81 ANOS DE VIDA, 75 DE CINEMA: JOSÉ WILSON BALTAZAR

Mais antigo cinéfilo ainda em atividade na capital cearense, José Wilson Baltazar, 81 anos de vida e 75 de cinema, é tema do documentário CINEMEIRO, que será exibido amanhã, na Vila das Artes, dentro do projeto Fortaleza, presente e passado

José Wilson Baltazar é a estrela de CINEMEIRO (BRA, 2017), de Gabriel Petter. Imagem: divulgação.

José Wilson Baltazar é a estrela de CINEMEIRO (BRA, 2017), de Gabriel Petter. Foto: Allef Fragoso.

Para os habitués dos cinemas de Fortaleza, José Wilson Baltazar é um personagem familiar, daquele tipo que conhecemos de tanto ver. O senhor baixinho, de óculos e vestido como um servidor público, à primeira vista parece ser apenas mais um de tantos aposentados que gastam parte do seu tempo assistindo filmes. Porém, como reza a sabedoria popular, as aparências enganam. Ah, se enganam!

Tecnicamente, José Wilson Baltazar não é aposentado. Até hoje colabora semanalmente com uma coluna dedicada às estreias cinematográficas na capital cearense, atividade que mantém há décadas. “Seu” Baltazar, por outro lado, está longe de ser um idoso convencional. Basta uma informação esclarecedora: dos seus inacreditáveis 81 anos, completados em novembro do ano passado, pelo menos 75 (isso mesmo, 75!) deles foram dedicados à assistência de filmes.

Foi em 1942, numa Fortaleza ainda bucólica, que Wilson assistiu ao seu primeiro filme, no extinto Cine Majestic: Às Portas do Inferno (Stand by for Action, EUA, 1942). Sentiu-se entrando num “novo mundo”, ainda em preto e branco, porém prenhe de imaginação e fantasia. Desde então, o filho de alfaiate, morador do centro da cidade, não parou de frequentar o cinema. Já assistiu a mais de 50 mil filmes e, apesar da idade, é capaz de detalhar cenas e elencos de obras perdidas nas gavetas da memória de pessoas cuja mente não possui capacidades tão prodigiosas.

Contudo, quando a mente não ajuda, José Wilson se vale dos seus arquivos. Da década de 1950 até o ano de 2003, ele anotou tudo o que pôde acerca dos filmes que assistia, em caderninhos por vezes feitos à mão. Daí seu interesse, incompreendido por muitos projecionistas, em acompanhar os créditos finais das películas, o que, segundo ele, lhe rendeu a alcunha de “chato” entre alguns destes profissionais. Esse preciosismo, porém, teceu uma memorabilia preciosa para subsidiar a história da exibição cinematográfica e do público de cinema da capital cearense. Neste calhamaço de notas, figuram muitas salas já extintas, assim como datas de lançamento e horários de exibição de clássicos da cinematografia mundial em Fortaleza. José Wilson pretendia lançar este material em livro, mas problemas cardíacos impediram-no de realizar a empresa.

A descoberta do cinema europeu, que aportou em Fortaleza a partir da década de 1950, com a distribuidora Cinemar, transformou a relação de José Wilson com a sétima arte, agora eivada da sensualidade de estrelas como Brigitte Bardot e Anna Maria Pierangeli (1932-1971), sua musa eterna. A assistência dessa cinematografia se confundia com os anseios de liberação sexual de uma geração marcada pelo moralismo ultramontano de uma igreja católica ainda muito poderosa. Ela portou um novo olhar a jovens como José Baltazar, para quem os filmes eróticos têm tanta dignidade artística como qualquer casta produção hollywoodiana. Se isso pode soar escandaloso para pessoas mais pudicas, não há como contestar o ponto de vista de alguém que tem tamanha vivência com filmes. Nesta matéria, de longe, ele é um sábio.

Parte da história e do pensamento deste personagem singular são o mote do documentário CINEMEIRO, dirigido por mim, e que será exibido nesta quinta-feira, dia 2 de fevereiro, na Escola Pública de Audiovisual de Fortaleza. O filme integra o evento Fortaleza, presente e passado, feito em alusão aos 290 anos da capital cearense e que selecionou, via chamada pública, três projetos de curta-metragem para produção. Esta é uma realização do Núcleo de Produção Digital da Vila das Artes, com patrocínio da Petrobrás. E se não é possível dar conta da vida extraordinária de um homem que dedicou a maior parte da sua existência a fruir da sétima arte, esta pode ser a oportunidade de exercer a desafiadora e bela arte de conhecer o outro através da sua sabedoria. O convite está feito. E o público que tire suas conclusões.

Cinemeiro será exibido, juntamente com outros dois curtas-metragens, na culminância do evento Fortaleza, presente e passado, que ocorrerá na Vila das Artes, na Rua 24 de Maio, 1121, Centro, a partir das 18h30 min, com entrada franca.

Adicionar a favoritos link permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*