CHRONIC – Desfecho moralista

Dentro da Perspectiva Internacional da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa-metragem Chronic, do mexicano Michel Franco, acompanha a complexa rotina de um enfermeiro que cuida de pacientes terminais

Michael Cristofer e Tim Roth em cena de CHRONIC (2015), de Michel Franco

Michael Cristofer e Tim Roth em cena de CHRONIC (2015), de Michel Franco

A narrativa de Chronic (2015) parece bastante sedutora ao espectador: o filme procura desvelar aos poucos a rotina de David (Tim Roth), um enfermeiro que cuida de pacientes terminais. Sem jogar informações claras e imediatas acerca das intenções do protagonista, a estrutura do filme se serve de elipses, de silêncios, de diálogos que nem tudo explicam. A primeira impressão é de que o longa-metragem do mexicano Michel Franco (o mesmo de Depois de Lucia, 2012) foi construído de modo a fazer com o que o espectador complete por si só a história (tal estratégia inclusive levou o júri do 68º Festival de Cannes a premiar o filme na categoria de melhor roteiro).

Até certo ponto, o procedimento converge para um olhar generoso para o ofício do enfermeiro – não me recordo agora de nenhum outro filme que se dedicou de forma tão profunda a explicitar o quanto é complexa (física e emocionalmente) a profissão de alguém que cuida diariamente de pacientes à beira da morte. Entram em questão não só o cuidado do enfermeiro, mas também a ausência de afeto dos familiares, a solidão de quem não tem mais esperança em viver, a decisão sobre a vida ou a morte (a eutanásia é um dos pontos centrais).

Tim Roth e Rachel Pickup em cena de CHRONIC (2015), de Michel Franco

Tim Roth e Rachel Pickup em cena de CHRONIC

Ao ter uma convivência intensa com os pacientes, David parece anular sua própria personalidade pelo seu caráter dúbio e frágil que, em muitos momentos, se confunde com as trajetórias de vida das pessoas que cuida: ele mente, seja para se aproximar daquilo que parece distante, seja por ser mais conveniente para a situação. De um modo ou de outro, há uma opacidade psicológica do protagonista, aliada à estrutura lacunar da narrativa.

No entanto, o desfecho do filme abdica de tudo aquilo que era incerto, duvidoso em torno do universo do personagem. Afeito à saída fácil, Michel Franco decide aplicar um deux ex machina – expressão conhecida na tragédia grega para designar uma solução inesperada para o final –, que faz com que seu próprio filme desmorone. Ou seja, se até então o diretor não tinha tomado uma posição clara sobre seu personagem, ao final ele se torna um tremendo moralista.

Pôster de CHRONIC (2015), de Michel Franco

Pôster de CHRONIC (2015), de Michel Franco

Título: Chronic

Gênero: Drama

Direção: Michel Franco

Elenco: Tim Roth, Sarah Sutherland, Robin Bartlett, Rachel Pickup, Michael Cristofer

Duração: 92 min.

Origem: México, França

Ano: 2015

Classificação: Livre.

 

 

 

Veja o trailer de Chronic:

Imagem de Amostra do You Tube