RELICÁRIO DO CINEMA #6 – FAÇA A COISA CERTA

Em tempos de Black Lives Matter e a afirmação do chamado Cinema Negro com a vitória de Moonlight no Oscar, o primeiro triunfo de Spike Lee é o filme em análise na volta da coluna que desnuda os clássicos no Cinema e Artes!

FAÇA A COISA CERTA (1989), De Spike Lee: Danny Aiello e o próprio diretor interpretam patrão e empregado.

Uma das cenas mais impactantes de Faça a Coisa Certa é, ao mesmo tempo, a mais realista e a mais fantasiosa. Numa sequência de cortes rápidos, representantes de várias etnias que moram nos EUA, olhando para a câmera e quebrando a quarta parede, disparam xingamentos e ofensas uns ao outros, usando dos estereótipos aos quais cada grupos sociais são conhecidos. Os insultos, estão lá, durante todo o filme, velados, e só saem diretamente nessa cena específica.

O diretor Spike Lee, 50, ficou mais marcado por essa obra revolucionária para depois praticamente sumir e, nos últimos anos, voltou à mídia por conta de suas declarações polêmicas, sobretudo quando do lançamento do filme Django Livre, de Quentin Tarantino (1963). Mas, antes de ser um polemista inveterado, o diretor e roteirista norte-americano produziu obras  dotadas de um alto teor de criticidade social, as quais se tornaram-se, ao mesmo tempo, documentos de uma época e, ainda agora, incomodamente atuais, em face da constante tensão racial que ainda perdura no seio da “América”.

É nesse sentido que se põe Faça a Coisa Certa é uma obra excepcional. Seu enredo decorre na temporalidade de um dia e no espaço geográfico de um quarteirão. Uma história aparentemente banal, mas que eu seu bojo tece um panorama ácido e contundente do que é a divisão racial, desembocando na desigualdade econômica e no racismo da sociedade estadunidense. O roteiro é mais um mosaico de personagens e situações do que propriamente uma linearidade de ações, e Spike se vale bastante da estética de videoclipes, o qual tomava conta do audiovisual em razão do sucesso da MTV no final dos anos 80 e início da década de 90.

Os diversos personagens, inclusos entre eles o próprio diretor (que interpreta o entregador de pizzas Mookie), dão vida a um roteiro aparentemente simples. Uma família de ítalo-americanos, composta por pai, Sal (Danny Aielo) e dois filhos (John Turturro e Richard Edson), possuem uma pizzaria, onde Mookie é o entregador. Um dos filhos, Pino, interpretado por Turturro, é extremamente racista, e por sua vontade, o pai teria o estabelecimento em outro bairro. O “ativista” Buggin Out (Giancarlo Esposito) percebe que na parede da pizzaria, chamada por Sal de “Hall of Fame”, não existe nenhuma celebridade negra e, revoltado, resolve organizar um boicote ao restaurante.

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FAÇA A COISA CERTA (1989), de Spike Lee: diretor e entregador de pizzas

Partindo desse pequeno incidente, o dia se segue no bairro de Bed-Stuy (o mesmo retratado na série Todo Mundo Odeia o Chris), que tem um dos maiores picos de temperatura já registrados em Nova York, o que só aumenta o aspecto tenso do contexto ao qual o filme insere o espectador. É latente que algo de muito grave acontecerá cedo ou tarde , o que de fato ocorre. O uso de personagens caricatos, aqui, se mostra necessário diante da necessidade de expor as veias do racismo institucionalizado, característico dos EUA (assim como do Brasil).

Os cortes rápidos e a edição frenética acentuam esse aspecto de constante tensão e cada personagem tem o seu momento em que são desnudadas as suas características e papeis dentro da trama. O fio condutor da narrativa é dado por um locutor/DJ, que ao colocar suas músicas para tocar na rádio comunitária, faz a transição de uma cena para outra – esse locutor é interpretado por um Samuel L. Jackson em início de carreira -, o que denota outra característica do longa, que traz jovens atores negros que viriam a fazer sucesso mais adiante, como Martin Lawrence, Giancarlo Esposito e o próprio Jackson.

O terceiro ato do filme, onde ocorre o conflito que traz em seu desfecho uma tragédia quase anunciada, é o cerne da crítica que Spike Lee tem para com o seu país: a violência, sobretudo a originada no racismo, precisa apenas de uma pequena fagulha que, ao entrar em contato com um pequeno rastilho de pólvora, ocasiona um grande incêndio – e a pizzaria do Sal é o alvo. É inegável a força da mensagem, que se consolida nos créditos finais, com duas falas, uma de Martin Luther King e outra de Malcolm X – uma contrária e outra justificadora da violência como forma de resistência à opressão.

Faça a Coisa Certa se torna perturbador por ainda ser bastante atual em seus posicionamentos ideológicos e críticos diante dos episódios de violência racial, sobretudo advindas das forças policiais contra os jovens negros. Em perdeu a acidez e a pertinência. É um clássico porque contém a característica essencial dos grandes ícones cinematográficos e está profundamente enraizada na sua época, mas ser temporalidade. Como diz o grande pensador, um verdadeiro filmaço.

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FAÇA A COISA CERTA
Do The Right Thing
Estados Unidos 1989
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee
Elenco:Danny Aiello, Giancarlo Esposito, John Savage, Ossie Davis, Paul Benjamin, Richard Edson, Ruby Dee, Samuel L. Jackson, Spike Lee
Produção: Spike Lee
Fotografia: Ernest R. Dickerson
Trilha Sonora: Bill Lee
120 minutos

 

PARA CHECAR

A cena dos créditos iniciais demonstra bem a estética de videoclipe e a introdução da obra bem poderia valer como vídeo da canção Fight The Power, do grupo de rap Public Enemy.

Imagem de Amostra do You Tube[/youtube]

 

RELICÁRIO DO CINEMA #5 – TRÊS HOMENS EM CONFLITO

O expoente máximo do subgênero western spaghetti, é o filme analisado nessa semana na coluna, saiba o porque de Três Homens em Conflito (1966), de Sérgio Leone, merecer a alcunha de clássico incontestável

3 HOMENS EM CONFLITO (1966), de Sérgio Leone: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach

3 HOMENS EM CONFLITO (1966), de Sérgio Leone: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach

Sérgio Leone (1929 – 1989) costumava dizer que Clint Eastwood tinha apenas duas expressões faciais: uma com, e outra sem chapéu. Uma certa injustiça com o mais famoso (ao lado de John Wayne) ator dos westerns e protagonista central da célebre Trilogia dos Dólares, que tem em Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966) o seu terceiro e último capítulo. Embora as três produções possam ser encaradas como histórias independentes, esse último ato das aventuras do personagem sem nome vivido por Clint, talvez seja o maior representante do chamado westerns spaghetti, produções que apesar do pano de fundo histórico calcado na história dos EUA, era produzido e dirigido quase em sua exclusividade por europeus, sobretudo os italianos como Leone.

A trama, como o próprio nome diz (embora os brasileiros sempre tendam a inventar moda), gira em torno de três foras-da-lei que ganham a vida no Velho Oeste de modos diversos, Blondie, o Bom (Eastwood) tem uma parceria com Tuco, o Feio (Eli Wallach, soberbo), e ganham dinheiro passando a perna em xerifes e moradores de pequenas cidades, com um golpe pra lá de engenhoso. Já Angel Eyes ( Lee Van Cleef), é um impiedoso assassino de aluguel, o típico vilão detestável e temido dos típicos filmes de faroeste.

Após o término da parceria entre o Loirinho e Tuco, e o descobrimento de um certo tesouro enterrado em um local distante, tem-se ali o início da disputa entre os três, que planejam passar a perna um no outro para a obtenção da fortuna, a qual se encontra enterrada em um cemitério. Some-se ao enredo, o fato da região ser palco da Guerra Civil Americana e obrigatória a passagem dos personagens principais pela zona de conflito, o que causará alguns dramas e cenas memoráveis ao longo da película.

Em entrevista, Clint Eastwood afirmava que os charutos eram horrorosos e de péssima qualidade

Em entrevista, Clint Eastwood afirmava que os charutos eram horrorosos e de péssima qualidade

Geralmente, os detratores do gênero western, falam do pouco apuro técnico das produções, ou da interpretação afetada e clichê dos atores, mas essas reclamações jamais podem ser feita aos filmes de Sérgio Leone – e sobretudo a este em análise -, já que os enquadramentos, tanto de cenas abertas (gravadas em Almería, na Espanha), quanto nos closes ( a famosa cena do “trielo”), oferecem uma criatividade de renovação completa de um gênero dado como morto. O que vemos é um cineasta que sabia o que estava fazendo – e muito bem feito -, por sinal.

E quanto às atuações, Clint, como sempre mostra um total conforto ao interpretar o herói durão e corajoso, e Lee Van Cleef realmente faz crer que o seu personagem é perigoso e cruel – e que não se deve mexer com ele -,  sob o risco de ir falar mais cedo com Deus ou o Diabo. Mas o destaque do filme, aquele que mais tempo passa na tela, e que rouba as cenas mesmo com os outros personagens principais é Eli Wallach e o seu Tuco trambiqueiro, simplesmente magistral, tanto nas cenas de ação, quanto nos alívios cômicos no decorrer da trama, sendo este considerado, para muitos de seus fãs, o seu grande papel da carreira.

Algumas cenas memoráveis da história da Sétima Arte estão em 3 Homens em Conflito. Mesmo quem nunca o assistiu deve ter visto ou ouvido  falar da famosa cena do duelo – ou “trielo” final -, na qual os três personagens título decidem a posse do tesouro; ou viu ou ouviu sobre algumas das inúmeras paródias ao longo desses quase cinquenta anos, ou mesmo a corrida no cemitério, protagonizada por Tuco, uma das mais belas cenas que tive o prazer de ver em um filme. Mas a história não teria o mesmo peso dramático sem a trilha do insuperável mestre Ennio Morricone, que tem aqui algumas das suas melhores composições, casando completamente com a história, e pontuando com extrema precisão os momentos-chave da trama.

Três homens em Conflito é um clássico incontestável do Cinema, tendo em vista que, mesmo ao reunir vários dos clichês dos filmes de caubói, revigora um gênero quase abandonado pelos estúdios de Hollywood e se impõe  em definitivo ao apresentar um novo estilo de abordagem das histórias de faroeste, mesmo que tenha um roteiro que do ponto de vista narrativo pareça simplório, mas que em compensação traz vários diálogos memoráveis. E, sem deixar de destacar, os momentos de silêncio, o filme expressa a tensão de situações e personagens, como a já comentada sequência de quase cinco minutos do confronto final, com os seus seguidos enquadramentos nos olhos e expressões dos personagens, elementos cinematográficos elevam as expectativas do espectador, até o clímax – a qual, claro, não irei contar -, pois o objetivo aqui e querer que quem não a viu, veja,a parte ou melhor ainda, assista ao filme inteiro.

A cena clássica do duelo em 3 HOMENS EM CONFLITO: renovação da concepção dos duelos no Cinema

A cena clássica do duelo em 3 HOMENS EM CONFLITO: renovação da concepção dos duelos no Cinema

Três Homens em Conflito é altamente recomendado para os fãs do gênero e dos grandes filmes de um modo geral. Mas, os que gostam do cinema como arte irão se apaixonar.

CINCO CURIOSIDADES SOBRE TRÊS HOMENS EM CONFLITO

1- Em Il Buono, il Brutto, il Cattivo (O bom, o Mau e o Feio), o “feio” (Eli Wallach) é o personagem que mais aparece, embora o “bom” (Eastwood”) seja considerado o astro;

2- Eli Wallach quase foi decapitado na cena em que cai do trem;

3- O esqueleto encontrado por Tuco no cemitério de Sad Hill, era verdadeiro. Uma atriz espanhola colocou em seu testamento que gostaria de atuar mesmo depois de morta;

4- Sergio Leone e Ennio Morricone,o gênio que compôs as musicas dos seus filmes e de vários outros, eram colegas de classe quando crianças;

5- A cena da corrida no cemitério, em seu começo traz um improviso inusitado: o cachorro que assusta Eli Wallach, foi colocado sem o conhecimento do ator, Leone disse que tomou tal decisão porque não queria que o momento tomasse uma desnecessária carga melodramática. Coisa de gênio.

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Il Buono, il Brutto, il Cativo
The Good, the Bad and the Ugly (título internacional)
Itália-Espanha, 1966
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Lone, Agenore Incrocci, Furio Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni
Elenco: Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee VanCleef, Mario Brega, Rada Rassimov e Aldo Giuffré
Produção: Alberto Grimaldi
Fotografia: Tonino Delli Colli
Trilha Sonora: Enio Morricone
161 minutos

Conheça ou reveja  a clássica cena do cemitério, embalada pela magistral trilha de Enio Morricone:

Imagem de Amostra do You Tube

 

RELICÁRIO DO CINEMA #4 – PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA

O filme que consolidou a carreira de Quentin Tarantino como expoente da nova geração de realizadores de Hollywood, Pulp Fiction é o analisado da semana na nova coluna sobre os clássicos da Sétima Arte

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PULP FICTION (1994) : Tarantino chegou com o pé na porta dos grandes estúdios

A nouvelle vague, movimento do cinema francês da década de 60, trouxe o conceito de “cinema de autor”, no qual a obra estaria repleta de características que imediatamente fariam referência ao diretor. Essas marcas registradas serviriam para identificar imediatamente um determinado autor pelos detalhes de seus filmes. Quentin Tarantino é tão fã da Nouvelle Vague, que sua produtora se chamava A Band Apart, uma homenagem ao filme do mestre francês Jean Luc Godard.

Pulp Fiction é impregnado daqueles detalhes que fazem os filmes de Tarantino serem marcantes e nele inseridos a ultra violência, o humor negro, a trilha sonora cuidadosamente escolhida, os diálogos banais, mas cuidadosamente lapidados e a maneira não linear de contar a história. É o cinema de Quentin, na melhor acepção da palavra. Some-se à essa mistura, um elenco estelar, e temos, em 1994, o filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes e, do Oscar, de Roteiro Original. Orçado em “apenas” oito milhões de dólares, o filme rendeu mais de US$ 200 milhões no mundo todo, caracterizando assim o sucesso de público e crítica. Uma observação: o título adveio das publicações em papel barato (pulp), que contam as peripécias de gângsteres, mulheres fatais e são permeadas de violência, condizendo exatamente com a temática do filme.

Temos no roteiros três histórias distintas que se entrecruzam em determinados momentos. Primeiro temos Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) e Vincent Vega ( John Travolta), dois funcionários do gângster Marsellus Wallace (Ving Rhames), que tem como missão buscarem uma mala com um misterioso e valioso conteúdo na casa de uns bandidos pé-rapados. Vale destacar aqui a química de cena entre Travolta e Jackson, ambos muito bem em seus papéis, seus desempenhos foram reconhecidos e assim indicados à várias premiações naquele ano (incluindo o Oscar).

Na segunda história, Vic tem que fazer companhia a mulher do seu chefe, Mia Wallace(Uma Thurman), durante uma noite, e assim a leva para sair, o que resulta em pelo menos duas cenas antológicas: a da dança ao som de Chuck Berry, e a da overdose, com a famigerada injeção de adrenalina. A terceira história é a de Butch, pugilista que tem como acordo com Marsellus para perder a sua luta e, ao invés disso, mata o adversário no ringue, o que vem obviamente, a causar problemas com o criminoso.

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PULP FICTION (1994) : Travolta rememora seus tempos de brilhantina e disco music

A história vai e volta no tempo, e. no entanto, isso em nenhum momento a deixa confusa, pelo contrário, dá um dinamismo narrativo, fazendo com que sempre esteja acontecendo algo interessante, ou sendo proferida uma frase marcante. As atuações dos elenco , excelentes – até mesmo Tarantino dá as caras no arco narrativo de Vic/Jules, destaque também para a hilariante participação de Harvey Keitel, e o seu “resolvedor de problemas”, Wolf. As músicas, como sempre, são um caso à parte, bem escolhidas. Temos Dick Dale ( e o empolgante tema inicial), Dusty Springfield, Chuck Berry e sua “You Never Can Tell” e Urge Overkill, com a bela “Girl You’ll Be a Woman Soon “

Por ter revitalizado a carreira de John Travolta – que andava no ostracismo -, alavancado as carreiras de Uma Thurman e Samuel L.Jackson, contar com um roteiro brilhante e atuações beirando à perfeição, Pulp Fiction merece figurar entre os clássicos do cinema. E mesmo passando-se quase vinte anos de seu lançamento ainda mantém o frescor intacto, simplesmente genial.

NOVE CURIOSIDADES SOBRE PULP FICTION

1- A mãe de Tarantino afirmou que, durante a gravidez, costumava escutar repetidamente música “You Never Can Tell”, de Chuck Berry, escolhida por ele para a cena da dança entre Mia e Vincent no Jack Rabbit;

2- John Travolta não tinha sido o escolhido para o filme, foi Michael Madsen que ganhou o papel, mas ele não pôde (estava gravando Wyatt Earp), então, Travolta foi chamado para atuar;

3- Muitas atrizes queriam o papel de Mia Wallace, entre elas, Meg Ryan e Isabella Rossellini, mas Tarantino estava tão desesperado para que Uma Thurman aceitasse o papel, que leu o roteiro inteiro para ela no telefone, fazendo-a aceitar;

4- Originalmente, o personagem Jules deveria ostentar uma vasta cabeleira estilo black power, mas um membro da equipe mostrou uma peruca feita com cabelo encaracolado para Quentin Tarantino. O diretor gostou, Samuel L. Jackson experimentou a peruca, aprovou e ela foi usada no filme;

5- Em princípio, o papel de Lance seria interpretado por Tarantino, e o de Jimmie, por Eric Stoltz. Mas o diretor decidiu que queria estar atrás das câmeras na cena da injeção de adrenalina em Mia, por isso, trocaram os papéis;

6- A carteira de Jules, onde dizia “Bad Motherfucker” era, na verdade, de Tarantino;

7- O Método de Pumpkin e Honey Bunney’s de assaltar vem do filme O Grande Roubo do Trem (1903),o primeiro filme de faroeste da história;

8- Na conversa entre Mia e Vincent no restaurante, Mia conta que formava parte de um grupo de 5 garotas: uma loira, uma chinesa, uma negra, uma francesa e a própria Mia, que era a mais letal com facas. Fato que coincide com as características das 5 integrantes do “Esquadrão Assassino Víboras Mortais” em Kill Bill;

9- A espada que Butch usa para salvar Marcellus, é a mesma usada em Kill Bill;

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EUA, 1994
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary
Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Uma Thurman, Harvey Keitel, Quentin Tarantino, Ving Rhames
Produção: Lawrence Bender
Fotografia: Andrzej Sekula
Montagem: Sally Menke
Trilha Sonora:Karyn Rachtman
160 minutos
18 anos
A Band Apart / Jersey Films / Miramax Films

Confira a icônica cena de dança de John Travolta e Uma Thurman ao som de You Never Can Tell, de Chuck Berry

RELICÁRIO DO CINEMA #3 – APOCALYPSE NOW (1979)

Um dos maiores filmes de guerra já produzidos, Apocalypse Now figura no Panteão da Sétima Arte como poderoso e ambicioso registro ficcional da Guerra do Vietnã, sob o componente da insanidade que perpassa todo conflito armado

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O pôster de Apocalypse Now (1983): Como sempre, Brando em destaque.

A guerra está no espírito dos EUA. A política externa ianque, desde o início do século XX, é baseada no pressuposto de que são os “zeladores” do mundo. E a cultura pop não fica alheia à isso. Capitão América, Superman – e as suas nada sugestivas cores -, e até mesmo o Zé Carioca, criado por Walt Disney no auge da II Guerra, fruto da chamada “política da boa vizinhança”, são apenas alguns dos exemplos das tentativas estadunidense de impor a sua influência pelos mais variados métodos – seja pela cultura ou pela força das armas. Indo contra essa tendência, alguns dos melhores produtos da cultura do país advém do caráter antibelicista nela inseridos, e Apocalipse Now, o filme de Francis Ford Coppola ora abordado nesse texto, atende a esse último requisito.

Baseado livremente no romance O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857-1924), Apocalypse Now (1979) não é um simples filme de guerra. É uma história sobre pessoas que perdem a sanidade em decorrência de um conflito absolutamente sem sentido.É o horror do conflito, tirando a humanidade dos seus participantes. O protagonista, Capitão Willard, interpretado por um competente Martin Sheen, é um homem amargo, que não vê muitos motivos para estar naquela guerra, mas de algum modo acha aquilo melhor do que a sua casa. Como parte da Inteligência do Exército Americano, é mandado para confrontar um Coronel que se isolou na fronteira do Vietnã com o Camboja,e luta a guerra de sua própria maneira, esse oficial, Walter Kurtz, é interpretado pelo magistral Marlon Brando (1924-2004).

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APOCALIPSE NOW (1979): O horror e insanidade da guerra transposto para a tela.

Além dos dois, o elenco conta com Robert Duvall, aqui vivendo o insano Tenente Coronel Kilgore, e o estreante Laurence Fishburne, no papel do soldado Clean. Todos os membros do elenco entregam uma performance exemplar, mas como sempre, Brando esgota todos os adjetivos que podem ser dados a um ator, mesmo atuando quase sempre na penumbra (por questões de má forma física), e com pouco tempo de tela (infelizmente, mas necessário para a trama), Brando é simplesmente magnético, declamando o texto com uma sobriedade que consegue transmitir toda a grandeza do personagem, que é ao mesmo tempo, carismático e aterrador. Pode até se traçar um paralelo entre o ator e o personagem, que por muitos anos depois desse filme se tornou um recluso, cercado apenas pela próprio mito.

A trilha sonora é um show à parte, contando com criações dos Rolling Stones, Credence Clearwater, The Doors e a hipnótica “The End” (que casa perfeitamente com a trama), além claro, de Richard Wagner e sua Cavalgada das Valquírias (1856), acompanhamento de uma das mais famosas cenas de bombardeio do Cinema, aliás, as cenas de batalha primam pelo realismo e elaboração, não é à toa que Coppola teve enormes dificuldades ao gravar o filme, com direito a furacão destruindo o set de filmagens, enfarte do ator principal, e ataque de estrelismos de Brando. O que levaria apenas 6 semanas, arrastou-se por 16 meses (como revela o excelente documentário O Apocalipse de um Cineasta (1991), de Eleanor Coppola, esposa do cineasta), mas o resultado é tecnicamente impecável, sendo sido indicado a 7 Oscars, incluindo Melhor Coadjuvante (Duvall) e Melhor Filme – mas levou apenas dois (Fotografia e Som). Em compensação, foi vencedor da Palma de Ouro de Cannes-1979.

Por se tratar de um libelo antiguerra poderoso, ter atuações magníficas, uma direção de excelência, além de algumas das cenas de guerra mais chocantes já filmadas, Apocalypse Now merece figurar na sua lista de filmes a assistir antes de morrer. É Cinema para apreciar, e, sobretudo, refletir. Afinal, o que é preciso acontecer para um homem deixar de ser humano e são?

7 CURIOSIDADES SOBRE APOCALYPSE NOW

1- Francis Ford Coppola propôs realizá-lo dez anos antes do livro realmente ter sido transposto para o cinema. Na época o estúdio procurado não aceitou a proposta, pois achava que Coppola não tinha condições de comandar uma grande produção. Porém, após os lançamentos dos dois primeiros episódios da saga O Poderoso Chefão, em 1972 e 1974, finalmente conseguiu levar às telas a obra de Joseph Conrad;

2 – As negociações para ter Marlon Brando foram bastante complicadas. Tendo recebido antecipadamente US$ 1 milhão, Brando ameaçou abandonar o projeto ainda antes das filmagens começarem. Coppola, por sua vez, respondeu que não se importava com a ausência de Brando e que se ele realmente abandonasse o papel iria convidar Jack Nicholson, Robert Redford ou Al Pacino para o papel. Brando naquele momento estava gordo, andava frequentemente bêbado e admitiu que não havia lido nem o roteiro e nem o livro em que o filme se baseava. Mesmo depois de ler o roteiro, ainda se recusou. Após dias de conversas, concordou em atuar com uma condição: de que ele aparecesse sempre nas sombras, para que o público não notasse que ele estava 40 quilos acima do seu peso normal;

3 – O nome do personagem de Martin Sheen foi criado a partir de uma combinação dos nomes dos dois filhos mais velhos de Harrison Ford, Benjamin e Willard;

4 – Originalmente seria de Harvey Keitel o papel do Capitão Benjamin Willard. Faltando apenas duas semanas para o início das filmagens, Coppola resolveu optar por Martin Sheen;

5 – Para conseguir o papel, o ator Laurence Fishburne mentiu sobre sua idade quando a produção de teve início, em 1976. Na época ele tinha 14 anos;

6 – Jim Morrison (1943-71), vocalista do The Doors, estudou com Coppola na faculdade de cinema da UCLA. Coppola prestou-lhe uma homenagem inserindo a música ‘The End’, na trilha sonora. Além de encaixar-se no contexto do filme, a música fez a banda ser conhecida por uma nova geração de fãs;

7 – Por fim, Coppola ameaçou por diversas vezes se suicidar durante as filmagens.

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APOCALYPSE NOW
EUA, 1979
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola, John Milius
Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Laurence Fishburne, Federic Forrest, Dennis Hopper
Produção: Francis Ford Coppola
Fotografia: Vitorio Storaro
Montagem: Gerald B. Greenberg e Walter Murch
Trilha Sonora: Francis Ford Coppola
153 minutos
16 anos
Zoetrope Studios

Confira o trailer de Apocalypse Now com The End:

 

 

RELICÁRIO DO CINEMA #2 – Scarface (1983)

Subvertendo a lógica comum, de onde se extrai que todo remake é potencialmente um filme ruim, Scarface, de Brian DePalma, é um intrigante e complexo estudo de personagens mais perversos do gangsterismo e tem de Al Pacino uma das maiores performances masculinas da história do Cinema

kinopoisk.ru

Al Pacino em SCARFACE (1983): no âmago do verdadeiro tour de force entre ator e personagem

Scarface pode ser tratado como um conto de fadas, daqueles que a Disney gosta de contar. Mas esqueça as princesinhas de tez clara, pois o protagonista é um imigrante cubano. Esqueça também as músicas melosas, a única melodia que ressoa aqui é uma infinidade de “fuck’s” nas mais diversas modalidades. E o pó que sai das asinhas das fadas? Tony Montana cheira tudo. Podemos extrair até uma lição moral no fim da película, mas não cabe a mim soltar esse spoiler, certo?

Com direção de Brian de Palma, e o robusto roteiro de Oliver Stone, Scarface é uma daquelas raríssimas exceções no mundo cinematográfico, no qual geralmente remakes são sinônimo de bomba em formato de filme, mas esse com certeza não é o caso. Para quem não sabe, o original é um filme de 1932, que no Brasil recebeu o título de Scarface – a Vergonha de uma Nação , com direção de Howard Hawks, com Paul Muni (observe a mania das distribuidoras brasileiras subtítular desde então), e conta a história de Tony Camonte, um bandido pé-rapado que ascende meteoricamente no submundo criminoso de Chicago. Cinquenta anos depois, a história é recontada, mas dessa vez o cenário é a ensolarada Miami, e o protagonista já não é mais ítalo-americano, e sim um bandido cubano deportado, em uma manobra (fictícia) de Fidel Castro para limpar as prisões da ilha.

Muito do realismo e da crueza da história se deve ao roteiro de Stone, que na época que escrevia o texto, passava por problemas com o seu vício em cocaína e, como r4esultado, o que podemos notar é um verdadeiro exorcismo do vício em forma de script. A trama começa com um ritmo lento, mas a captura do espectador é quase imediata, segue em um crescendo até o clímax, onde nos deparamos com a cena onde Montana solta uma das mais icônicas frases do Cinema. Sim, ela mesma: “Say hello to my little friend!!“. A amiguinha de Tony é uma metralhadora M-16 com lançador de granada, um mimo, digna dos sonhos de ambição do imigrante cubano. O único ponto que me desagrada um pouco em tudo isso é a trilha sonora, que não é uma das mais inspiradas de Giorgio Moroder, mas mesmo assim casa com a cafonice que os anos 80 exalam (destaque para o carro do personagem principal e o seu estofado de oncinha).

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“I’am Tony Montana! You Fuck With Me! Fuckin With The Best! “: Scarface se apresenta dando uma aula de sintaxe

Al Pacino merece uma análise à parte no filme. É impressionante a construção e a verossimilhança de seu Tony é algo incrível e extremamente satisfatório para quem é fã de Cinema, todos os seus maneirismos e palavrões, casam bem com aquilo que se imagina de um bandido latino, cheio de bravatas e temperamental até os ossos, além da cena final bad-ass, destaca-se a cena do restaurante, onde o seu inflamado discurso aos presentes, mostra o quanto Pacino desempenhou bem a complexidade do personagem. Outra que demonstra um grande trabalho é Michelle Pfeiffer, sua Elvira Hancock não se configura apenas como mero objeto de desejo, e sim como uma pessoa atraída pelo turbilhão que a egotrip de seu marido acaba se tornando, e atriz é competente em estabelecer essa relação explosiva com o personagem de Pacino.

Por conter uma das melhores atuações da carreira de um monstro do cinema, por fornecer para a posteridade uma das “catchphrases” mais homenageadas de sempre, e por estar dentre os melhores filmes de Máfia já realizados, Scarface é um clássico indiscutível, e só não digo obrigatório porque tudo feito por obrigação acaba se tornando uma chatice. Certeza que Tony Montana concordaria comigo.

7 curiosidades sobre Scarface:

1- A história inicialmente, deveria ser mais fiel ao original, mas os custos de produção, obrigaram as mudanças nas filmagens, que passou de Chicago para Miami e uma parte foi feita em Los Angeles; enquanto a comunidade cubana via com maus olhos a história de um cubano delinquente;

2 – Oliver Stone se aproveitou de sua experiência de viciado para escrever o roteiro, chegou a conviver com barões do tráfico na Flórida e foi ameaçado de morte ao falar de sua amizade com um jornalista desafeto dos traficantes;

3 – Al Pacino considera Tony Montana o melhor papel de sua carreira. Após as filmagens o ator parabenizou Stone por conseguir criar um personagem tão complexo e humano;

4- Robert de Niro e Bruce Willis foram cogitados para o papel- título, enquanto John Travolta deveria ter sido o melhor amigo de Montana, Manny;

5 – O papel de Elvira Hancock foi um dos mais disputados de que se tem notícia na história da Sétima Arte. As seguintes atrizes foram cogitadas, ou fizeram teste para ser o interesse amoroso do traficante: Rosana Arquette, Jodie Foster, Kim Basinger, Melanie Griffith, Brooke Shields, Jennifer Jason Leigh, Bridget Fonda, Geena Davis, Kathleen Turner, Sygourney Weaver, Carrie Fisher, Nancy Ellen, Sharon Stone, Glen Close e Kelly McGillis;

6- Ao todo, são desferidos 226 “fuck’s” durante os seus 170 minutos, cerca de 1,36 por minuto – só o protagonista fala 182 vezes (A banda Blink 182 tirou seu nome desse fato);

7 – Saddam Hussein era tão fã do filme, que sua firma de importações foi batizada como Montana Inc.

FICHA TÉCNICA

 

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EUA, 1983
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Oliver Stone
Elenco: Al Pacino, Michele Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Mirian Colon, F. Murray Abraham e Paul Shenar
Produção: Martin Bregman
Fotografia: John A. Alonzo
Montagem: Gerald B. Greenberg e David Ra
Trilha Sonora: Giorgio Moroder
170 minutos
18 anos
Universal

Confira o trailer de Scarface.