RELICÁRIO DO CINEMA #3 – APOCALYPSE NOW (1979)

Um dos maiores filmes de guerra já produzidos, Apocalypse Now figura no Panteão da Sétima Arte como poderoso e ambicioso registro ficcional da Guerra do Vietnã, sob o componente da insanidade que perpassa todo conflito armado

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O pôster de Apocalypse Now (1983): Como sempre, Brando em destaque.

A guerra está no espírito dos EUA. A política externa ianque, desde o início do século XX, é baseada no pressuposto de que são os “zeladores” do mundo. E a cultura pop não fica alheia à isso. Capitão América, Superman – e as suas nada sugestivas cores -, e até mesmo o Zé Carioca, criado por Walt Disney no auge da II Guerra, fruto da chamada “política da boa vizinhança”, são apenas alguns dos exemplos das tentativas estadunidense de impor a sua influência pelos mais variados métodos – seja pela cultura ou pela força das armas. Indo contra essa tendência, alguns dos melhores produtos da cultura do país advém do caráter antibelicista nela inseridos, e Apocalipse Now, o filme de Francis Ford Coppola ora abordado nesse texto, atende a esse último requisito.

Baseado livremente no romance O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857-1924), Apocalypse Now (1979) não é um simples filme de guerra. É uma história sobre pessoas que perdem a sanidade em decorrência de um conflito absolutamente sem sentido.É o horror do conflito, tirando a humanidade dos seus participantes. O protagonista, Capitão Willard, interpretado por um competente Martin Sheen, é um homem amargo, que não vê muitos motivos para estar naquela guerra, mas de algum modo acha aquilo melhor do que a sua casa. Como parte da Inteligência do Exército Americano, é mandado para confrontar um Coronel que se isolou na fronteira do Vietnã com o Camboja,e luta a guerra de sua própria maneira, esse oficial, Walter Kurtz, é interpretado pelo magistral Marlon Brando (1924-2004).

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APOCALIPSE NOW (1979): O horror e insanidade da guerra transposto para a tela.

Além dos dois, o elenco conta com Robert Duvall, aqui vivendo o insano Tenente Coronel Kilgore, e o estreante Laurence Fishburne, no papel do soldado Clean. Todos os membros do elenco entregam uma performance exemplar, mas como sempre, Brando esgota todos os adjetivos que podem ser dados a um ator, mesmo atuando quase sempre na penumbra (por questões de má forma física), e com pouco tempo de tela (infelizmente, mas necessário para a trama), Brando é simplesmente magnético, declamando o texto com uma sobriedade que consegue transmitir toda a grandeza do personagem, que é ao mesmo tempo, carismático e aterrador. Pode até se traçar um paralelo entre o ator e o personagem, que por muitos anos depois desse filme se tornou um recluso, cercado apenas pela próprio mito.

A trilha sonora é um show à parte, contando com criações dos Rolling Stones, Credence Clearwater, The Doors e a hipnótica “The End” (que casa perfeitamente com a trama), além claro, de Richard Wagner e sua Cavalgada das Valquírias (1856), acompanhamento de uma das mais famosas cenas de bombardeio do Cinema, aliás, as cenas de batalha primam pelo realismo e elaboração, não é à toa que Coppola teve enormes dificuldades ao gravar o filme, com direito a furacão destruindo o set de filmagens, enfarte do ator principal, e ataque de estrelismos de Brando. O que levaria apenas 6 semanas, arrastou-se por 16 meses (como revela o excelente documentário O Apocalipse de um Cineasta (1991), de Eleanor Coppola, esposa do cineasta), mas o resultado é tecnicamente impecável, sendo sido indicado a 7 Oscars, incluindo Melhor Coadjuvante (Duvall) e Melhor Filme – mas levou apenas dois (Fotografia e Som). Em compensação, foi vencedor da Palma de Ouro de Cannes-1979.

Por se tratar de um libelo antiguerra poderoso, ter atuações magníficas, uma direção de excelência, além de algumas das cenas de guerra mais chocantes já filmadas, Apocalypse Now merece figurar na sua lista de filmes a assistir antes de morrer. É Cinema para apreciar, e, sobretudo, refletir. Afinal, o que é preciso acontecer para um homem deixar de ser humano e são?

7 CURIOSIDADES SOBRE APOCALYPSE NOW

1- Francis Ford Coppola propôs realizá-lo dez anos antes do livro realmente ter sido transposto para o cinema. Na época o estúdio procurado não aceitou a proposta, pois achava que Coppola não tinha condições de comandar uma grande produção. Porém, após os lançamentos dos dois primeiros episódios da saga O Poderoso Chefão, em 1972 e 1974, finalmente conseguiu levar às telas a obra de Joseph Conrad;

2 – As negociações para ter Marlon Brando foram bastante complicadas. Tendo recebido antecipadamente US$ 1 milhão, Brando ameaçou abandonar o projeto ainda antes das filmagens começarem. Coppola, por sua vez, respondeu que não se importava com a ausência de Brando e que se ele realmente abandonasse o papel iria convidar Jack Nicholson, Robert Redford ou Al Pacino para o papel. Brando naquele momento estava gordo, andava frequentemente bêbado e admitiu que não havia lido nem o roteiro e nem o livro em que o filme se baseava. Mesmo depois de ler o roteiro, ainda se recusou. Após dias de conversas, concordou em atuar com uma condição: de que ele aparecesse sempre nas sombras, para que o público não notasse que ele estava 40 quilos acima do seu peso normal;

3 – O nome do personagem de Martin Sheen foi criado a partir de uma combinação dos nomes dos dois filhos mais velhos de Harrison Ford, Benjamin e Willard;

4 – Originalmente seria de Harvey Keitel o papel do Capitão Benjamin Willard. Faltando apenas duas semanas para o início das filmagens, Coppola resolveu optar por Martin Sheen;

5 – Para conseguir o papel, o ator Laurence Fishburne mentiu sobre sua idade quando a produção de teve início, em 1976. Na época ele tinha 14 anos;

6 – Jim Morrison (1943-71), vocalista do The Doors, estudou com Coppola na faculdade de cinema da UCLA. Coppola prestou-lhe uma homenagem inserindo a música ‘The End’, na trilha sonora. Além de encaixar-se no contexto do filme, a música fez a banda ser conhecida por uma nova geração de fãs;

7 – Por fim, Coppola ameaçou por diversas vezes se suicidar durante as filmagens.

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APOCALYPSE NOW
EUA, 1979
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola, John Milius
Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Laurence Fishburne, Federic Forrest, Dennis Hopper
Produção: Francis Ford Coppola
Fotografia: Vitorio Storaro
Montagem: Gerald B. Greenberg e Walter Murch
Trilha Sonora: Francis Ford Coppola
153 minutos
16 anos
Zoetrope Studios

Confira o trailer de Apocalypse Now com The End:

 

 

RELICÁRIO DO CINEMA #2 – Scarface (1983)

Subvertendo a lógica comum, de onde se extrai que todo remake é potencialmente um filme ruim, Scarface, de Brian DePalma, é um intrigante e complexo estudo de personagens mais perversos do gangsterismo e tem de Al Pacino uma das maiores performances masculinas da história do Cinema

kinopoisk.ru

Al Pacino em SCARFACE (1983): no âmago do verdadeiro tour de force entre ator e personagem

Scarface pode ser tratado como um conto de fadas, daqueles que a Disney gosta de contar. Mas esqueça as princesinhas de tez clara, pois o protagonista é um imigrante cubano. Esqueça também as músicas melosas, a única melodia que ressoa aqui é uma infinidade de “fuck’s” nas mais diversas modalidades. E o pó que sai das asinhas das fadas? Tony Montana cheira tudo. Podemos extrair até uma lição moral no fim da película, mas não cabe a mim soltar esse spoiler, certo?

Com direção de Brian de Palma, e o robusto roteiro de Oliver Stone, Scarface é uma daquelas raríssimas exceções no mundo cinematográfico, no qual geralmente remakes são sinônimo de bomba em formato de filme, mas esse com certeza não é o caso. Para quem não sabe, o original é um filme de 1932, que no Brasil recebeu o título de Scarface – a Vergonha de uma Nação , com direção de Howard Hawks, com Paul Muni (observe a mania das distribuidoras brasileiras subtítular desde então), e conta a história de Tony Camonte, um bandido pé-rapado que ascende meteoricamente no submundo criminoso de Chicago. Cinquenta anos depois, a história é recontada, mas dessa vez o cenário é a ensolarada Miami, e o protagonista já não é mais ítalo-americano, e sim um bandido cubano deportado, em uma manobra (fictícia) de Fidel Castro para limpar as prisões da ilha.

Muito do realismo e da crueza da história se deve ao roteiro de Stone, que na época que escrevia o texto, passava por problemas com o seu vício em cocaína e, como r4esultado, o que podemos notar é um verdadeiro exorcismo do vício em forma de script. A trama começa com um ritmo lento, mas a captura do espectador é quase imediata, segue em um crescendo até o clímax, onde nos deparamos com a cena onde Montana solta uma das mais icônicas frases do Cinema. Sim, ela mesma: “Say hello to my little friend!!“. A amiguinha de Tony é uma metralhadora M-16 com lançador de granada, um mimo, digna dos sonhos de ambição do imigrante cubano. O único ponto que me desagrada um pouco em tudo isso é a trilha sonora, que não é uma das mais inspiradas de Giorgio Moroder, mas mesmo assim casa com a cafonice que os anos 80 exalam (destaque para o carro do personagem principal e o seu estofado de oncinha).

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“I’am Tony Montana! You Fuck With Me! Fuckin With The Best! “: Scarface se apresenta dando uma aula de sintaxe

Al Pacino merece uma análise à parte no filme. É impressionante a construção e a verossimilhança de seu Tony é algo incrível e extremamente satisfatório para quem é fã de Cinema, todos os seus maneirismos e palavrões, casam bem com aquilo que se imagina de um bandido latino, cheio de bravatas e temperamental até os ossos, além da cena final bad-ass, destaca-se a cena do restaurante, onde o seu inflamado discurso aos presentes, mostra o quanto Pacino desempenhou bem a complexidade do personagem. Outra que demonstra um grande trabalho é Michelle Pfeiffer, sua Elvira Hancock não se configura apenas como mero objeto de desejo, e sim como uma pessoa atraída pelo turbilhão que a egotrip de seu marido acaba se tornando, e atriz é competente em estabelecer essa relação explosiva com o personagem de Pacino.

Por conter uma das melhores atuações da carreira de um monstro do cinema, por fornecer para a posteridade uma das “catchphrases” mais homenageadas de sempre, e por estar dentre os melhores filmes de Máfia já realizados, Scarface é um clássico indiscutível, e só não digo obrigatório porque tudo feito por obrigação acaba se tornando uma chatice. Certeza que Tony Montana concordaria comigo.

7 curiosidades sobre Scarface:

1- A história inicialmente, deveria ser mais fiel ao original, mas os custos de produção, obrigaram as mudanças nas filmagens, que passou de Chicago para Miami e uma parte foi feita em Los Angeles; enquanto a comunidade cubana via com maus olhos a história de um cubano delinquente;

2 – Oliver Stone se aproveitou de sua experiência de viciado para escrever o roteiro, chegou a conviver com barões do tráfico na Flórida e foi ameaçado de morte ao falar de sua amizade com um jornalista desafeto dos traficantes;

3 – Al Pacino considera Tony Montana o melhor papel de sua carreira. Após as filmagens o ator parabenizou Stone por conseguir criar um personagem tão complexo e humano;

4- Robert de Niro e Bruce Willis foram cogitados para o papel- título, enquanto John Travolta deveria ter sido o melhor amigo de Montana, Manny;

5 – O papel de Elvira Hancock foi um dos mais disputados de que se tem notícia na história da Sétima Arte. As seguintes atrizes foram cogitadas, ou fizeram teste para ser o interesse amoroso do traficante: Rosana Arquette, Jodie Foster, Kim Basinger, Melanie Griffith, Brooke Shields, Jennifer Jason Leigh, Bridget Fonda, Geena Davis, Kathleen Turner, Sygourney Weaver, Carrie Fisher, Nancy Ellen, Sharon Stone, Glen Close e Kelly McGillis;

6- Ao todo, são desferidos 226 “fuck’s” durante os seus 170 minutos, cerca de 1,36 por minuto – só o protagonista fala 182 vezes (A banda Blink 182 tirou seu nome desse fato);

7 – Saddam Hussein era tão fã do filme, que sua firma de importações foi batizada como Montana Inc.

FICHA TÉCNICA

 

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EUA, 1983
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Oliver Stone
Elenco: Al Pacino, Michele Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Mirian Colon, F. Murray Abraham e Paul Shenar
Produção: Martin Bregman
Fotografia: John A. Alonzo
Montagem: Gerald B. Greenberg e David Ra
Trilha Sonora: Giorgio Moroder
170 minutos
18 anos
Universal

Confira o trailer de Scarface.

 

 

RELICÁRIO DO CINEMA #1 – O SILÊNCIO DOS INOCENTES, 26 ANOS

   Um dos maiores suspenses de todos os tempos,  O Silêncio dos Inocentes completa 26 anos no próximo mês, com o mesmo vigor e qualidade da sua estreia. E merece ser revisitado na estréia da nova coluna do Cinema e Artes. Peguei emprestado esse espaço do Otávio, mas na semana que vem já estou com a minha própria assinatura! Até lá! 

the-silence-of-the-lambsTexto por: Robson Nascimento

Alguns personagens se tornam maiores do que os filmes no qual estão inseridos, Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão, Darth Vader em Star Wars e o Coringa de O Cavaleiro das Trevas são bons exemplos daquelas figuras que marcam tanto uma obra, que mesmo até quem não vê esses filmes, já se deparou com as suas imagens pelo menos um par de vezes. O Doutor Hannibal Lecter, criação do escritor Thomas Harris, transposto para as telas no filme de Jonathan Demme, e interpretado de maneira impressionante por Anthony Hopkins, é um desses personagens icônicos, sem a menor dúvida. E embora o personagem tenha sido interpretado por Brian Cox no ótimo Caçador de Assassinos de 1986, e posteriormente na série Hannibal, por Mads Mikkelsen, é a imagem de Hopkins a mais associada com o famigerado vilão.

Baseado no romance de mesmo nome, lançado três anos antes, o filme de 1991 talvez seja o suspense mais aclamado de todos os tempos, A trama acompanha um serial killer que captura e mata as suas vítimas, retirando-lhe partes das peles, com o intuito de entender os mecanismos de uma mente tão doentia, o chefe do FBI Jack Crawford (Scott Glen), ordena que a recruta Clarice Starling(Jodie Foster) sonde um infame psicopata canibal preso em uma instituição psiquiátrica, o supracitado Doutor Lecter. Dessa maneira, Clarice conversa com Hannibal, de modo a traçar um perfil de Buffalo Bill, o tal escalpelador de mulheres.

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A  atuação de Hopkins é icônica de tal modo que os duelos psicológicos travados com a personagem de Jodie Foster são os pontos altos da trama. Hannibal é persuasivo, charmoso, culto, em suma, perigoso demais, e mesmo encarcerado, exala uma influência malévola aos seus interlocutores. O ator consegue transparecer tudo isso, com um olhar magnético (É raro ele piscar em cena),  e uma voz mansa (Hopkins diz ter se baseado no robô HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço), em suma, o perfeito verniz de cavalheiro sofisticado que na verdade esconde um monstro sanguinário.

A estatueta dourada de Melhor Ator foi mais do que merecida para Anthony, mesmo que ele permaneça por apenas incríveis quinze minutos em cena. Jodie se mostra competente no papel da policial novata, e as suas sequências de ação, incluindo aqui o final de tirar o fôlego, é que dão o dinamismo do filme em termos de narrativa. Ambos formam o par perfeito a policial e o assassino; Clarice serve de contraponto à figura vilanesca e ardilosa de Hannibal, de modo que não é exagero afirmar que as ovelhas mencionadas no titulo original, sejam a própria Clarice.

Para medir o impacto do filme, “O Silêncio…” é um dos três filmes da história a ganhar as cinco principais categorias do Oscar aos quais concorria (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado), um feito e tanto, já que o estilo da película não é o dos mais premiados historicamente na trajetória do Oscar. Vale também ressaltar que o filme estreou em fevereiro de 1991, longe da temporada de premiações.

Por ser um dos maiores suspenses já filmados desde sempre, contar com um brilhante Anthony Hopkins no auge da forma, e declamando diálogos impagáveis de tão bons, além de te manter preso à tela nas suas quase duas horas de duração, e de quebra, ser uma das obras mais aclamadas no que diz respeito a maior premiação do Cinema, “O Silêncio dos Inocentes” é um filme atemporal, que mostra que o medo, quando bem explorado no Cinema, torna as histórias à prova do tempo.

CINCO CURIOSIDADES SOBRE O SILÊNCIO DOS INOCENTES
1. Consagrado como um dos mais importantes filmes do cinema da década de 1990, O silêncio dos inocentes foi a terceira obra a vencer as cinco principais categorias do Oscar. Os outros dois filmes que conseguiram esse feito foram Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra (1934) e Um Estranho no Ninho, de Milos Forman (1975).
2. Os atores John Hurt, Louis Gossett Jr., Robert Duvall, Jack Nicholson e Robert De Niro foram considerados para o papel de “Hannibal Lecter”.
3. O papel de “Clarice Starling” foi primeiramente oferecido para Michelle Pfeiffer e depois para Meg Ryan.
4. Anthony Hopkins descreveu sua voz no papel de “Hannibal Lecter”, como uma combinação de Truman Capote e Katharine Hepburn.
5. Na borboleta que esconde a boca de Jodie Foster no pôster podemos ver uma caveira. Se olharmos com atenção podemos constatar que se trata de uma caveira com mulheres nuas. Essa imagem, datada de 1939, é da autoria do pintor surrealista Salvador Dalí.
 
FICHA TÉCNICA

Direção:Jonathan Demme
Elenco:Jodie Foster , Anthony Hopkins , Ted Levine , Scott Glenn.
Roteiro:Ted Tally
Produção:Kenneth Utt
Fotografia:Tak Fujimoto
Música:Howard Shore

 

 

TRABALHO INTERNO – CURTA ANIMADO DIRIGIDO POR UM BRASILEIRO

Exibido antes de Moana – Um Mar de Aventuras, de Ron Clements, John Musker, Don Hall e Chris Williams, o curta Trabalho Interno (Inner Workings, 2016) de Leonardo Matsuda, diretor brasileiro que apresenta uma cativante e hilária história de um homem guiado pelos seus órgãos internos: cérebro, coração, pulmões, intestino e bexiga, remetendo claramente a Divertidamente (Inside Out, 2015) de Pete Docter, só que agora não são as emoções que estão guiando a pessoa, sendo uma curiosa exploração do corpo humano. Os traços do personagem principal remete a Carl Fredricksen, o velhinho de UpAltas Aventuras (Up, 2009) de  Pete Docter e Bob Peterson

Cena de TRABALHO INTERNO (Inner Workings, 2016) de Leonardo Matsuda

Cena de TRABALHO INTERNO (2016), de Leonardo Matsuda

A animação mostra a rotina de Paul, um sujeito tímido e solitário que vive uma luta constante entre seu lado lógico e pragmático e sua outra metade aventureira e livre. Insatisfeito com o seu trabalho, seus órgãos internos fazem com que ele ganhe coragem para seguir seus sonhos. É o eterno conflito entre cérebro e coração, aqui explorado com muito bom humor. Destaque para as constantes cenas do cemitério… Vale à pena, especialmente para os adultos.

Cena de TRABALHO INTERNO (Inner Workings, 2016) de Leonardo Matsuda

Cena de TRABALHO INTERNO (Inner Workings, 2016) de Leonardo Matsuda

O diretor estrante atua no departamento de histórias da Walt Disney Animation Studios e tem nos créditos o storyboard de ZootopiaOperação Big Hero e Detona Ralph. Antes, Matsuda trabalhou no departamento de layout de personagens em Os Simpsons – O Filme, na 20th Century Fox, e como storyboard artist júnior em Rio, na BlueSky Studios, além de ter sido estagiário de storyboard na Pixar Animation Studios.

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Trabalho Interno
Lançamento: 05/01/2017
Gênero: Animação, Comédia
Duração: 6 min
Origem: Estados Unidos
Ano: 2017
Direção:
 Leonardo Matsuda
Roteiro: Leonardo Matsuda
Distribuidor: Walt Disney
Classificação: Livre
Ano: 2017


Confira o trailer de Trabalho Interno:

MOANA – UM MAR DE AVENTURAS – CORAJOSA ANIMAÇÃO PARA TODAS AS IDADES

Nova animação da Disney, Moana – Um Mar de Aventuras, de Ron Clements, John Musker, Don Hall e Chris Williams., apresenta uma mensagem de coragem para adultos e crianças.  John Musker e Ron Clements foram também responsáveis por outras animações de sucesso, como A Pequena SereiaAladdin e A Princesa e o Sapo 

Cena de MOANA - UM MAR DE AVENTURAS

Cena de MOANA – UM MAR DE AVENTURAS (2016): um sucesso

 A produção traz para as telonas a história de uma adolescente polinésia de 16 anos chamada Moana Waialiki (voz de Auli’i Cravalho na versão original) que se aventura pelo Oceano Pacífico para desvendar o mistério que envolve seus ancestrais. Durante esta grande aventura, ela encontra o poderoso semideus Maui (voz de Dwayne Johnson na versão original) e, juntos, eles embarcam em uma viagem cheia de ação, enfrentando criaturas inusitadas, algumas até ferozes, oferecendo muita diversão. 

Essa corajosa garota, filha do chefe de uma tribo na Oceania, vinda de uma longa linhagem de navegadores, tem o ímpeto de navegar. Com o intuito de descobrir mais sobre seu passado e ajudar a família ela resolve partir em busca de seus ancestrais, habitantes de uma ilha mítica que ninguém sabe onde é. Moana em sua jornada em mar aberto, enfrenta terríveis criaturas marinhas e descobre histórias do submundo. Causa preocupação apenas o fato do filme incentivar os filhos a desafiarem seus pais na busca de seu lugar no mundo – mas é exatamente isso que todo adolescente faz.

Apesar de Lilo & Stitch (2002) se passar na polinésia, trata-se da.primeira princesa polinésia da Disney, e a primeira navegadora do estúdio. É o segundo filme de princesa da Disney que não é centrado em um conto de fadas. O primeiro foi Valente (2012)

Destaque para a excelente trilha sonora composta por Mark Mancina, que também trabalhou em outras animações Disney, incluindo O Rei LeãoTarzan e Irmão Urso.

FICHA TÉCNICA

MOANA-–-UM-MAR-DE-AVENTURAS-1 (1)Moana – Um Mar de Aventuras
Lançamento: 05/01/2017
Gênero: Animação, Comédia
Duração: 107 min
Origem: Estados Unidos
Ano: 2017
Direção: Ron Clements, John Musker, Don Hall e Chris Williams
Roteiro: Ron Clements, John Musker, Taika Waititi
Distribuidor: Walt Disney Pictures
Classificação: Livre

 


Confira o trailer de Moana – um Amor de Aventuras.

 

ASSASSINS’S CREED – FRACA ADAPTAÇÃO DA SÉRIE DE GAMES

Primeiro blockbuster de 2017 nos cinemas, a adaptação da série de games Assassin’s Creed, coprodução entre Reino Unido, França, Hong Kong e EUA, de Justin Kurzel, não empolga, desperdiçando todo o potencial da história e, com isso, acaba não agradando cinéfilos nem os fãs dos jogos da Ubisoft

Michael Fassbender em Assassin's Creed (Reino Unido/França/Hong Kong/EUA, 2016), de Justin Kurzel

Michael Fassbender em ASSASSIN’S CREED (2016), de Justin Kurzel: sem empolgar

O enredo: em 1986, um garoto que gosta de aventuras testemunha o pai assassinando sua própria mãe. Com traumas da infância, o garoto Callum Lynch (Michael Fassbender), é mostrado 30 anos depois, preso e desenhando imagens assustadoras, até receber a visita de um padre, em função de sua condenação a morte. Ele acorda no dia seguinte diante de Sofia (Marion Cotillard), que lhe propõe uma nova alternativa de vida, a qual, por meio de uma tecnologia revolucionária que destrava as suas memórias genéticas, e permitirá experimentar as aventuras de seu ancestral, Aguilar, na Espanha do século XV.

Então, a história passa a ter dois ambientes: um com poucas cenas de ação e tomadas bem interessantes, parecendo um game; e outro de enrolação e embromação que não levam a nada, tratando de fazer Callum finalmente entender que é descendente de uma misteriosa sociedade secreta, os Assassinos, e que acumula conhecimentos e habilidades incríveis para enfrentar a organização opressiva e poderosa dos Templários nos dias de hoje, a qual busca pela Maçã do Edén, um artefato que, se encontrado, poderia acabar com a violência em virtude de por fim à possibilidade do livre arbítrio.

Arianne Labed e Michael Fassbender em ASSASSIN'S CREED (2016); assassinos x templários

Ariane Labed e Michael Fassbender em ASSASSIN’S CREED (2016); assassinos x templários

A exploração desse tema, o livre arbítrio, não é adequada ao que o filme se propõe. O foco deveria se ater apenas a oferta do entretenimento, mas não, ao buscar filosofar, perde tanto tempo em questões que não são devidamente esclarecidas, pois é questionável se o fim do livre arbítrio em si, garantiria a extinção de um problema chamado a violência, como o filme propõe. E tem outra “furada”: um filme violento criticar indiretamente a violência é fazer pouco caso de sua própria objetividade. Isso é querer ser mais do que é de fato. E esse dilema é levado ao personagem principal, que de início volta aos ancestrais por obrigação e e o faz refletir se deve decidir, por convicção, se assumir a herança genética de assassino.

O roteiro não é bem resolvido, especialmente ao não tratar os Assassinos como heróis, e os Templários como vilões, uma vez que as ideologias de ambos não podem ser claramente chamadas de certas ou erradas. A montagem também compromete um pouco, pois a mudança de ambiente é facilmente percebida e o timing não está adequado… O correto seria, possivelmente, que mergulhasse no jogo em si e só sair de lá quando finalizasse a missão e não ficar passando de fase em fase… Méritos apenas pros quesitos técnicos do filme, especialmente as cenas de ação, as quais Kurzel já tinha demonstrado excelência em Macbeth: Ambição e Guerra (2015).

Nem a vontade de conhecer o jogo o filme me despertou…

 

assassinssFICHA TÉCNICA
Assassin’s Creed
Lançamento: 12/01/2017
Gênero: Aventura/Ação/Ficção Científica/História
Duração: 115 minutos
Origem: Estados Unidos/Reino Unido/França/Hong Kong
Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Michael Lesslie
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons, Brendan Gleeson, Charlotte Rampling, Michael Kenneth Williams e Ariane Labed
Distribuidor: Fox Film do Brasil
Classificação: 12 anos
Ano: 2016

Acompanhe o trailer de Assassin’s Creed:

 

Aquarius: vi e gostei – mas não muito

Sônia Braga em AQUARIUS (BRA/FRA, 2016), de Kleber Mendonça Filho: a persistência da memória contra a pressão da grana

Sônia Braga em AQUARIUS (BRA/FRA, 2016), de Kleber Mendonça Filho: a persistência da memória contra a pressão da grana

Noite de quinta-feira, sessão quase vazia. Foi assim que finalmente consegui assistir Aquarius (BRA/FRA, 2016), o já histórico filme dirigido por Kleber Mendonça Filho. As expectativas, claro, eram grandes. Pelo menos desde o corajoso protesto de Kleber e das estrelas do longa durante a sua exibição no Festival em Cannes, semanas após a aprovação do questionável impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. A atitude do diretor de O Som ao Redor (BRA, 2013) despertou não apenas um justificável interesse pelo seu novo trabalho, mas agregou ao seu redor aqueles que não engoliram o processo de ruptura democrática aberto e conduzido por um réu denunciado ao Supremo Tribunal Federal. Some-se a isso declarações infelizes como a do articulista da Veja, Reinaldo Azevedo (“Assim que Aquarius estrear no Brasil é dever das pessoas de bem é boicotá-lo”.) e fica fácil entender como a assistência à segunda película de Kleber Mendonça revestiu-se de um gesto de resistência política. Especialmente porque Aquarius estreou comercialmente logo após a confirmação, pelo Senado, do impedimento da ex-presidenta Dilma.

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ÁGUAS RASAS – suspense eficiente sobre o embate racionalidade x instinto

Em junho do ano passado Tubarão, de Steven Spielberg, comemorou 40 anos. Ao longo desse tempo, sob a má fama de assassinos dos mares, os tubarões invadiram os cinemas sob os mais variados pretextos, entre eles a experiência genética. Mas, a luta entre os humanos e os esqualos, em geral, tem sido explorada na diferença do racionalismo contra o instinto. Neste quesito, Águas Rasas, de Jaume-Collet Serra é exemplar

Blake Lively em ÁGUAS RASAS (2016), de Jamue Collet-Serra: revitalizando a temática do tubarão assassino

Blake Lively em ÁGUAS RASAS (2016), de Jamue Collet-Serra: revitalizando a temática do tubarão assassino

Segundo pesquisas, cerca de 30 filmes sobre tubarões caçando humanos foram feitos ao longo de 41 anos. Até o cinema brasileiro investiu no tema com o seu Bacalhau (1975, de Adriano Stewart), mas foi o cinema italiano que conseguiu produzir os piores dos piores. Curiosamente, salvo pelo ótimo Mar Aberto (Open Water, EUA, 2004), de Alejandro Amenabar, que não é diretamente um filme sobre tubarões, e Terror na Água (2010, de David R. Ellis, uma modesta e curiosa produção “B” que investe no suspense, nada de mais eficiente foi produzido desse período – a menos que eu esteja enganado.

Pode-se, no entanto, destacar o inesperado sucesso e críticas positivas de Sharknado(2013), telefilme de Anthony C. Ferrante produzido pelo canal Syfy, que chegou aos cinemas e se tornou uma obra cultuada em todo o mundo, um fenômeno por simplesmente tratar os tubarões em tom de paródia – saborosíssima e irreverente, por sinal – que se desdobrou em 3 outras produções. Sharknado deu origem a uma série de outras produções assumidamente “trash” com os seus títulos estapafúrdios – Tubarão da Areia (2011), Shaktopus Contra Pteracuda (2013), Mega Shark contra Mecha Shark (2014), entre outros -, o que levou a uma revitalização do gênero.

Águas Rasas (The Shallows, EUA, 2016), em cartaz nos cinemas, pode ganha destaque como uma produção independente, modesta com o seu orçamento de US$ 17 milhões e que obteve uma arrecadação doméstica de US$ 54,2 milhões, suficiente para cobrir o seu custo de produção e obter lucro com a arrecadação internacional, já estimado em quase US$ 20 milhões.

Os créditos de Águas Rasas passam, obrigatoriamente, pelo roteiro escrito por Anthony Jaswinski – que figurou na lista dos melhores roteiros e os melhores roteiros de terror não filmados –  e a direção eficiente de Jaume Coillet-Serra. Jaswinski é o autor de Backwoods (2008, thriller de TV) e o curiosíssimo O Mistério da Rua 7 (Vanishing on 7th Street, 2010), de Brad Anderson, e Kristy (2014), de Oliver Blackburn.  O espanhol Serra tem feito bons trabalhos em Hollywood como A Casa de Cera (2005), A Órfã (2009), Desconhecido (2011), Sem Escalas (2014) e Noite Sem Fim (2015).

Jaume Collet-Serra e Anthony Jarwinski

Jaume Collet-Serra e Anthony Jarwinski

Águas Rasas é uma surpresa com a sua história modesta, extremamente concisa (tem apenas 84 minutos) e que manipula com eficiência o suspense estabelecido no drama da surfista Nancy (Blake Lively), isolada em um banco de areia e posteriormente numa boia náutica e ameaçada por um gigantesco tubarão branco, o qual demarca a área como sua. Reside nas estratégias de ambos, de pegar a presa e de fugir dela, o cerne do filme.

Outros aspectos se ressaltam, como a dimensão de espaço, estabelecido no “tão longe tão perto”, a distância entre Nancy e a praia, impossível de ser percorrida por ela, mas ideal para o tubarão; e a solidão da personagem, isolada, mas estimulada pela companhia de um pássaro que simboliza a esperança.

Outras qualidades consistem na consistência dramática de um tipo de filme que tem apenas uma solitária personagem em cena. Curiosamente esse tipo de cinema vem sendo explorado em enredos criativos sob os mais diversos gêneros. Como referência, podemos estabelece-lo a partir de Tom Hanks perdido numa ilha deserta em Náufrago (Castaway, 2000), de Robert Zemeckis, passando por 127 Horas (127 Hours, 2010), de Danny Boyle, com James Franco; Contagem Regressiva (Hours, 2013), de Eric Hesserer. com Paul Walker; e o maior de todos, Gravidade (Gravity, 2013), de Alfonso Cuaron, com Sandra Bullcok. Em Águas Rasas, Blake Lively está solitária em cena em cerca de 85% do filme.

Blake Lively em ÁGUAS RASAS: solitária em 85% de duração do filme

Blake Lively em ÁGUAS RASAS: solitária em 85% de duração do filme

A narrativa tem outros 4 personagens secundários (um deles visto via celular), mas fundamentais encaixar os elementos e informações que constroem o enredo e que aos poucos saem de cena para dar lugar a um ápice dramático (o ataque do tubarão aos surfistas), a partir do qual o suspense desenvolve-se em crescendo, expressando a ferocidade do esqualo, que também parece ser dotado de alguma inteligência mas na verdade é puro instinto, e as táticas racionais de Nancy para superá-lo. Neste aspecto, é insinuante a solidão da personagem e o suspense construído paralelamente à ameaçadora figura do tubarão branco – o célebre embate da natureza humana e sua racionalidade frente ao instinto animal.

Blake Lively, conhecida a partir da telesérie Gossip Girl (2007-2012) tem uma atuação elogiável no papel da inteligente Nancy, a qual é desenvolvida com dramas familiares (a perda da mãe), rasos, mas que dão sentido ao seu isolamento em uma praia deserta. Informe-se que Blake teve uma “dublê de corpo”, a australiana Sarah Friend, estudante universitária estadunidense de 22 anos; e é casada com o ator Ryan Reynolds, o Deadpool (2016).

Blake Lively e Sarah Friend, a dublê de corpo

Blake Lively e Sarah Friend, a dublê de corpo

Saiba mais sobre Blake Lively, aqui

Águas Rasas é outro filme a investir em uma mulher como principal personagem. A Nancy de Blake Lively é insinuante, inteligente, ousada. É com esses ingredientes e dispositivos que a personagem utiliza para vencer a natureza hostil – simbolizando a beleza e a determinação da mulher . Vale a pena conferir.

ÁGUAS RASAS (The Shallows, EUA, 2016), de Jaume Collet-Serra. Com Blake Lively, Óscar Jaenada e Sedona Legge. Drama/suspense. 86 minutos. 12 anos.

Veja o trailer.

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