CRÍTICA/FESTIVAL DO RIO – Mommy – Pobreza de encenação

Ganhador do prêmio do júri no Festival de Cannes 2014, o longa canadense Mommy, de Xavier Dolan, peca pelo excesso de melodrama e pela arbitrariedade no uso de recursos estilísticos

Anne Dorval e Antoine Olivier Pilon em MOMMY (2014)

Anne Dorval e Antoine Olivier Pilon em MOMMY (2014)

CAMILA VIEIRA
Crítica de Cinema

Xavier Dolan usa o cinema para uso pessoal, como forma de expurgação de suas neuroses na condição de jovem revoltado com o mundo. Mommy (2014) é a repetição da fórmula de Eu Matei Minha Mãe (J’ai tué ma mère, 2009), longa anterior do diretor: uma história conturbada entre mãe e filho. Ao escancarar seu apreço por relações disfuncionais, o que interessa a Dolan é cenas do tipo “lavar roupa suja”.

Isto implica dizer que assistir a Mommy é ser colocado não mais no lugar de espectador de um filme, mas de testemunha de sequências excessivamente melodramáticas em que se sobressaltam gritos, choros, trocas de palavrões, pancadarias, etc. Nada contra a encenação do desentendimento – aliás, quem sabia muito bem lidar com tal questão na história do cinema era Maurice Pialat e seus filmes de intensas brigas entre personagens. O problema é que Dolan não tem o talento de Pialat e qualquer cena de Mommy é tão ou mais constrangedora quanto um realismo social de Ken Loach.

O dado social tem como dispositivo narrativo uma nova lei canadense que dá direito aos pais de se livrar da responsabilidade sobre os filhos ao entregá-los aos cuidados do Estado, sob pena de internação forçada em hospitais psiquiátricos. É uma das possibilidades da mãe viúva (Anne Dorval) ao lidar com o problemático filho adolescente (Antoine-Olivier Pilon).

Como Dolan não tem maturidade cinematográfica, ele se serve dos mais diversos recursos estilísticos para sublinhar qualquer ideia que não está lá na cena. Em vez de potencializar as relações sufocantes dos personagens diante do meio em que vivem, ele prefere fazer uso da janela 1:1 para forçar tal sensação ou abrir o quadro para inferir os momentos de liberdade. Em vez de construir uma atmosfera potente de excesso, ele se ocupa em usar filtros, flares, closes com desfoque, videoclipes, como se estas figuras de linguagem fossem suficientes para traduzir isso, da forma mais arbitrária possível.

Pior é recorrer às estratégias mais usuais do melodrama para dar qualquer credibilidade a sua história. Um exemplo disso é a cena em que o garoto rebelde espera no carro o retorno da mãe e vê da janela os enfermeiros se aproximando para interná-lo. De que modo Dolan filma esta situação? Com pingos de chuva caindo na janela, no momento em que o rapaz percebe que foi enganado. Dá para acreditar?

Ficha técnica

Mommy
Canadá, 2014
Direção: Xavier Dolan
Elenco: Anne Dorval, Antoine Olivier Pilon, Suzanne Clément, Patrick Huard, Alexandre Goyette, Michèle Lituac
Duração: 134 min

Veja o trailer:

RANKING EUA – O PROTETOR estreia direto no topo

Suspense policial com Denzel Washington foi o favorito dos norte-americanos e faturou alto no seu primeiro final de semana

Banner internacional de O PROTETOR

Banner internacional de O PROTETOR

Nova parceria do ator Denzel Washington com o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), o suspense policial O Protetor (The Equalizer) fez bonito em sua estreia no mercado norte-americano. Lançado pela Sony em 3.236 salas de cinema nos Estados Unidos e Canadá na última sexta-feira, 26, o filme alcançou até domingo a excelente marca de US$ 35,00 milhões em bilheteria, garantindo então a liderança disparada do final de semana e posicionando-se como a melhor abertura da carreira de Fuqua e a terceira melhor da carreira de Washington. Além disso, cabe mencionar que os números de O Protetor foram bons o bastante para transformá-lo na quarta maior estreia do mês de setembro de todos os tempos na América do Norte, perdendo apenas para Hotel Transilvânia (US$ 40,27 milhões), Sobrenatural: Capítulo 2 (US$ 42,52 milhões) e Doce Lar (US$ 35,64 milhões).

Nós estamos muito, muito felizes, mas também estávamos muito otimistas em relação ao filme. É um filme que todos amamos e ele correspondeu bastante às nossas expectativas. Denzel não poderia estar mais maravilhoso no papel – você não consegue tirar os olhos desse cara, declarou à revista Entertainment Weekly o presidente de distribuição da Sony, Rory Bruer, sobre o desempenho de O Protetor, desempenho este que por sinal já garantiu uma sequência para a produção, algo que, convenhamos, já se tornou praxe nos dias de hoje.

Assista ao trailer de O Protetor.

Imagem de Amostra do You Tube

Baseado na série de TV homônima dos anos 80, o filme acompanha a história de Robert McCall (Washington), um oficial das forças especiais que decide simular a própria morte para poder viver um vida tranquila. Contudo, após conhecer Teri (Chloë Grace Moretz), uma jovem que está sob o controle de mafiosos russos, McCall decide deixar sua auto-imposta aposentadoria e resgatar a garota do sub-mundo onde vive. Melissa Leo (Os Suspeitos), David Harbour (Guerra dos Mundos) e Marton Csokas (Sin City 2: A Dama Fatal) também estão no elenco de O Protetor, que atualmente está em cartaz nos cinemas nacionais.

Cena de MAZE RUNNER: CORRER OU MORRER

Cena de MAZE RUNNER: CORRER OU MORRER

Em uma distante segunda posição aparece a aventura sci-fi Maze Runner: Correr ou Morrer, que após dominar o ranking na semana passada, registrou uma queda de 46% e agora fez US$ 17,50 milhões. No total de dez dias, o longa protagonizado pelo astro teen Dylan O’Brien (série Teen Wolf) já rendeu ótimos US$ 58,01 milhões.

Banner internacional de OS BROXTROLLS

Banner internacional de OS BROXTROLLS

No terceiro lugar ficou a segunda principal estreia da semana, a animação Os Boxtrolls (The Boxtrolls), que perdeu por muito pouco a vice-liderança ao faturar em três dias US$ 17,25 milhões. Mas apesar de ter sido forte o bastante apenas para a medalha de bronze, o resultado de Os Boxtrolls ainda assim deixou muita gente feliz, uma vez que ele representa a maior abertura dos estúdios Laika Entertainment, superando os US$ 16,84 milhões obtidos por Coraline e o Mundo Secreto em 2009.

Veja o trailer de Os Boxtrolls:

Imagem de Amostra do You Tube

Com estreia no Brasil agendada para a próxima quinta-feira, 02, os filmes nos apresenta os Boxtrolls, simpáticas criaturinhas catadoras de lixo que começam a ser sequestradas pelo malvado vilão Archibald Snatcher. Criado pelos Boxtrolls como se um deles, o garoto Eggs elabora então um ousado plano para resgatar os seus amigos e contará com a ajuda da esperta Winnie para colocá-lo em prática. Ben Kingsley (A Invenção de Hugo Cabret), Elle Fanning (Malévola) e Jared Harris (Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras) são alguns dos atores que emprestam suas vozes aos personagens de Os Boxtrolls.

Na esquerda, cena de SETE DIAS SEM FIM e na direita cena de WINTER, O GOLFINHO 2

Na esquerda, cena de SETE DIAS SEM FIM e na direita cena de WINTER, O GOLFINHO 2

Completando a lista dos cinco primeiros colocados estão a comédia dramática Sete Dias Sem Fim e o filme-família Winter, O Golfinho 2 que arrecadaram respectivamente US$ 7,01 milhões e US$ 4,83 milhões. Ao todo, Sete Dias Sem Fim acumula uma bilheteria de US$ 22,55 milhões e com isso já supera o seu orçamento de US$ 19,80 milhões. Por sua vez, Winter, O Golfinho 2 contabiliza em três semanas um faturamento de US$ 33,66 milhões e deve nos próximos dias superar os seus custos de produção, estimados em US$ 36 milhões.

Confira abaixo o ranking completo com as dez maiores bilheterias deste final de semana na América do Norte:

ranking

Versão estendida de X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO mostrará as cenas com Vampira

Cortada da edição de cinema de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, a heroína interpretada por Anna Paquin será o destaque da vindoura versão estendida do novo filme dos mutantes

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Banner de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. Alguém aí reparou na presença da Vampira???

Uma boa e uma má notícia para os fãs da heroína Vampira que ficaram decepcionados com o fato da mutante ter sido cortada da versão cinema do bem-sucedido X-Men: Dias de um Futuro Esquecido.

Primeiro, vamos à boa notícia.

Durante um evento realizado na última quinta-feira (21), o produtor e roteirista Simon Kinberg confirmou à revista Variety o que muitos já esperavam: a Fox irá lançar em homevideo uma versão estendida de Dias de um Futuro Esquecido contendo todas as cenas com a personagem Vampira que foram deixadas no chão da sala de edição do filme! \o/

vampira

Anna Paquin como a heroína Vampira em um arte promocional de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Referida por Kinberg como “Rogue’s Cut” (ou “Versão com a Vampira”, em tradução livre), a edição especial contará com mais de 10 minutos de cenas adicionais, cenas estas que não só envolverão a subtrama com Vampira, mas também sequências com outros personagens que tiveram que ficar de fora da versão de cinema de Dias de um Futuro Esquecido.

É uma grande sequência, uma parte substancial do filme, disse Kinberg à Variety sobre as cenas com a Vampira. Em todo filme há cenas que são excluídas, mas nem todo filme há cenas excluídas com um personagem tão amado, completou.

[Cuidado: Possíveis Spoilers de Dias de um Futuro Esquecido à frente]

Para quem ainda não sabe, Vampira teria uma participação bem maior na trama do novo X-Men. Originalmente, quando Wolverine deixa por acidente Kitty Pride gravemente feriada, Magneto e o Prof. Xavier decidem ir, juntamente como o Homem de Gelo, até a Mansão X (agora transformada em uma prisão de mutantes) para resgatar Vampira, de modo que ela possa então absorver os poderes de Kitty e garantir que a consciência de Wolverine continue no passado até ele completar a sua missão.

Em maio, Kinberg afirmou ao Collider que a cena do resgate da Vampira teve que ficar de fora da versão cinematográfica de Dias de um Futuro Esquecido por ela ser um desvio da trama principal, que tinha já tinha que acomodar dois períodos de tempo e vários outros personagens.

Agora a má notícia: segundo Kinberg a “Versão com a Vampira” só será lançada em 2015, mais provavelmente no verão norte-americano (entre os meses de maio e agosto). Ou seja, os fãs ainda terão que esperar muuuito para poderem ver as cenas com a sua heroína favorita. Mas como já diz o ditado, antes tarde do que nunca…

E aproveitando a deixa, vale de mencionar que o DVD e o Blu-ray com a versão cinematográfica de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido já encontram-se nas prateleiras desde 08 de outubro, disponível por aqui em quatro edições, DVD, Bluray, Bluray 3D e Combo, com os respectivos preços de R$ 39,90, R$ 69,90, R$ 89,90 e R$ 99,90. Confira abaixo as capas das edições nacionais.

dvd

Com direção de Bryan Singer, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido estreou em maio e se tornou um dos mais sucessos do ano, tendo arrecado US$ 745,98 milhões em bilheteria ao redor do planeta. O elenco do filme conta com James McAvoy (Charles Xavier jovem), Michael Fassbender (Magneto jovem), Patrick Stewart (Charles Xavier), Ian McKellen (Magneto), Jennifer Lawrence (Mística), Nicholas Hoult (Fera), Hugh Jackman (Wolverine), Halle Berry (Tempestade), Ellen Page (Kitty Pride), Shawn Ashmore (Homem de Gelo), Evan Peters (Mercúrio), Omar Sy (Bishop), Daniel Cudmore (Colossus), Fan Bingbing (Blink) e Peter Dinklage (Bolivar Trask).

FESTIVAL DO RIO – 2 filmes, 2 pontos de vista sobre a arte

Ao partir do interesse por processos artísticos, os documentários O Sal da Terra e Remake, Remix, Ripoff optam por caminhos distintos que demonstram o que pode ser relevante no olhar para a arte e seus desdobramentos

Sebastião Salgado em O SAL DA TERRA (2014)

Sebastião Salgado em O SAL DA TERRA (2014)


CAMILA VIEIRA

Crítica de Cinema

Para o documentarista que escolhe como recorte o olhar para uma obra artística, há dois caminhos metodológicos possíveis: entender o criador ou entender a criação. De um lado, investigar quem realizou aquela arte, qual seu contexto histórico, qual sua visão de mundo. Do outro, compreender o processo artístico em si, o modo como foi realizado e quais suas repercussões.

Filme de abertura do Festival do Rio 2014, O Sal da Terra (Salt of the Earth, FRA/ITA/BRA, 2014), de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, opta pelo primeiro caminho. Não interessa tanto entender a estética das fotografias de Sebastião Salgado, quais técnicas elas implicam ou por qual motivo ele ganhou status no circuito das artes. O que os diretores querem – e talvez tenha sido a imposição maior de Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo – é fazer “um filme sobre a vida de um fotógrafo”, como explicar a voz off de Wenders logo no início do longa, que ganhou o prêmio do júri na mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes 2014.

Veja o trailer de O Sal da Terra.

No filme, olhar para as fotos de Sebastião Salgado implica entender o homem “fotógrafo e aventureiro” que está por trás. O que se faz é percorrer a trajetória de vida deste homem: sua formação em economia, a vida com a companheira Lélia, o abandono da carreira para se dedicar à fotografia, suas viagens a vários países que levaram a fazer suas séries fotográficas, seu interesse atual pela ecologia.

As fotografias de Salgado estão ali apenas como ilustração da vida deste homem. A estetização da miséria nas séries Sahel (1984-1986) e Êxodus (1993-1999) não são questionadas. Há sempre o olhar do próprio Sebastião Salgado sobre suas fotos: O Sal da Terra mostra o fotógrafo em close, refletindo sobre o conteúdo das fotos, como encontrou as pessoas que estão ali, o que ele sentiu ao produzir aquela imagem. Não há distanciamento crítico – o que também explica a admiração incondicional de Wenders pelo fotógrafo.

Cüneyt Arkın, um dos atores turcos entrevistados em REMAKE, REMIX, RIPOFF (2014)

Cüneyt Arkın, um dos atores turcos entrevistados em REMAKE, REMIX, RIPOFF (2014)

Remake, Remix, Ripoff (ALE/TUR, 2014), de Cem Kaya, escolhe o segundo caminho: compreender os processos de produção da indústria cinematográfica na Turquia dos anos 60 e 70 e a estética dos principais filmes que fazem parte deste universo. Exibido no Festival de Locarno 2014, o documentário é uma contribuição importante para a escrita de uma outra história do cinema que poucos conhecem.

Com baixo orçamento e sem preocupação com direitos autorais, vários diretores turcos realizaram filmes que eram refilmagens de blockbusters norte-americanos. Os roteiros eram copiados descaradamente em montagens de filmes B, que misturavam tudo a seu bel prazer com uma criatividade ímpar e paródica. É muito divertido ver cenas de versões turcas de O Exorcista, E.T., Tubarão, além de um curioso filme turco que se apropriou literalmente de cenas extraídas de Star Wars para criar uma ficção científica sem recursos para seus efeitos visuais.

O mais importante aqui não é entender quem fez estas preciosidades. A autoria não é relevante, porque os diretores turcos à época usavam a indústria apenas para sobreviver, como afirma um dos cineastas entrevistados que questiona inclusive o motivo pelo qual os críticos falaram mal de seu trabalho se ninguém dava mesmo importância a ele. Em Remake, Remix, Ripoff, interessa entender o modo como os filmes foram feitos e como pode ser a recepção deles hoje.

Ficha técnica

O Sal da Terra
Salt of the Earth, França/Itália/Brasil,2014.
Direção: Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders
Duração: 109 min
14 anos

Remake, Remix, Ripoff
Alemanha/Turquia, 2014.
Direção: Cem Kaya
Duração: 110 min
12 anos

Veja o trailer:

ANTI-PIRATARIA – MPAA muda estratégia: educar para ganhar a guerra

Depois que a aventura Os Mercenários 3 apareceu nos torrents 3 semanas antes de seu lançamento nos cinemas, o combate à pirataria online vai mudar de cenário. Diante da impossibilidade de mudar as leis e fechar os sites de compartilhamento, sob a chancela da MPAA – Motion Picture Association of America -, órgão que regula o os estúdios e o mercado cinematográfico estadunidense, os profissionais do Cinema e da TV buscam agora educar a audiência contra a pirataria.  E o primeiro passo foi dado: empresas que trabalham com a produção comercial de audiovisuais criaram evento para mostrar a quantidade de profissionais afetados com a prática da pirataria

Piratas sequestram original OS MERCENÁRIOS (2014), de Patrick Hughes

Piratas sequestram original OS MERCENÁRIOS (2014), de Patrick Hughes

ÁVILA SOUSA
Analista e tradutor

Faz um mês, mas vale a pena registrar, mesmo porque ninguém deu bolas para a notícia, importante, que devem mudar as regras do combate à pirataria. No último dia 10 de setembro, várias associações estadunidenses de produção audiovisual, tanto cinematográfica quando televisiva, enviaram membros e representantes para o Capitólio com o intuito de integrarem o evento chamado de Beyond the Red Carpet: movie & TV Magic Day (Além do Tapete Vermelho: um Dia Mágico do Cinema e da TV, em tradução livre), que mostrou através de exibições e debates como a pirataria prejudica o trabalho de centenas de pessoas que estão por trás das câmeras de uma produção cinematográfica.

Membros da MPAA, PGA, DGA, Independent Film & Television Alliance, IATSE, SAG-AFTRA, e National Association of Theater Owners, foram à sede do Congresso dos EUA para debater e mostrar o número de pessoas envolvidas em um trabalho audiovisual comercial e que poucas vezes são reconhecidas. Diretores, roteiristas, atores, produtores, animadores, distribuidores e técnicos estavam presente no evento que buscou mostrar o cinema e a TV como uma indústria e não apenas como produtos de entretenimento.

A Representante da Califórnia na Câmara dos Representantes, Judy Chu, afirmou: nós queremos mostrar que a pirataria afeta pessoas reais e seus empregos. O chefe executivo da MPAA, Chris Dodd, disse ao The Wrap que não buscamos outro projeto de lei contra a pirataria, queremos apenas educar o público. O mundo está mudando em alta velocidade. Nós não estamos fazendo isso para criar leis ou litigar nossas ideias, nós vamos tentar educar as pessoas mostrando o trabalho duro de pessoas envolvidas nesse ramo.

SOPA E PIPA
Em 2012, dois projetos de leis conhecidos como SOPA e PIPA foram criados com o intuito de proibir a pirataria online e punir àqueles que praticassem o ato. O SOPA (Stop Online Piracy Act, Pare Com a Pirataria Online, em tradução livre), através do PIPA (Protect Intellectual Property Act, Ato para Proteção de Propriedade Intelectual, em tradução livre) tinha a proposta de aplicar 5 anos de prisão em quem compartilhasse conteúdo pirata por no mínimo 10 vezes em 6 meses. Sites de busca como Google e redes sociais como Facebook também seriam punidos por facilitarem a pirataria.

Grandes estúdios e distribuidoras apoiavam os projetos, entre eles, Disney, Sony, Universal e Warner Bros. Na contrapartida estavam alguns sites como Google, Craiglist, Facebook e Wikipedia, que afirmavam ser um projeto que visava a censura e a liberdade de expressão na internet. Na época, a Casa Branca declarou ser contra as propostas alegando que não poderiam apoiar algo que reduziria a liberdade de expressão na internet e ampliaria os riscos de segurança na computação. Cerca de um mês antes de serem votadas as propostas de lei foram arquivadas porque houve uma grande passeata popular contra elas.

HISTÓRIA: A ORIGEM DA PIRATARIA
Em seu livro Piracy In The Motion Picture Industry (na tradução livre, Pirataria na Indústria Cinematográfica), o autor e pesquisador Kerry Segrave define pirataria como a reprodução ou uso não autorizado de filmes. Tomando como ponto de partida essa afirmação, percebe-se que o cinema e a pirataria estão ligados desde a fundação do primeiro, muito embora só tenha ganhado maior repercussão depois do advento da digitalização.

Muito antes das câmeras filmadoras e outros dispositivos móveis com capacidade de filmar ilegalmente a exibição de uma produção cinematográfica, já existiam relatos de pirataria envolvendo as grandes indústrias de cinema, principalmente dos Estados Unidos e Europa. Junto com o surgimento do cinema como espaço comercial apareceram pessoas que tentaram – muitas conseguiram – lucrar clandestinamente com as exibições das películas.

Inicialmente os donos de cinema compravam rolos de filmes para serem exibidos em sessões antes cos mercenários 3ombinadas com as produtoras e distribuidoras, porém, como não havia uma fiscalização, muitos exibidores faziam sessões extras e até alugavam os rolos entre si para poderem lucrar além do contratado. Eis que as produtoras então passaram a mandar fiscais juntos com as películas quando passaram a descobrir tais atitudes nada éticas. Fora isso existam as películas que se perdiam ou eram roubadas no caminho entre as distribuidoras e os cinemas.  Mas, a origem pode ser detectada no início do século passado, quando as obras do francês Georges Mèlies (1851-1938) foram levadas para os EUA clandestinamente e exibidas sem o pagamento de direitos autorais, o que provocou a falência de seu estúdio, o primeiro da História do Cinema.

Para saber mais sobre Georges Mèlies, acesse aqui.

Não se sabe ao certo quando a pirataria online surgiu, mas sabe-se que foi de uma maneira rápida e descontrolada. O primeiro caso polêmico e que deu início toda a discussão e preocupação com a pirataria foi em 1999, quando o estudante Shawn Fanning criou o Napster, um programa de compartilhamento de arquivos usado para trocar músicas entre ele e alguns de seus amigos. shawn fanningO Napster tomou proporções internacionais e logo as produtoras musicais quiseram o fim do programa e a punição para Shawn por cópia e distribuição ilegal de seus conteúdos. A exemplo do Napster inúmeros programas passaram a surgir de forma que não mais havia qualquer controle sobre a troca de conteúdos na internet, fato que se segue até hoje.

 PREJUÍZO AOS MERCENÁRIOS
O caso mais recente de vazamento de conteúdo ilegal foi uma cópia do filme Os Mercenários 3, que apareceu na internet 3 semanas antes de sua estreia mundial. Ainda na primeira semana disponível na internet o filme foi baixado 2 milhões de vezes. A produção custou cerca de 90 milhões de dólares (para obter lucro nos cinemas, tem de faturar 3 vezes mais) e na primeira semana de exibição nos EUA arrecadou míseros 16 milhões. Especialistas previam a perda de milhões com o vazamento, preço que a Lionsgate espera recuperar na bilheteria mundial. Surge, então, a pergunta que não quer calar: como ocorreu o vazamento? Resposta: silêncio total.

Hoje, o filme conta com uma bilheteria de US$ 38,6 milhões nos EUA e cerca de US$ 162 milhões  internacionalmente, somando quase 200 milhões de dólares em bilheteria mundial (o primeiro obteve US$ 274,4 milhões; e o segundo, US$ 305,4 milhões), números que não descontentam, mas que poderiam estar dando uma boa folga financeira caso estivesse dentro da previsão da Lionsgate (cerca de US$ 350 milhões em arrecadação). Aí sim, o novo filme dos senhores brutos comandados por Sylvester Stallone poderia ser chamado de um sucesso de bilheteria.

Quanto a mudança de estratégia da MPAA, se vai fazer efeito ou não, só o tempo dirá.

Confira o trailer de Os Mercenários 3.

Imagem de Amostra do You Tube

Party Girl – Filme de fronteiras

Vencedor do prêmio Caméra D’Or no Festival de Cannes 2014, o longa francês Party Girl é o resultado do olhar de três diretores para a vida real de uma ex-dançarina de cabaré por um viés ficcional

Angélique Litzenburger em PARTY GIRL (2014)

Angélique Litzenburger em PARTY GIRL (2014)

CAMILA VIEIRA
Crítica de Cinema

Existe uma certa autenticidade na construção das cenas de Party Girl (FRA, 2014), destaque da Mostra Expectativa do Festival do Rio 2014. É impressionante o domínio dos diretores Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis em apreender momentos bastante genuínos da relação entre Angélique – uma ex-dançarina de cabaré de meia idade –, e seus quatro filhos, suas amigas de trabalho e seu futuro marido. Nos créditos, os nomes dos atores são os mesmos dos personagens: algo que nos leva a associar o filme com sua condição de fronteira – não só entre o documentário e a ficção, como também do lugar em que os personagens transitam e onde acontece a narrativa (na fronteira entre França e Alemanha).

O tom de crença que o filme nos convoca ao lidar com as imagens origina-se sobretudo da relação íntima de um dos diretores com o material em questão: Samuel Theis é um dos filhos de Angélique. Em Party Girl, ele é o filho rebento que deu certo: aparenta ser bem sucedido no trabalho, tem uma vida mais pragmática e surge na trama para orientar a mãe, quando ela está indecisa e em crise. Os três demais filhos parecem disfuncionais: Mario e sua timidez, Severine e seus filhos pequenos, Cynthia e sua condição de abandonada na infância.

Nas cenas de Angélique com a família, há momentos preciosos de afeto: Samuel dá conselhos para ela na véspera do casamento, Cynthia e Severine arrumam a maquiagem dela, os quatro filhos discursam na festa. Na relação com o trabalho no cabaré, há sequências que poderiam facilmente cair no clichê, mas dão um novo sentido ao tema da prostituição: Angélique só acompanha os clientes, caso eles comprem bebida (ou seja, ela nunca vende o próprio corpo); ela não se considera uma dançarina como as jovens, mas uma estrela.

A questão principal que o filme coloca é se existe a possibilidade de Angélique encontrar outro modo de vida que exclua sua condição anterior, a qual ela estava acostumada e na qual ela formou uma família. É bem interessante como Party Girl mostra como as amigas do cabaré constituem naquele lugar uma espécie de comunidade, com suas regras próprias, mas fora das normas legitimadas pela sociedade.

Apesar disso tudo, Party Girl é um filme que vale por si só ou sua força estaria concentrada na sua protagonista? Talvez seja este o grande problema de um filme de personagem. O que há de cinema em Party Girl para além de Angélique? É a pergunta que permanece e que nos faz pensar, por exemplo, por qual motivo o filme ganhou o Caméra D’Or no Festival de Cannes 2014.

Ficha técnica:

Party Girl
França, 2014
Direção: Marie Amachoukeli, Claire Burger, Samuel Theis
Elenco: Angélique Litzenburger, Joseph Bour, Mario Theis, Samuel Theis, Séverine Litzenburger, Cynthia Litzenburger
Duração: 95 min
14 anos

Veja o trailer:

O LENHADOR: Uma polêmica obra que transcende a metaética

Kevin Bacon em O LENHADOR (2004), de Nicole Kassel: um pedófilo em estudo

Kevin Bacon em O LENHADOR (2004), de Nicole Kassel: um pedófilo em estudo

O Lenhador, dirigido por Nicole Kassell, estrelando Kevin Bacon e Kyra Sedgwick, e lançado em 2004, indaga os espectadores ao propor uma análise da moral presente na sociedade em uma situação de contraponto com nossos desejos íntimos. Afinal, somos todos completamente bons e maus ou é tudo uma percepção errônea de nossa realidade social?

GUSTAVO NERY

Crítico de Cinema

Desenrolando-se em torno de Walter (Kevin Bacon), o longa-metragem de Nicole Kassell (diretora de seriados como Cold Case e The Closer) apresenta um lenhador que no passado foi preso por abuso sexual de menores. Ainda tentando adaptar-se à sua realidade pós-cadeia, o personagem luta contra seus ímpetos, evitando situações que o levem de volta ao passado e envolvendo-se com a colega de trabalho Vicki (Kyra Sedgwick).

O roteiro de Steven Fechter, com adesões da própria diretora, traz à tona o conflito psicológico interno de pessoas que lutam contra determinados impulsos para adequar-se à “normalidade” padrão do comportamento humano. O personagem construído por Bacon quer entender aquilo que sente; quer sentir-se comum, encontrar identificação no próximo. As situações representadas no longa-metragem deixam isso claro ao propor um personagem que indaga a si mesmo em seus pensamentos e pessoas próximas a seu convívio, como o cunhado Carlos (Benjamin Bratt) e o agente de condicional Lucas (Mos Def).

O trunfo de O Lenhador está em seu aspecto polêmico de retratar os sentimentos conflituosos de um ex-presidiário em um mundo permeado de segredos e hipocrisia. Os personagens que ali representam o correto realizam ações torpes, demonstrando um senso particular de ética. Quem obtém atitude louvável? Aquele que realizou atos de aspecto repúdio perante a moral ou aqueles que o criticam, indo contra o ideal de respeito que prezam os bons costumes sociais?

É importante considerarmos determinados aspectos quanto à produção do longa-metragem: o título em Portugal, O Condenado, certamente propõe uma carga de pré-julgamento perante o protagonista por parte do público. Entretanto, as revelações ao longo da trama mantêm subtendido o caráter de que “todos nós possuímos uma história”; ou seja, um plano de fundo para nosso comportamento e maneira de pensar.

O título original, somado a alguns diálogos centrais e requisitos estéticos (como figurino e locações) constroem no filme de Kassell uma situação de intertextualidade com um dos mais famosos contos dos Irmãos Grimm: nessa adaptação, assim como a história em seu aspecto original, Chapeuzinho Vermelho perde seu ar inocente ao abordar o abuso sexual infantil.

Walter, como um ser que um dia já correspondeu a seus instintos, encaixa-se perfeitamente no arquétipo de “lobo”. Seu ar misterioso, pensamento agressivo e necessidade de encontrar alguém que o compreenda (para constituir uma “alcateia”), refletem na projeção de um ser grosseiro e “selvagem”. Porém, durante as sequências finais, vemos o protagonista libertar-se de sua posição para constituir outro arquétipo: o de “lenhador”.

A discussão final em torno da obra é: todos nós guardamos aspectos “bons” e “ruins”, que são demonstrados no decorrer de circunstâncias. A noção de metaética é construída em toda a narrativa, enaltecendo um viés filosófico a ser explorado no espectador.

Em seu artigo Sobre santos e demônios, o professor acadêmico da Universidade de Harvard, Steven Pinker, afirma que A moral, portanto, ainda é algo maior do que nosso senso moral herdado, e a nova ciência do senso moral não torna obsoletos o raciocínio e a convicção morais. Ao mesmo tempo, suas implicações para nosso universo moral são profundas. Os preceitos constituintes do ser humano são relativos, pois o caráter de expansão apresentado virá na determinação individual de suas escolhas. Citando o escritor russo Anton Tchékhov: O homem se tornará melhor quando você lhe mostrar como ele é.

Distante de ser uma obra de cunho popular, O Lenhador é um filme recomendável por analisar a organização da estrutura moral humana. Vencedor do Prêmio Júri no Festival de Sundance (2004, EUA), além de outras conquistas, a obra ganha pontos por possibilitar releituras de cunho psicossocial, além de quebrar paradigmas e permanecer com a essência clássica, ousadia que leva à discussão elevada. Descubra-o nas locadoras.

FICHAO Lenhador poster TÉCNICA

THE WOODSMAN

EUA, 2003.

Diretor: Nicole Kassell.

Elenco: Kevin Bacon, Kyra Sedgwick, Yasiin Bey, Michael Shannon e Benjamin Bratt

Duração – 87 minutos

Imagem Filmes

 

 

 

 

Confira o trailer >

 

SOLDADOS DE SALAMINA – reflexão sobre memória e história

Uma reflexão sobre o que é memória e o que é história diante de um dos episódios mais sangrentos da história universal: a Guerra Civil Espanhola. É o que oferece o romance Soldados de Salamina, de Javier Casas, ao revisitar a Guerra Civil Espanhola e um de seus mais importantes personagens, o falangista Ráfael Sanches Mazas

Fotos da época da guerra retratada em SOLDADOS DE SALAMINA, livro de Javier Cazas Fotos: Getty Images

Fotos da época da guerra retratada em SOLDADOS DE SALAMINA, livro de Javier Casas  Fotos: Getty Images

CLEIDE PARENTE

Para criar uma narrativa distinta dos convencionais romances históricos, Javier Casas, 52, recorre a um alterego – um ex-jornalista e ex-escritor que volta à redação depois de uma fracassada carreira literária, atormentado por problemas financeiros e amorosos (foi abandonado pela mulher que não suportava mais arcar com as despesas da casa).

O autor se vale desse subterfúgio para compilar, em entrevistas e relatos, o que viria a ser o seu projeto maior: um livro sobre a intrigante história de Ráfael Sánchez Mazas (1894-1966), um dos líderes do Partido Falangista durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Por força da profissão, acaba por entrevistar Rafael Sánchez Ferlosio, o filho do falangista. E é durante esse encontro que surge a versão de como tudo ocorreu.

Na Madri republicana no período inicial da guerra, Rafael Sánchez Mazas, líder do movimento falangista espanhol, refugia-se na embaixada do Chile e lá permanece por um longo período.  Sua fuga, em um caminhão, é frustrada pela tropa republicana que o prende em Barcelona e o leva para ser fuzilado em um ponto próximo à fronteira. Alí encontra outros falangistas que, como ele, terão o mesmo fim. As balas, no entanto, atingiram seu corpo apenas de raspão.

 Para saber mais sobre Javier Cercas, acesse aqui www.javiercercas.com

Aproveitando a confusão, Mazas consegue escapar até um bosque próximo, mas é perseguido e localizado por um dos milicianos. Naquele momento de tensão extrema, os olhares se cruzam e mais uma vez, o destino de Sánchez Mazas toma uma rota improvável. Indagado pelos milicianos se havia encontrado alguém, o soldado ainda a olhá-lo nos olhos responde: “Aqui não tem ninguém”. Vira-se e vai embora.

Adaptação Cinematográfica

Quando em 2003 o diretor espanhol David Trueba adaptou para o cinema a história do falangista Rafael Sánchez Mazas, sabia que tinha em mãos um dos episódios mais intrigantes acontecidos durante a Guerra Civil Espanhola. O filme recebeu oito indicações para o Goya (o Oscar espanhol) de 2004, tendo conquistado a categoria de Melhor Fotografia.

 Pouco conhecido no Brasil, o cineasta teve há alguns anos uma Mostra com cinco de seus trabalhos apresentados no Centro Cultural São Paulo, entre os quais, Soldados de Salamina. Em 2012, em Paraty, autor e diretor, convidados  para a Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), exibiram  a película e  a debateram com o público na programação Da Página Para a Tela.

Não será fácil encontrar o filme nas locadoras brasileiras, pois foi lançado há mais de 10 anos pela extinta distribuidora Videofilmes. Vale, no entanto, uma busca nos sites de vendas. Já o livro está disponível nas melhores livrarias.

 FICHA TÉCNICA

SOLDADOS DE SALAMINA
Autor: Javier Cercas
Espanha, 2001
Editoras no Brasil: Biblioteca Azul
Páginas: 274
Preço: R$ 34,90
Coleção Folha

Conheça o trailer do filme Soldados de Salamina.