BELCHIOR: o adeus ao poeta recluso

Há anos recluso, o cantor, compositor e poeta sobralense morreu dormindo, aos 70 anos, numa pequena cidade do interior gaúcho. Deixa como legado uma obra referencial e uma biografia marcada pelo desprendimento que fê-lo largar a carreira, há mais de dez anos, apesar das insistentes ofertas para voltar aos palcos. O corpo de Belchior está sendo velado no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura e será sepultado em Fortaleza

O cantor, compositor, poeta e pintor Belchior faleceu neste domingo. Foto: reprodução.

O cantor, compositor, poeta e pintor Belchior faleceu neste domingo. Imagem: reprodução.

Há pouco mais de uma semana, quando o cantor Jerry Adriani se foi, quedei-me a pensar que sua geração artística, a (não mais tanto) jovem guarda, estava começando a se despedir. Exageros com pinta de falsa nostalgia, prepotência histórica evidente. A bem da verdade, a – tá bom – jovem guarda já se foi há muito tempo, e seus sobreviventes, vez por outra, precisam morrer para provar que ainda estão vivos.

Isto porque, infelizmente, neste país de memória curta, muitos e muitos artistas são descartados pelo afã de “novidade”, nem sempre tão nova assim, hoje muito menos. Parafraseando Belchior, morto neste domingo, aos 70 anos, no interior do Rio Grande do Sul, [na verdade] quem nos dá a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus e contando seus metais.

Esta clarividência e o espírito desprendido, um tanto anárquico, devem ter inspirado o cantor, compositor, poeta e pintor cearense a largar a carreira, em 2005, logo após se conhecer Edna Prometheu, sua última esposa. Desde então, os mitos em torno da sua aparente “loucura” se tornaram maiores do que a sua obra. Uma evidente injustiça, porém compreensível, num país que hoje é pautado pelo Big Brother e por seriados da Netflix.

Filho de um pequeno comerciante, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nasceu na semiárida Sobral, no sertão cearense. Estudou música, filosofia e medicina, que largou no quarto ano. O espírito errante fê-lo acompanhar um grupo de artistas que se consagraria como o “pessoal do Ceará”, em meados da década de 1970. Culto, ganharia destaque como letrista, ao lado de parceiros como Fagner e Fausto Nilo.

Com Alucinação, em 1976, conquistaria projeção nacional. Best seller para os padrões da indústria fonográfica brasileira da época, com 30 mil cópias vendidas em três semanas, o disco conta com sucessos como Apenas um Rapaz Latino-Americano e Como Nossos Pais, imortalizada na versão gravada por Elis Regina. Uma obra-prima referencial de um período de desbunde e desespero, no auge da ditadura civil-militar brasileira.

Embora nunca tenha feito parte da elite da música popular brasileira, Belchior inspirava profundo respeito nos seus pares. É só ler o noticiário acerca da sua morte. Há uma espécie de unanimidade em torno deste artista enigmático, que chegou a receber uma proposta milionária (e desrespeitosa) de uma montadora para estrelar um comercial, além de ofertas de empresários para que voltasse aos palcos, com dívidas quitadas – tudo em vão. Sua recusa quase franciscana de desfrutar dos bens que sua arte lhe proveu, sua determinação joãogilbertiana de se manter recluso, aumentaram ainda mais a idolatria em torno de si. Algo de que, certamente, Belchior não gostava.

Tais idiossincrasias também tornaram o artista numa figura querida e cultuada entre diferentes gerações. Seu público compreende de sessentões saudosistas à jovens com síndrome de nostalgia de tempos não vividos. Embora tenha gravado seu último álbum de inéditas em 1996, Belchior se revestiu daquela aura messiânica que apenas os loucos e os gênios parecem ter. Humilde, ele tinha consciência de que não era nada disso. Mas o público, este poço de carência referencial, queria que isto fosse verdade e esperava que ele, setentão e com saúde frágil, voltasse triunfalmente, qual um D. Sebastião, para nos redimir da mediocridade cultural.

Belchior, porém, queria mais era sumir, sem melancolia e nem estardalhaço. Fracassou, mas não por sua culpa. Embora estivesse abrigado numa casa simples, no interior do friorento Rio Grande do Sul, e seus vizinhos nem suspeitassem de que um homem famoso vivia ao seu lado, o bardo cearense não pôde refrear a força da comoção que se abateu com a sua morte, durante o sono, num cantinho da casa que não era sua, cercado de livros. Neste momento, está sendo velado, com toda pompa e circunstância, em Fortaleza, onde será sepultado. Milhares de curiosos terão a oportunidade de ver, com os próprios olhos, o cadáver do homem que, por muitos anos, foi dado como “desaparecido”. Um triste espetáculo, a título de homenagem.

Que lhe deixem em paz, tão logo o show em torno de si termine.

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